Batman v Superman: A Origem da Justiça trouxe para as telonas a primeira aparição cinematográfica da Mulher Maravilha – e foi incrível. Porém, nem só de MM vive a representação feminina no filme e eu gostaria de ter visto personagens mais bem construídas e colocadas em posições menos clichês.

Atenção para os Spoilers, o texto tá cheio deles! 😉

Mulher-Maravilha

O grande atrativo do filme, para mim e para muitas outras pessoas, era a primeira aparição da Mulher-Maravilha – e eu não saí decepcionada. Apesar de uma participação pequena, que me pareceu ter sido estendida graças ao imenso hype gerado pelo anúncio de sua aparição no filme, Gal Gadot conseguiu superar as críticas à sua capacidade de interpretar a amazona e entregou uma personagem divertida, carismática, intrigante e, pelo menos para mim, fisicamente forte. Obviamente Gal não é Gwendoline, mas enquanto ela esteve em cena usando o uniforme da MM eu acreditei que ela era mesmo a amazona. Dizer que ela foi o ponto alto do filme parece insuficiente para descrever o modo como ela realmente foi a melhor coisa de BvS.

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Uma coisa que me deixou muito satisfeita coma Mulher Maravilha foi exatamente o fato dela não ter sido sexualizada. Nas cenas das festas, em que Gal veste dois vestidos super sexys, ela não é hiper-sexualizada pela câmera e o mesmo acontece durante as cenas de batalha. Eu me diverti vendo Diana se divertir enquanto lutava e, apenas em uma cena, a movimentação da câmera me causou estranheza. Quando MM cai no chão em um dos momentos, a câmera avança em direção à ela e acaba dando destaque para as suas pernas. Veja bem, não é exatamente sexualização, mas esse destaque às pernas dela só acontece porque ela está com elas expostas.

Por mais esteticamente bonito que o uniforme da MM seja, ele continua sendo pouco prático e nem um pouco verossímil com algo que hoje em dia, seria usado para batalha. Sim, ela é uma amazona de uma ilha de amazonas, e sim, o uniforme dela bebe das origens gregas. Mas sei lá, era de se esperar que, já que ela parece ser letrada na arte da computação, ela também tivesse optado por transformar o uniforme dela em algo mais prático e pronto para a batalha do que uma mini-saia. Mulheres fortes não precisam nem de salto alto nem estar esteticamente agradáveis ao olhar masculino para chutar bundas colossais como a do Doomsday.

Ainda sobre sexualização, logo depois da cena na África, o filme mostra Lois pensando sobre o que aconteceu numa banheira (é incrível a paixão de Hollywood por colocar mulheres pensando sobre a vida em uma banheira), e isso me incomodou logo de cara. A câmera novamente não chega a sexualizar a personagem, mas ainda me pergunto porque diabos ela estava na banheira. Porém, apesar de eu não achar que a sexualização de personagens masculinos é a resposta correta à sexualização de personagens femininas, o filme dá espaço para o female gaze ao mostrar Clark cozinhando sem camisa. É rápido, não é agressivo e funciona. Então nesse quesito o filme está de parabéns.

Apesar da MM ser um ponto alto do filme, o resto das mulheres presentes em BvS acabaram ocupando espaços clichês e problemáticos.

Lois Lane

MAN OF STEEL

Lois foi uma das minhas grandes decepções no filme. Não é que eu estivesse esperando algo maior do que ela foi em Homem de Aço, mas eu realmente não esperava que o filme fosse usá-la de uma maneira tão clichê e, honestamente, babaca. Lois é donzela em perigo em três momentos diferentes no filme o que além de ridículo deve ser algum tipo de recorde. Logo nas primeiras cenas do Superman, Lois está na África atrás de uma entrevista com um ditador local quando precisa ser salva pelo Homem de Aço. Mais tarde ficamos sabendo que isso tudo foi uma manipulação de Lex Luthor para destruir a reputação do Superman, o que a torna apenas num peão no “jogo dos homens” do filme. Lex, mais perto do final do filme, sequestra Lois e a joga de cima de um prédio para que Superman apareça para salvá-la. Se existe uma lista de clichês, jogar a namorada do super-herói de cima do prédio certamente está no topo dessa lista.

Não contente, Lois precisa ser novamente salva no meio da grande luta do filme. Superman precisa parar de lutar para ir salvá-la do afogamento (em mais uma oportunidade perdida de incluir o Aquaman no filme). Esse salvamento em particular, pra mim, foi o mais absurdo. Lois entra num helicóptero e parte para Gotham para tentar salvar/acompanhar o homem que ela ama – ela corre na direção do perigo. Como uma mulher normal, Lois seria um dano colateral fácil na briga entre Batman e Superman, mas isso não a impede. Ela se coloca na frente do Superman e acaba impedindo que Batman o mate. Tudo isso para, logo depois, ela não conseguir recuperar a lança de kriptonita que ela mesmo jogou para debaixo d’água. O filme nem se incomoda em explicar como Lois sabia que eles precisariam da lança contra Doomsday, mas fazê-la incapaz de recuperá-la acabou servindo apenas como uma maneira de diminuir a personagem, já que ela e Superman poderiam ter tido o mesmo momento romântico que eles tiveram antes dele fincar a lança no monstro se tivesse sido ela a recuperá-la. Sem contar que gente, a lança podia ter caído na água quando o porto começou a ser destruído, sei lá. Teria sido uma escolha de roteiro bem mais interessante do que a Lois jogar a lança só pra depois ter que tirá-la de lá.

As Marthas

É muito comum em histórias de super-heróis que eles sejam órfãos, tenham perdido um dos pais ou tenham algum tipo de passado trágico de maneira geral. Em BvS as mães de Clark e Bruce são usados como ponto de encontro entre os dois personagens mas isso acontece de maneira estranha e até simplesmente ofensiva.

Porque nós não vimos vezes o suficiente, o filme abre com a sequência do assassinato dos pais de Bruce Wayne mas, dessa vez, dá-se mais ênfase à morte de Martha, sua mãe. Quando Martha Kent é sequestrada e Superman precisa ou convencer Bruce à ajudá-lo, ou matar o homem morcego, os dois heróis encontram a cumplicidade porque as duas mães dividem o mesmo nome. É muito legal ver personagens masculinos se unindo por causa de uma representação feminina, é realmente algo interessante de ver e que poderia ter sido construída de uma maneira muito legal. Mas o filme é tão cheio de buracos de roteiro e de personagens agindo de maneira aleatória que o momento em que Batman e Superman conectam me pareceu vazio e meio forçado. A escolha por dar ênfase à morte de Martha durante a sequencia inicial pode ter sido uma maneira de fundamentar essa conexão, mas no final ela acabou parecendo algo que saiu do nada.

Martha Kent - Batman v Superman

Imagem via Adoro Cinema

As duas Marthas, no entanto, tem em comum outra coisa além do nome e da estranha amizade entre os filhos, a violência que é cometida com elas. Martha Wayne leva um tiro no rosto, ou pelo menos é isso que a montagem e a cena nos faz acreditar. O sangue que aparece na parte do rosto dela que aparece, a posição da arma na hora do tiro – uma violência muito maior do que a sofrida por seu marido. Pode parecer bobeira, mas em nenhuma representação da cena da morte dos Waynes nós vimos algo tão violento quanto um tiro no rosto. Essa escolha pela violência tão agressiva logo quando dá-se ênfase para a morte da mulher em detrimento da do homem, acaba trazendo a tona o fato de que o sofrimento da mulher precisa ser maior do que o do homem para que o personagem se sinta realmente tocado pelo que aconteceu.

Martha Kent, que é colocada em situação de Donzela em Perigo, é amordaçada, amarrada e tem bruxa escrito na sua testa. Caso Clark não consiga cumprir a ordem de Lex em tempo, ela será queimada como a bruxa que ela é por ser mãe de um demônio que, no caso, seria Superman.

O imaginário da mulher como bruxa e por isso causadora de todo o mal do mundo é tão batido que chega a me dar sono. É uma associação do poder feminino à algo negativo e que serve propósito nenhum em Batman v Superman, é um elemento solto que, novamente, acaba apenas jogando mais um clichê numa já bem cheia bacia deles. Tivesse Martha sido mais ativa no seu resgate, isso talvez tivesse passado mais despercebido, mas como ela é a segunda donzela em perigo do filme, com direito a fotos à la Piada Mortal, essa associação fica apenas de mal gosto. Se a intenção era usar Martha Kent e Martha Wayne como maneira de conectar os dois personagens, eu gostaria de ter visto isso sem a necessidade de subjugar as personagens à situações de violência e clichê tão exacerbados.

Ver a Mulher Maravilha na telona foi o ponto alto do filme, e vê-la em ação me emocionou e me tocou de uma maneira incrível. O modo como o filme procura dar mais espaço para a personagem, em detrimento do Batman, por exemplo, durante a batalha final, mostra que talvez ainda durante a produção a equipe tenha se dado conta de que excluir a personagem do que poderia ser um filme da tríade tenha sido a escolha errada e, na verdade, na contramão do que o mercado está pedindo e oferecendo. Mas por mais que eu tenha amado ver a MM, é uma pena que isso tenha acontecido ao mesmo tempo em que as outras personagens femininas tenham sido jogadas numa pilha de clichês.

Ter apenas uma personagem forte (porque nesse filme a Mulher Maravilha não é uma personagem completa e complexa – e isso faz sentido, já que é uma participação pequena), não justifica nem ameniza o tratamento dado às outras personagens femininas. Batman v Superman: A Origem da Justiça teria ganhado muito se não tivesse optado por tirar de Lois e de Martha Kent a autoridade sobre as suas próprias ações, se não as tivesse usado apenas como vítimas no jogo de testosterona de Lex, Batman e Superman.

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