Esta é uma carta de apoio ao blog PacMãe e à jornalista Fernanda Café, que foram atacadas após um texto que criticava o podcast Matando Robôs Gigantes e seu discurso machista.

Olha amigues, tá fácil o dia hoje não.

Carta de apoio ao blog PacMãe, à Jornalista Fernanda Café e de repúdio ao MRG.

Ser mulher e navegar o ambiente nerd é uma coisa complicada. Você ama, se diverte e se interessa pelas mesmas coisas que os caras; você discute os mesmos tópicos, assiste e adora os mesmos filmes e séries, lê os mesmos gibis e os mesmos livros. Mas você nunca vai ter a liberdade de se movimentar dentro desse ambiente da mesma maneira.

Algumas semanas atrás, o Matando Robôs Gigantes, comandado por Diogo Braga, Affonso Solano e Roberto Duque Estrada, soltou um Podcast em que, enquanto discutiam sobre o Batman, os três participantes falaram absurdos sobre o ato de amamentar em público. Disseram que amamentar em público é horroroso, que a atitude de um homem olhar para os seios da mulher nesse momento é absolutamente natural, por uma questão de instintos, e que as mulheres deveriam se cobrir. Pérolas machistas do dia a dia, carregadas de falta de informação, preconceitos e machismo.

Amamentar não tem absolutamente nada a ver com o homem, tem a ver com a mulher e seu filho. Não tem nada a ver com o olhar machista e assediador masculino, não é sobre como o homem sente nojo ou tesão pelo seio feminino – dependendo do tipo de serventia que ele tiver. É sobre dar vida, sobre ser mulher e alimentar o seu filho. A opinião masculina, principalmente se machista e misógina, pode e deve ficar bem longe desse tópico.

Homens conseguem segurar o impulso de cagar nas calças em público, mas não conseguem segurar o olhar assediador para cima de uma mãe amamentando o filho. Vai entender.

As meninas do PacMãe e várias outras – e outros – nerds ficaram indignadas e ofendidas com os comentários. Como o site é exatamente sobre ser mãe e ser nerd, coube a elas, mais precisamente à jornalista Fernanda Café, o trabalho de dar voz a essas pessoas insatisfeitas. Foi um texto que descrevia o diálogo dentro do podcast e tecia uma crítica aos participantes e ao discurso que eles reproduziam. O texto foi ao ar depois da jornalista ter feito uma tentativa de contato com os autores e de não ter sido recebida resposta.

Em meio ao burburinho que o texto causou, Affonso Solano resolveu criticá-lo no Twitter de maneira rasa e acusativa. Talvez o assunto tivesse morrido ali – até que o mesmo resolveu postar em sua página pessoal um comentário que a esposa do Diogo Braga fez no texto do PacMãe – incitando a fúria de seus fãs contra a Nanda e contra o blog. Esse post foi apagado da página do autor.

Essa merda toda aconteceu por uma única razão: o ego ferido do Affonso Solano. Veja bem, D. Maria fez um comentário defendendo o marido – o que é absolutamente justo, todo mundo tem o direito de defender quem bem entender. Mas, ao utilizar esse comentário para aumentar a polêmica, Affonso vitimou a jornalista e o PacMãe.

Em um dos seus comentários no post, Solano disse “Vocês já viram os comentários no blog dela? São assustadores.” Me pergunto se ele mesmo presta atenção nos comentários do MRG, inundados de machismo, misoginia e homofobia. Seria engraçado, não fosse trágico, que logo ele questione os comentários no PacMãe. Porque, para ele, não há nada mais assustador do que mulheres dando voz a insatisfações com o podcast deles e com o mundo nerd. Não há nada mais assustador do que ver o seu lugar no Olimpo ser questionado?
Pra mim, assustador de verdade é perceber que um cara com a base de fãs que ele tem ainda não tenha ainda se dado conta de que – queira ele ou não – ele é formador de opinião, que seus fãs vão olhar para eles na procura por um comportamento, por aprovação e por aceitação. E que, ao invés de realmente investir seu tempo para mudar um comportamento machista que se enraíza em todos nós desde novos, ele prefere usar o seu status para justificar um discurso vazio e desinformado, cuja única função é se colocar contra oi direito da mulher que decidir amamentar em público.

Esse comportamento é algo que vemos o tempo todo na mídia nerd e na mídia de maneira geral. Alguém faz uma merda e, ao invés de se desculpar e tentar desconstruir, essa pessoa liga o modo defensivo e ataca. Acontece lá fora e acontece aqui dentro. Fernanda e o PacMãe não são as primeiras mulheres jornalistas no Brasil a sofrer com a ira nerd, uma ira que é constantemente gerada por egos feridos que se recusam a aceitar de verdade algumas mudanças positivas da nossa sociedade.

Há quem defenda os caras do MRG dizendo que eles muitas vezes defendem as questões feministas, como no vlog em que discutiram o FIFA 2016. Esse vídeo tem um discurso que pode até carregar boas intenções, mas é marcado por opiniões machistas e pelo silenciamento das opiniões feministas que talvez surgissem em crítica ao discurso deles. O que as pessoas que defendem o MRG com esses argumentos não conseguem ver, e aparentemente os próprios membros do podcast também não, é que não adianta falar sobre feminismo se você mesmo não está se desconstruindo. Não adianta dizer que é feminista, que defende a diversidade e a inclusão, se na hora em que te apontam o seu erro você resolve dar carteirada, você tenta calar a voz da mulher e ainda por cima joga uma base de fãs contra ela. Isso não se chama aceitar diálogo, isso é bullying. Diálogo se constrói no ouvir os outros, entendê-los, e não se fechando e se auto proclamando dono da verdade.

O Affonso Solano pode até não ter mandado que seus fãs atacassem a Fernanda diretamente, mas isso aqui é a internet, e não a terra da fantasia. Assim como o podcast deles gerou indignação, o post na página do facebook pagando de injustiçado, junto com todos os twittes passivo-agressivos, geraram aquilo que a internet sabe gerar de melhor: ódio. Enquanto o PacMãe, em seu texto, mostrou os erros e desconstruiu o discurso desinformado do MRG, Solano optou por atacar, sem assumir responsabilidade pelo que disse. Quando você tem o poder de mover uma multidão de fãs raivosos, você precisa sim entender que o seu discurso de injustiçado vai gerar uma reação negativa que vai sair do seu controle – e, ainda assim, você é responsável por ela.

Se você quer se desconstruir, se você realmente acha que inclusão e diversidade são temas importantes dentro do mundo nerd, então aprenda a escutar, a dialogar e a quebrar os seus privilégios e o seu machismo. Entenda que, como homem, você tem um lugar de poder dentro desse nosso meio e que, exatamente por estar nesse lugar, tem também a responsabilidade de se desconstruir e ajudar o seu público a desconstruir. Não espere passividade e muito menos cookie quando você mudar, não fale que quer mudança apenas para ganhar tapinha nas costas. Se empenhe de verdade na mudança, aprenda a aceitar críticas e a se desculpar pelos seus erros.

O PacMãe e a Fernanda tem um histórico de luta e divulgação do universo nerd, são jornalistas que levam o blog por amor ao mundo nerd, ao feminismo e que sabem o quão difícil é transitar dentro dessa meio sendo mãe e sendo mulher. Ao longo dos dois anos do blog, elas juntaram outras mães, pais ou simplesmente nerds com um trabalho coerente, informativo, divertido e de extrema importância. As críticas que elas levantaram ao discurso dos caras do MRG, e ao modo como esse discurso é dito, são contundentes com o cenário atual desse nosso universo que está cada vez mais abrindo espaços para minorias, mas que ainda possui um discurso tão machista e exclusivista. Elas entendem que, quando a gente coloca um texto no ar, uma notícia ou uma matéria com opiniões próprias, precisamos estar cientes do efeito que isso pode causar, dos danos e dos benefícios. Não basta apenas falar – é preciso ouvir.

Cada um é responsável pelo que entende – mas nós somos responsáveis pelo que falamos, e é isso que o MRG parece não entender.

O Collant Sem Decote e o Minas Nerds apoiam o PacMãe e a Fernanda. A luta que travamos todos os dias pela inclusividade não vai ser derrubada por causa de um grupo de machistas. Vocês podem vir em bandos, mas somos mais fortes e juntas somos milhares, juntas somos uma muralha, juntas somos uma legião – juntas continuaremos avançando.

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