Recentemente me perguntaram o que eu esperava de Steve Trevor no filme da Mulher Maravilha. Para quem não conhece o personagem, ele é o interesse amoroso mais clássico da MM e, no longa que estréia no próximo mês, ele é interpretado por Cris Pine (Star Trek). O medo era que Steve tivesse tanto ou mais tempo de tela que a heroína-título do filme, diminuindo a personagem e passando Steve para um patamar além do que ele realmente é nos quadrinhos.

Eu não acho que a Warner/DC seria burra de dar a um personagem masculino pouco conhecido mais espaço do que a protagonista do filme. Diferente de Lois Lane, Steve não é um interesse amoroso que está sempre associado à Mulher Maravilha, ele nunca ganhou muito destaque e, posto que o filme se passa durante a Primeira Guerra Mundial, não acho que ele vá ganhar mais. Dar mais tempo de tela à Steve do que a Diana seria um tiro no pé em diversas frontes, tanto com o público como com os críticos, que com certeza notariam, e a gente sabe que a relação da Warner/DC com os críticos não anda nada incrível.

A verdade é que eu nunca pensei sobre o que eu esperava para Steve Trevor, e até achei que seria legal vê-lo como Donzela em Perigo mas, ao ser questionada, eu me dei conta de algumas coisas. Eu não quero que Steve seja só um interesse romântico descartável, como aconteceu em todos os filmes solo do Batman até aqui (os do Nolan inclusos). Eu não quero que ele seja o interesse romântico que existe só para garantir que o personagem é hetero, como Christine em Doutor Estranho. Não quero que ele seja só um objeto de cena com  qualidades, como a Pepper nos primeiros Homem de Ferro. Não quero que ele seja o interesse romântico que tenta muito ser relevante, mas que acaba sempre no papel de donzela em perigo, como a Jane em Thor.

Eu espero que Steve Trevor seja a Peggy Carter da Mulher Maravilha.

Peggy, a melhor agente. #Saudades

Assim como Peggy com o Capitão, Steve está fadado a ser o amor não realizado da Mulher Maravilha. Não porque ele vá morrer durante o filme, mas porque ele é passageiro e Diana é eterna. Ao contrário do Capitão e da Peggy, cujo romance nunca se completou por um acaso do destino, Steve e Diana tem a eternidade de Diana como algo que invariavelmente os separará. Não acho que o amor dos dois precisa ser um amor trágico como foi o de Peggy e do Capitão, mas acho que há, nesse relacionamento, a possibilidade de tocar em questões e emoções da MM que pouco foram abordadas nas animações, por exemplo, como o fato dela ser uma semi-deusa caminhando entre amigos mortais.

Eu quero que eles sejam “Camaradas de Armas”, quero que Steve lute ao lado da Mulher Maravilha da mesma forma que Peggy lutou ao lado do Capitão. Eu acharia absolutamente ok se num primeiro momento ele tente proteger Diana, já que esse era o pensamento da sociedade na época. Mas quero que ele entenda, ao conhecer Diana, que mulheres, super-poderosas ou não, não deixam nada a desejar no campo de batalha. Essa transformação pode ser importante para registrar que homens podem aprender com mulheres, e que homens podem ser protegidos por mulheres, caso ele realmente caia no tropo da Donzela em Perigo. Quero que os dois enfrentem juntos os perigos da guerra, não só como amantes, mas como companheiros de batalha.

Tá tudo bem olhar para uma mulher em busca de direção. Especialmente se ela for uma princesa guerreira amazona.

Mas mais do que o interesse romântico da MM, eu espero que Steve tenha um arco de personagem, um que não gire exclusivamente em torno dela. Um arco que dê ao espectador razões para acreditar que uma semi-deusa como Diana se apaixonaria por um mortal como Steve. Ele precisa ser merecedor de Diana, e precisa ser merecedor do espectador. Porque quando a gente vai no cinema, e quando vamos ver qualquer filme que seja, só um personagem bem desenvolvido não é o suficiente. E diferente do que algumas pessoas acreditam, só porque um homem está ligado à uma mulher de poder isso não faz dele menos importante, menos interessante.

Recentemente, em uma entrevista ao EW, Gal Gadot disse o seguinte sobre Steve:

Nós não queríamos fazer de Steve a Dama em Perigo. E queríamos que os dois tivessem uma relação em pé de igualdade. Se ela se apaixona por ele, então ele deve ser alguém por quem toda mulher se apaixonaria.

Acho que eu e Gadot estamos de acordo sobre o que Steve deve ser. Patty Jenkins, diretora do longa, completou:

Steve Trevor é a fantasia perfeita para qualquer mulher moderna. “Eu quero ter o trabalho que eu sempre quis. Eu quero ser forte, poderosa e todas essas coisas, mas eu quero muito um namorado gato que pense que tudo isso é ótimo e tenha um senso de humor sobre essas coisas.”

Eu adicionaria à fala de Jenkins a característica “heterosexual ou bi”, mas é ótimo ver que a fantasia feminina foi levada em consideração na hora de criar Steve, e que foi uma fantasia que não parte do que um cara acha que uma mulher quer.

Peggy foi um marco na representação feminina no cinema de super-heróis porque conseguiu ir além da namoradinha. Ela, ainda no primeiro filme, teve um arco de personagem, chutou bundas, comoveu e entrou pra história como talvez o melhor interesse romântico desses filmes. Peggy foi tão grande que acabou ganhando uma série própria e se tornou parte importante na construção da mitologia do MCU. Eu espero que Steve tenha o mesmo tratamento que Peggy, porque quando nós temos personagens de apoio bem construídos, nós temos super-heróis mais interessantes.

Além de Peggy Carter, Steve Trevor poderia ser Max.

Max, o melhor apoio que você respeita.

Em Mad Max – Estrada Furiosa, por mais que o nome de Max esteja no título, fica claro desde o começo que a verdadeira heroína da história, a protagonista daquele conto, é Furiosa. Max é crucial para apoiar Furiosa, ele reconhece que ela é melhor do que ele em situações diferentes, ele dá o ombro para que Furiosa apoie o rifle – Max sabe que naquele momento ele não é o protagonista da história. Isso não quer dizer que ele não é importante.

Se falta protagonistas femininas nos filmes, faltam personagens masculinos de apoio. E quando eu digo de apoio eu não digo só secundários – porque isso está cheio, mas personagens que mostrem homens ajudando e apoiando mulheres em suas próprias batalhas, sem tentar tirar delas o poder, sem tentar roubar para ele o protagonismo. Porque ensinar aos garotos (e aos homens crescidos) que está tudo bem ceder lugar à uma mulher é importante, ensinar que não há nada de errado em não ser o centro das atenções, à perceber quando uma mulher pode resolver algo melhor do que ele, ensinar que é ok confiar e/ou pedir ajuda à uma mulher.

Rapazes, tá tudo bem. Todo mundo precisa de colo de vez em quando. <3

O cinema (e a televisão) que possui protagonismo feminino e/ou de outras minorias, tende a ser mais gentil com homens brancos do que o contrário. Cara Gente Branca dedicou um episódio inteiro ao personagem branco, Estrelas Além do Tempo foi super legal com Kevin Costner e assim por diante. Eu já espero que Steve seja mais do que só um interesse romântico, mas eu também gostaria que ele fosse completo como personagem e que ajudasse a passar a imagem de que homens, mesmo os mais dentro dos padrões, mesmo os que lutam em guerras, podem ter sentimentos e que não tem problema nenhum em apoiar uma mulher quando ela é mais forte que você. Eu espero que Steve seja um mix de Peggy e Max. Espero que ele seja, talvez, a primeira representação masculina positiva dentro do universo cinematográfico da DC. Que Mulher Maravilha venha chutando todas as bundas, e abrindo mais essa porta.

MM estréia dia 1º de Junho nos cinemas. Já garantiu a sua pré-estréia?

%d blogueiros gostam disto: