Quando uma celebridade morre, a mídia faz todo tipo de anúncio. Às vezes eles acertam, às vezes eles erram. Os fãs explodem em um turbilhão de emoções: Uns choram, outros questionam e alguns não entendem. Quando Carrie Fischer faleceu, no final do ano passado, os fãs de Star Wars, antigos e novos, perderam um pouquinho do chão. Uma figura presente no fandom desde o começo, Carrie não era só a princesa Leia, ela era um símbolo sozinha de esperança e perseverança.

É normal que esses mesmos fãs se sintam confusos com a notícia de que encontraram drogas no sistema de Carrie durante a autopsia, mas o que nós não temos o direito é de julgá-la.

A autópsia dizia que não havia como comprovar qualquer relação entre a presença das drogas no sistema da atriz com a causa da morte, registrada como apneia do sono. Mas mesmo que tivesse, mesmo assim nem eu nem você teríamos o direito de julgá-la. E eu me incluo nesse nós por causa da minha primeira reação ao ouvir a notícia. É importante ressaltar que o conteúdo da autópsia não foi divulgado com a autorização da família, ele foi revelado ilegalmente através de um vazamento de informação – infelizmente uma prática muito comum em Hollywood.

Divulgar a informação como “havia drogas no sistema de Carrie Fischer quando ela morreu”, não é só sensacionalista, é desumano.

Carrie sempre falou sobre a sua luta contra o abuso de drogas e sobre a difícil tarefa de viver com a bipolaridade. Ela discutia os dois assuntos com frequência e abertamente sobre os seus problemas, muitas vezes através do humor. O uso de drogas, as legais e as ilegais, pode gerar a dependência química que pode gerar uma dependência emocional e, se a pessoa já possui algum tipo de distúrbio psicológico, isso fica ainda mais difícil de se lidar.

Talvez porque ela falava tão abertamente, talvez porque ela tinha voltado com força para Star Wars e nós tivéssemos recebido ela com tanta euforia nós tenhamos esquecido que a batalha é constante. E que constante não quer dizer que ela terminou, mas que ela é permanente. E Carrie ter falecido não quer dizer que ela perdeu.

Não há nada naquele pedaço de papel que diminua quem Carrie foi, nem o que ela representou para todos nós.

No sábado minha mãe me falou que tinham encontrado os resquícios de drogas na autópsia de Carrie. Fiquei brava que os jornais pudessem ser tão irresponsáveis em traduzir “drugs” como drogas, quando drugs em inglês pode simplesmente significar remédio. Até então não se sabia do conteúdo da autópsia, apenas o que a própria família havia liberado. Não é que eu tenha automaticamente a julgado, mas eu não podia conceber como era possível que Carrie continuasse lutando contra o vício. A verdade é que nós talvez nunca iremos saber se as drogas estavam ali uma única vez após muito tempo, se ela tinha voltado a usar ou se ela nunca tinha parado. A verdade é que não importa.

Dependência química faz com que seres humanos parem de ser vistos como seres humanos, a sociedade olha para eles de cima, como se fossem fracassados e nós, sóbrios, vencedores. Homens, mulheres, desconhecidos e famosos, tudo vira uma estatística e nós deixamos de ver essas pessoas como humanos, e é aí que entra o julgamento. É a partir daí que uma visão de mundo retrógrada e preconceituosa leva a comentários como “ela se rendeu ao lado negro da força” ou “a verdade nojenta sobre ela”.

Ninguém está acima de ninguém porque não possui um vício. Carrie foi uma das celebridades que mais discutiu abertamente seus problemas com drogas e sua bipolaridade. Ela continua sendo um símbolo da luta contra a estigmatização tanto de pessoas com dependência química como de pessoas com distúrbios psicológicos – e os dois não são necessariamente um resultado do outro.

Então, se você ficar confusa com a notícia de que havia restos de drogas no corpo de Carrie Fischer, lembre-se que apesar dela ser a Princesa e a General mais guerreira das galáxias ela também era, no final, humana. Olhe para as grandezas que Carrie deixou para trás, e entre tantas talvez a mais importante seja exatamente uma discussão mais aberta e franca sobre drogas, sobre a influência negativa de Hollywood nos jovens artistas e sobre distúrbios psicológicos.

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