“Vocês estão julgando alguém que não conhecem”

“Isso é muito sério, pode acabar com a vida do cara”

“Vocês tem provas do que estão dizendo?”

É isso o que a gente sempre ouve diante de alguma acusação de abuso. Foi isso que a gente ouviu a semana toda desde que Laércio, participante do BBB 16, que está no ar agora, foi chamado de pedófilo por Ana Paula, outra participante. Acontece que Ana Paula não tirou isso do nada. Vejam, por mais que tenham ensinado pra gente que mulheres são todas loucas que pensam com o útero na época da TPM, na real a gente não é tão maluca assim. Laércio contou aos outros participantes que vive um relacionamento poligâmico com uma menina de 17 e uma de 16 anos. Ele mesmo falou, tá? Eu não vou nem me dedicar a problematizar a parte do relacionamento poligâmico nesse caso, porque a gente não quer morrer de gastrite hoje. Eu vou focar só na parte da idade mesmo.

A página do Facebook desse homem é um show de horrores. Tem fotos de adolescentes seminuas, comentários grosseiros e machistas, entre outras coisas. Mas eu não precisava ter visto isso. Gente, ele mesmo falou que gosta de mulheres novinhas. Ele mesmo disse que gosta de dar bebida pras meninas para que elas fiquem “mais soltinhas”. E não é de hoje que a gente conhece a cara dele. Diversas páginas feministas já haviam alertado sobre ele muito antes de ele entrar no BBB.

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Fonte: facebook

E no entanto ele está lá, tomando sol na piscina, meditando, deixando o banheiro sujo para mulheres limparem, olhando pra bunda das mulheres da casa, dizendo que precisou bater uma punheta quando viu uma participante dançando. Nada que ele não faria se estivesse longe da televisão. Laércio não vê nada de errado em sentir tesão por adolescentes. Tanto não vê que disse isso diante de um monte de câmeras.

Daí Ana Paula briga com ele, diz que não é obrigada a ficar perto de um pedófilo e o que acontece? Os homens da casa dizem pra ela que essa acusação é muito séria, que ela não pode falar isso de alguém, que isso é criminoso. Claro, quando ele diz que “come adolescente” é só o gosto pessoal dele; quando ela diz que isso é errado, ela está desrespeitando ele.

Fonte: gshow

Mas a verdade é que Laércio e outros homens pedófilos ou abusadores não estão sendo julgados ou tendo sua vida estragada. Ninguém te conta, mas eles não estão. Quando o programa acabar, Laércio vai continuar assediando meninas menores de idade, vai continuar embebedando meninas para facilitar o sexo, vai continuar fazendo tudo do jeitinho que vem fazendo. Ele não vai ser ~julgado~ por um único motivo: nem ele e nem grande parte da sociedade acha que ele fez algo de errado.

Uma digressão rápida: quando alguns anos atrás deu todo aquele rolo com o Woody Allen, quando a enteada dele denunciou ter sofrido abusos por parte dele, eu tive diversas discussões com amigos. Me disseram que não havia provas e que a gente não podia linchar o diretor virtualmente por uma coisa que não sabíamos se tinha acontecido. Briguei, briguei, briguei e no fim nada mudou. Meus amigos que curtiam ele continuaram curtindo, meus amigos que não curtiam ele continuaram não curtindo e todos nós concordamos em discordar. E eu pergunto pra vocês agora: o que mudou na carreira de Woody Allen depois de uma denúncia de abuso? Absolutamente nada. Algumas pessoas não vão mais ao cinema ver seus filmes? Alguns atores se recusaram a trabalhar com ele depois disso? Ele ganhou prêmios no mesmo ano que a denúncia foi feita, gente. Eu, pessoalmente, tenho muita dificuldade de separar obra de artista. Para mim, quando a gente admite que um abusador continue vivendo sua vida como se nada tivesse acontecido, a gente tá sendo conivente e, pior, muito egoísta. Pra mim a gente tá dizendo, em outras palavras, “EU não ligo se ele é um criminoso, porque EU gosto das obras dele e EU não quero parar de fruir disso”. Mesmo que doa pras vítimas ver o nome do seu abusador em letras brilhantes e listas de Oscar. E a lista é longa.

“Parem de culpar a vítima” (Fonte: tumblr)

Eu espero que até aqui vocês já tenham percebido o denominador comum entre os casos: todos são crimes contra mulheres. Será que se Laércio tivesse dito no ar que gostava de embebedar pessoas para roubar a carteira delas, ele ainda estaria lá? Será que se Woody Allen tivesse sido acusado de assassinato, ele continuaria ganhando prêmios? Quão tolerantes nós somos quando o assunto é violência contra a mulher? A gente trata a violência contra a mulher como um crime menor. E o assunto parece que fica ainda pior quando envolve mulheres menores de idade.

Um tempo atrás li um texto no Literary Hub (que estou arranjando tempo pra traduzir pro português pra ficar mais acessível pra todo mundo) que falava sobre o livro “Lolita”, mais especificamente sobre homens explicando Lolita para a autora do post, uma mulher que, como muitas de nós, leu o livro e ENTENDEU (apesar dos meninos dizendo que entenderam melhor que a gente). Todos conhecemos a história: homem de meia idade que conhece menina adolescente, cria uma fixação nela e a abusa sexualmente por anos a fio, até que ela consiga fugir dele, tenha uma vida destruída e ele não a queira mais porque ela perdeu o ar de inocência que tanto o atraía. Certo? ERRADO! O que a autora do texto expõe é que nós “””””não entendemos””””” o livro direito. Que vários amigos homens dela disseram que a beleza de um livro bem escrito é conseguir fazer com que nos coloquemos no lugar da personagem, consigamos olhar o mundo pelos olhos dele. Ou seja, a grande sacada de Lolita seria “conseguir sentir empatia pelo pedófilo”. Pois é.

 

“Lolita” (1962) – Dir. Kubrick (Fonte: tumblr)

Eu não li Lolita jovem, diferente de muitas amigas minhas. Eu fui ler Lolita com 21 anos. Graças a Deus. Porque se eu tivesse lido muito cedo talvez eu não tivesse percebido uma série de coisas que percebi depois. Eu já fui adolescente como todo mundo. Eu tenho, hoje, alunos e alunas de 14/15 anos. Adolescência é um dos momentos mais complicados da vida. A gente não é mais criança e já tem autonomia e liberdade pra muita coisa; mas a gente ainda não tem vivência. A gente ainda não tem aquele alarme que toca na cabeça quando alguma coisa tá MUITO errada. Porque o som desse alarme vai aumentando com o tempo. Então mesmo que ele já soe quando a gente é adolescente, nem sempre a gente escuta. Então quando a gente é adolescente e um cara fala pra gente que “a gente é muito madura pra nossa idade” a gente não percebe o que está nas entrelinhas: é papinho.

Existe esse mito na sociedade que “mulheres amadurecem mais rápido que homens” então se uma menina de 15 anos quiser namorar um cara de 40, ela sabe o que está fazendo, mas se um menino de 15 anos sair com os amigos, ficar bêbado e fizer merda, perdoa o menino que ele é crianção, não tá maduro, não sabe o que tá fazendo. Essa concepção é a desculpa que se usa para dar aquela passada de pano básica no pedófilo. SIM, NO PEDÓFILO. Porque é feio dizer que é pedófilo, coisa de criminoso, é nojento, né? É. Até que aquele cara que você gosta, inteligente, legal, divertido, de esquerda, politizado, aparece namorando uma menina de 14 anos. Aí tudo bem, porque “ela é super madura, sabe o que tá fazendo”.  E as relações entre homens mais velhos e mulheres mais jovens são normalizadas. Eu canso de ler sobre casais com 30, 40 anos de diferença; a Maggie Gyllenhall, aos 37 anos, foi considerada velha demais pra ser par romântico de um homem de 55 anos, lembra?

Fonte: Facebook

Fonte: Facebook

Acontece que, sabe aquela tal de vivência que eu mencionei lá em cima, gente? Então, ela conta e MUITO quando estamos falando de homens adultos e meninas adolescentes. Porque uma coisa é você, mulher de 30 anos namorar um cara de 50. Outra beeeem diferente é o bonitão de 35 anos achar de boa namorar uma menina de 15. Spoiler: não é de boa não. É abusivo, é pedófilo. E aquele termo que as pessoas tanto adoram usar, “novinha”, nada mais é do que uma sexualização de meninas (crianças e adolescentes).

Mesmo que a idade de consentimento seja aos 14 anos, essa diferença de idade nesse momento da vida faz muita diferença. E não é porque a menina já menstruou, já deu uns beijos na boca, já tem peito e bunda que ela se torna menos adolescente ou menos suscetível a acabar num relacionamento abusivo. Idade também é Poder nesses casos.

“Qual parte de ficar em hoteis cinco estrelas, comer nos melhores lugares, fazer tudo o que você queria, é estupro?”

“A parte em que eu não queria fazer nada disso.”

E aí voltamos pro Big Brother. Porque, gente, temos um homem cinquentão, dizendo em rede nacional – numa tv aberta pra piorar – que namora com duas meninas, uma de 17 e uma de 16, que gosta de meninas novinhas, que dá bebida pra adolescentes pra deixar elas mais soltinhas. Isso está acontecendo agora, ao vivo. E a única mulher que tomou a difícil decisão – porque é muito difícil enfrentar abusador – de jogar na cara dele o que ele era, um pedófilo nojento, está sendo chamada de louca, histérica, sem respeito.

Fonte: o tv foco

Fiquei lembrando da campanha #meuamigosecreto. Mulheres compartilhando momentos difíceis de assédio e homens falando que não adianta mandar indireta no Facebook; que tem é que denunciar pra polícia. Esses mesmos homens são aqueles que se dizem muito feministas mas que não tem coragem de mandar o amiguinho machista calar a boca. São os mesmos que, diante de uma denúncia de pedofilia, se preocupam mais com os sentimentos do pedófilo do que com o estrago que eles possam ter feito na vida de suas vítimas.

Tá pouco pra vocês? Então pega essa: o principal defensor de Laércio na casa, Daniel, é dono de uma empresa de peruas escolares. Pois é, o cara trabalha com crianças e adolescentes e acha de boa um homem de 53 anos namorar duas menores de idade. A gente vive num país onde mais da metade das vítimas de estupro tem menos de 13 anos; num país onde quase 90% das vítimas de estupro são mulheres. Mais de meio milhão de meninas entre 13 e 17 anos no Brasil já são casadas, com homens muito mais velhos, em relacionamentos abusivos. E mesmo assim, estamos assistindo a essa irresponsabilidade na televisão e repetindo clichés vazios de que “amor não tem idade”, quando não estamos mais uma vez, colocando a culpa na vítima por ter sido assediada.

Ó o apresentador do The Voice Kids como é brando com pedofilia! (Fonte: twitter)

Ó o apresentador do The Voice Kids como é brando com pedofilia! (Fonte: twitter)

O que isso tudo nos mostra? Que independente de estarmos falando de televisão e reality shows, com toda a carga de ficção e manipulação que isso traz, o que está acontecendo lá nada mais é do que o que vivemos todos os dias. Nos ensinaram que “in dubio pro reu”, ou seja, que todo mundo é inocente até que se prove o contrário. Mas quem tem que provar nunca é o estuprador, mas sim a vítima. A mulher é quem tem que provar que “tem certeza que foi estuprada”, que não estava pedindo por isso. E que as acusações não sejam gritadas, porque se forem podem machucar os sentimentos do “suposto abusador”. A televisão se esforça tanto para manipular a realidade que dessa vez acabou acertando em cheio e mostrando a situação mais verdadeira que poderia: todo mundo finge que acha pedofilia um horror, mas acaba se preocupando mais com o pedófilo do que com a vítima.

Fonte: gshow

Mas por que a emissora permite que isso tudo aconteça? Porque a emissora, na verdade, não dá a mínima desde que gere lucro. Porque e daí que temos um pedófilo falando tudo o que quer impunemente? Tá dando audiência? Vai dar pra aumentar o valor do comercial do programa? Vai ter mais gente votando a favor ou contra? Então deixa ele lá. Agora, podem me dizer que eu não respeito a liberdade de expressão – não é nada que eu já não tenha ouvido antes – mas pra mim, tem coisas que você não tem o direito de dizer. Você não tem o direito de falar que “gosta de novinhas” e ninguém pode te questionar porque “gosto não se discute”. Você não tem o direito de ser racista, machista, homofóbico e dizer que é só sua opinião. E principalmente, você não tem o direito de ter uma concessão pública de televisão e se manter em cima do muro diante de uma questão tão séria quanto a pedofilia. Porque fazer Globo Repórter citando histórias meninas que sofrem abuso sexual é fácil. Eu quero ver é tomar atitude quando a pedofilia deixa de ser distante dado de pesquisa e passa a ser fato diante dos nossos olhos.

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