Eu faço parte de um grupo sobre a série Sherlock no facebook, e durante o fim de semana um post com a foto de Benedict Cumberbatch na roupa do Doutor Estranho apareceu na minha timeline. É uma foto provavelmente tirada por alguém da produção (que, caso descoberta, muito provavelmente perderá o emprego e será processada). Eu achei a caracterização legal, mas o que realmente me chamou a atenção foi o primeiro comentário da foto. Um rapaz dizia que era “poser de Doutor Estranho, mas não podia deixar de ver aquele filme”. E eu fiquei pensando sobre isso.

À medida que a Cultura Pop foi se tornando cada vez mais popular, levando os assuntos tradicionalmente nerds e geeks para a população que antes não conhecia ou não tinha interesse nesse mundo, ela também foi se ramificando. Assim como o Multiverso da DC ou as diversas Terras da Marvel, a Cultura Pop hoje possui uma estrutura que vai além de sua origem nos quadrinhos. E isso reflete nos fãs de cada uma dessas ramificações.

A maior crítica que eu recebi para a minha resenha de Deadpool foi que tudo que eu questionava podia ser respondido com o quadrinho. Exceto que o filme não é o quadrinho, ele é uma obra sozinha que não apresenta todos os elementos para o público em geral. E o mesmo pode ser dito de todo o universo Marvel ou DC. Mesmo a ultima e aclamada trilogia do Batman funciona como um stand alone, não é algo que esteja ligada aos quadrinhos a não ser pelo personagem, que também possui traços de personalidade que talvez sejam diferentes daqueles das HQs. E isso é ok. Porque o cinema e a televisão são meios que atingem um público muito maior que os quadrinhos, e esperar que todos os espectadores tenham o conhecimento de 60 anos de histórias é, no mínimo, ridículo.

Assim como Deadpool, X-Men, Vingadores e Batman v Superman, Doutor Estranho será um filme baseado num personagem de quadrinhos, mas isso não quer dizer que ele será O personagem das HQs, esse que você pode estar lendo atualmente. Isso também não quer dizer que para assistir ao filme você precise ler todas as décadas de histórias com o personagem. Você não precisa, porque esse universo, o Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) funciona como um universo paralelo. Você não precisa ter lido 60 anos de Homem-Aranha para ler Ultimate Spider-Man. São realidades que correm paralelas. E se funciona dessa maneira, porque não podemos ter fãs de diferentes realidades?

nerd-de-verdade-poser

Eu fiquei pensando no que esse rapaz comentou, e em como a página respondeu muito bem ao comentário, porque me deixa decepcionada que se tenha criado uma cultura dentro da Cultura Pop em que você ou lê/assiste/ama tudo, ou você não é o tão falando “nerd de verdade”. Ainda mais porque essa credencial, e as pessoas que cobram tal credencial, parecem não se dar conta de que um universo ajuda o outro a se manter. Com a primeira onda de filmes de Super-Heróis dos anos 2000 vieram novos e interessados leitores, ajudando a indústria dos quadrinhos a se manter apesar das diversas quedas de vendas. Com o MCU invadindo as salas de cinema e as emissoras de televisão, com Arrow/Flash/Supergirl, e com os novos filmes da DC, novos espectadores vão se aproximando dos quadrinhos e se juntando à todos os leitores que vêm fazendo isso há 16, 20, 30 ou 40 anos.

Mas alguns deles vão preferir ficar só nos filmes ou nas séries de televisão – e isso é ok também. Porque eu adoro X-Men, Batgirl, Miss e Capitã Marvel, e eu estou lendo a Infinite Gautlet, e li Mulher-Maravilha e Superman, mas eu sempre preferi as animações da Liga da Justiça e os desenhos do Batman e dos Novos Titãs. E se eu tivesse que ler e assistir absolutamente tudo que existe de absolutamente todos os universos da Marvel e da DC (e da Image, e da Dark Horse) eu teria que parar de trabalhar, comer e tomar banho para que eu pudesse me considerar uma “nerd de verdade”. E meu cérebro talvez se fundiria.

Então se o rapaz gosta de Sherlock e do Benedit Cumberbatch, e resolver ir ao cinema assistir Doutor Estranho – maravilha. E se a moça conheceu a Marvel através dos filmes e das séries de televisão e não tem interesse em ler os quadrinhos, tudo bem também. Assim como o cara mais tradicional que não gosta dos filmes e das séries. Ou do cara que prefere ler as novelizações e não ler nem assistir mais nada (apesar de que eu não sei se essa pessoa de fato existe). Tá tudo bem.

Porque seja você o-grande-nerd-que-leu-assistiu-tudo, ou você o nerd que só assiste ou só lê, ninguém é poser. Poser é o cara que cobra a tal credencial e insiste em dizer quem é o “nerd de verdade”.

%d blogueiros gostam disto: