Na última sexta-feira 21, a Mulher Maravilha recebeu o título de embaixadora honorária pelo empoderamento de meninas e mulheres na ONU. A nomeação veio cercada de polêmica, com pessoas pedindo para a ONU retirar o título de uma personagem ficcional, com outros julgando a personagem pelas suas roupas, algumas pessoas questionando o fato dela ser branca e carregar uma bandeira americana no peito.

Seiscentos membros da ONU assinaram uma petição online contra a nomeação da Mulher Maravilha como embaixadora honorária, além de alguns deles protestarem durante a nomeação, com as costas viradas para o evento. A petição dizia:

Mulher Maravilha foi criada 75 anos atrás. Os criadores originais podem ter tido a intenção da Mulher Maravilha representar uma mulher guerreira, forte e independente com uma mensagem feminista, mas a realidade é que a representação atual da personagem é de uma mulher de peitos grandes, branca e de proporções impossíveis, semi-nua num maiô com uma bandeira americana e botas até o joelho – a epítome da “pin-up” girl. Essa é a personagem que a ONU decidiu que irá representar um tema de importância global, a igualdade entre gêneros e o empoderamento de mulheres e meninas.

Além da petição, diversos textos começaram a surgir na internet sobre como a escolha da personagem é equivocada. Eu quero abordar cada um dos problemas que eu tenho com essas críticas à escolha da personagem como embaixadora honorária, então vou fazer isso através de tópicos.

Sobre as Roupas não serem adequadas

Veja bem, eu sou a primeira a criticar a escolha de uniforme de super-heroínas, em especial da MM, já que lutar contra horas alienígenas, ou na segunda guerra, como será no filme, usando uma mini-saia é claramente uma idéia estúpida. Existe uma disparidade no modo como super-heróis são vestidos para se protegerem, com direito a armaduras ou uniformes que deixam só a boca de fora, enquanto super-heroínas precisam usar variações de maiôs e collants cheios de recortes e salto alto. Essa diferença de representação é um problema. Mas nada disso apaga a relevância da personagem de um ponto de vista global.

Para mim, basear parte da sua justificativa contra a Mulher Maravilha nos trajes que ela usa é julgá-la pelas suas roupas, e não há nada de empoderado nisso. É preciso sim questionar a escolha de figurino da personagem, mas sem passar a mensagem de que ela é inadequada por usar saia curta ou maiô – onde está o empoderamento se a mensagem que você vai passar para as meninas é que a gente deve julgá-la pelas roupas? Quando questionamos os uniformes das super-heroínas não são elas que estão sendo questionadas, mas os homens por trás delas, os caras que tomaram e continuam tomando a decisão de hipersexualizá-las. Diminuir a Mulher Maravilha ao seu uniforme como justificativa para retirá-la da campanha não me parece nada além do que machismo.

Sobre ela ser uma personagem ficcional

O mundo inteiro consome cultura pop. Seja a americana, seja a criada localmente como em países da Africa. A força da cultura pop é algo que move bilhões de dólares todos os anos, e no mundo onde estamos hoje, poder de mercado é visibilidade. A Mulher Maravilha faz parte da tríade mais famosa da cultura pop, junto com Batman e Superman ela é uma das super-heroínas, uma das personagens, mais conhecidas no mundo. Você nasce sabendo quem é a Mulher Maravilha. E ela é a única personagem feminina a ter esse nível de alcance.

Nós temos diversas mulheres reais que são maravilhosas e que já fazem um trabalho incrível com a ONU, e outras muitas que podem ocupar cargos reais, não honorários, lá dentro. Esperava-se que este ano a ONU fosse nomear uma mulher como secretária geral, mas ela recusou oito candidaturas femininas para escolher um homem. O teto de vidro da própria organização parece um pouco transparente demais para que essas críticas saiam lá de dentro, mas mais do que isso, o fato do título ser honorário já diz muita coisa. Mulheres reais podem fazer trabalhos reais, que precisam de presença e que vão impactar de forma mais tangível a vida de mulheres e meninas. O cargo honorário é um cargo simbólico, que cabe muito bem a uma personagem que vai causar um impacto muito mais representativo do que tangível na vida dessas pessoas. A Mulher Maravilha está lá para ser um símbolo, não a mão de obra da mudança.

Ela foi criada usando as cores da bandeira americana, ela ainda as carrega, mas isso não quer dizer que é só nos EUA que ela representa alguma coisa, muito pelo contrário. Assim como o Superman, que também carrega as cores americanas, a MM representa mais do que uma guerreira americana, ela simboliza paz, amizade e igualdade, porque é através desses temas que ela se tornou a embaixadora de Themyscira no mundo dos homens. Eu vejo essa indicação como uma transposição de um título fictício para um real, um que vai ter mais alcance e vai estar menos ligado ao pode masculino no nosso mundo, e mais ao poder de transformação de empoderamento feminino.

Além de tudo isso, ela é uma guerreira, mas que luta pela igualdade e pela paz. Com a ONU atuando em tantas zonas de conflito, com tantas crianças sofrendo no meio dessas guerras, ter uma guerreira que carrega uma mensagem de paz, esperança e igualdade como embaixadora honorária pode ser a representação que essas crianças tanto precisam.

Sobre ela ser branca e ter seios fartos

A Mulher Maravilha tem seios fartos, é verdade. Isso depende de qual artista a está representando, mas é do padrão da MM ter o corpo escultural e isso inclui seios fartos. Como eu disse sobre a escolha das roupas, culpar a personagem pela sua representação é um desserviço a mensagem que está se querendo passar. É preciso criticar sim o modo como ela é desenhada, mas como a gente sempre lembra não é ela quem escolhe a própria roupa. Além disso, Pin-Ups há muito foram apropriadas pela bandeira feminista e de representação feminina, ajudando diversas mulheres a se empoderarem.

Eu acho interessante que essa crítica esteja sendo levantada bem numa época em que começa o aumento da presença feminina também na produção dos quadrinhos. Recentemente a quadrinista brasileira Biquils Evely foi anunciada como a nova desenhista de uma das histórias da amazona, que já contava com Nicola Scott antes dela, e Meredith Fischer nos Novos 52. Além disso, não se engane, Bilquis pode ser uma mulher branca aqui no Brasil, lá nos EUA ela é latina e isso conta muito também.

Das críticas que eu escutei, a que mais me pareceu fazer sentido é o fato da Mulher Maravilha ser uma mulher branca. Teresa Jusino, escritora latina no The Mary Sue, tem alguns argumentos contrários a noção de que a MM é branca:

É preciso lembrar que Diana de Themyscira cresceu adorando tanto deusas gregas como egípcias, e dependendo da versão de sua história, Themyscira está localizada em algum lugar do Mediterrâneo. A Mulher Maravilha – de novo, dependendo da história – pode ser grega, turca ou mesmo do oriente médio.

Ela diz ainda que a decisão de opor-se a personagem foi feita baseada na atriz de um programa de televisão, que apesar de ser vista como branca no final é também parte latina (a mãe de Linda Carter é mexicana), ao invés de usar a complexidade da origem da MM para procurar as camadas de internacionalização que a personagem poderia assumir.

Algo nessa internacionalização da origem da personagem me parece querer demais, talvez porque para nós, aqui no Brasil, gregos caem dentro da categoria branca. Eu lembro de ter ficado feliz com a escolha de Gal Gadot como MM exatamente por ela ser uma atriz de origem não-branca, apesar de em todos os outros aspectos ela se encaixar dentro da beleza padrão, beleza essa que no caso de Gal não cai dentro do que eles vêem como padrão da MM, já que ela não possui os tão difamados seios fartos da personagem.

Considerações Finais

Existe uma ligação entre os 75 anos da MM e o futuro lançamento de seu primeiro longa-metragem nos cinemas com a escolha dela como embaixadora honorária da ONU? Claro, pensar o contrário disso seria ingenuidade. Mas a Mulher Maravilha fez sua primeira aparição na revista All Star Comics #8, em dezembro de 1941, há 75 anos. Ela é uma super-heroína que não deriva de nenhum super-herói, e nesses 75 anos ela se tornou para muitas mulheres e meninas o símbolo de força e perseverança que elas tanto precisavam. Num mundo que consume cultura pop todos os dias, ignorar o poder que uma imagem dessas, construída por tantos anos, pode ter sobre meninas e mulheres é não perceber como as coisas funcionam, é talvez estar preso à uma visão ultrapassada de como a representatividade funciona.

Existem muitas críticas a serem feitas sobre como a MM é desenhada, sobre a escolha de seus uniformes, sobre como a ONU exclui mulheres de seus cargos e mesmo sobre como os próprios soldados da instituição vitimam mulheres refugiadas. Me parece que ao invés de criticar a escolha da Mulher Maravilha como embaixadora honorária, os membros da instituição que criticam a escolha da personagem por motivos como “botas na altura do joelho” poderiam estar aprendendo com ela sobre compaixão, força, igualdade e paz.

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