Vai novela, vem novela, sempre aparece uma personagem feminina novinha que se envolve com um cara mais velho. Mulheres mais novas se interessam por caras mais velhos? Claro! E se essa relação é retratada de maneira coerente isso está longe de ser um problema. Várias amigas gostam de caras mais velhos e tem relacionamentos saudáveis e equilibrados.

Mas e se o cara foi o primeiro homem com quem essa menina transou? E se ela mal era maior de idade e ele já passava dos quarenta quando se envolveram? E se ele paga todas as despesas dela, inclusive bancando a vida dela no Rio de Janeiro? E se ele a proíbe de ajudar a família com o dinheiro que ele lhe dá? E se ela não pode nem receber a família? E se ela precisa estar sempre a disposição dele, na hora em que ele quiser? E se ele colocar uma empregada para vigiar a garota?

Qual é o limite? Quando é que uma relação de amor entre pessoas de idades diferentes se torna uma relação de poder e controle, em que o homem mais velho exerce tamanha influência na mulher mais nova que não permite que ela veja o problema e o assédio moral que sofre dentro deste relacionamento?

O caso em questão é o de Maria Ísis e o seu Comendador, personagens da novela Império, da Globo. Todas aquelas perguntas que fiz alí em cima se aplicam para o relacionamento dos dois. E isso é um problema por causa da maneira como foi retratado até agora.

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É muito comum, ao ler sobre casos de relacionamentos abusivos e de cárcere privado, que a vítima sinta como se ela estivesse errada e o agressor certo. Qualquer erro que ele cometa, vem das ações erradas dela. Tão comum quanto são casos em que homens mais velhos se aproveita de garotas mais novas dizendo que não foi ele que foi atrás, mas ela que o estava tentando. E a garota, induzida por um sentimento de culpa e dominação, diz ser verdade.

Deixando a diferença de idade deles de lado, vamos pensar na relação de poder. O personagem de Alexandre Nero tem um nome, Zé Alfredo, no entanto Maria Ísis se refere a ele, e com ele, como “meu Comendador”. Comendador já remete automaticamente a uma figura de poder, alguém que está acima dos outros. Só o modo como eles se referem um ao outro já deixa claro quem controla quem.

Maria Ísis pode ser apaixonada pelo seu Comendador, mas o relacionamento deles é baseado em quem tem o poder. O dia em que o Comendador resolver que ela não lhe serve mais, ela vai para a rua. Ela vai ser uma menina que veio de um lar desestruturado, foi dominada por um relacionamento abusivo e controlador, forçada a permanecer numa imagem quase infantil e que não vai saber quem é e nem para onde ir. Mas Maria Ísis é uma personagem ficcional, as Maria Ísis da vida real não.

O problema em glamourisar esse relacionamento é o mesmo de glamourisar os casais de 50 Tons de Cinza e Crepúsculo. Essas personagens são sim apaixonadas pelos seus respectivos, mas elas são mais frágeis e estão constantemente se apagando para dar vida ao que esses homens querem. Eu lembro de tremer de horror quando, no segundo filme, Bella dobra uma foto dela junto de Edward, deixando apenas o namorado. Isso é claramente efeito de um relacionamento abusivo e desequilibrado. Fora que, tanto Bella como a protagonista de 50 Tons, passam por situações de perigo e violência físca causadas pelos seus namorados. O feminismo luta para que a mulher possa realizar todas as suas fantasias, mas mesmo entre os adeptos de sadomasoquismo o consenso parece ser que aquilo não é experiência sexual, é abuso físico e de poder.

Dica: texto muito legal sobre 50 Tons de Cinza e relações abusivas http://naoaguentoquando.com.br/reflexoes/50-tons-de-cinza-e-perturbador/

Uma imagem que resume o problema: Ela se apaga da fotografia, ao mesmo tempo em que está ferida fisicamente.

Uma imagem que resume o problema: Ela se apaga da fotografia, ao mesmo tempo em que está ferida fisicamente.

Um outro problema, ao meu ver, é o modo como a personagem é vendida para o público. Antes mesmo da novela começar já era possível achar publicidade sobre as roupas e lingeries que ela iria usar. E as publicações sempre falam sobre o “clima Lolita” do guarda roupa da personagem. Todo ele remete a um clima de inocência e adolescência, há uma clara infantilização da personagem e, junto com isso, uma sexualização dessa aura infantil. E isso é uma das coisas mais podres que você pode fazer na televisão.

Marina Ruy Barbosa foi uma atriz mirim que cresceu aos olhos do público. Quero deixar claro que a minha crítica não tem nada a ver com ela como pessoa, a quem considero uma atriz talentosa. Mas toda vez que uma atriz mirim atinge a “maioridade” ela eventualmente passa por uma revoada de papéis em que ou interpreta a ninfeta, a periguete, ou a garota sexy. Bruna Marquezine em Salve Jorge e Débora Seco em Laços de Família e são apenas algumas. Para dar uma reviravolta na carreira, as mulheres jovens, mesmo as que não foram estrelas mirim, são submetidas ao papel de objeto sexual. Algumas personagens até são melhor desenvolvidas, como o caso de Suellen, personagem de Ísis Valverde em Avenida Brasil, mas o que realmente incomoda é a necessidade da sexualização da atriz para que ela seja “levada a sério”. Uma garota só deixa de ser menina ao se tornar sexy e desejável aos olhos do público masculino. Este fenômeno é uma constância que não se limita as novelas nacionais, vale lembrar.

Mas por que a personagem ser Lolita é um problema? Porque ao forçar atrizes a passar por esse estereótipo nós estamos dando continuidade não só a objetificação das mulheres, nós estamos sexualizando a infantilização de personagens femininas. Eu não estou dizendo para excluir de vez as personagens como Maria Ísis, mas acho que está mais do que na hora de dar mais profundidade e importância ao arco desse tipo de personagem, que constantemente são utilizadas para dar complexidade ao personagem masculino que as domina.

Além disso você limita o trabalho da atriz e a cartela de personagens femininas que uma novela possui. Homens são maridos, empregados, vilões, empresários, pais, fortões, traficantes e assim por diante, sempre dando flexibilidade a personalidade deles . Atrizes normalmente são mães, esposas, filhas, prostitutas, Lolitas e vilãs. Há sim personagens femininas que são empresárias e trabalhadoras, mas elas sempre estão de alguma maneira ligadas aos seus respectivos personagens masculinos. E o final feliz sempre é ao lado de um homem.

Eu preciso dizer porque uma personagem baseada em Lolita pode ser um grande problema?

Eu preciso dizer porque uma personagem baseada em Lolita pode ser um grande problema?

Basicamente o que Império tenta fazer neste momento é pegar uma mulher num relacionamento abusivo, trata-la como uma Lolita, a vestí-la como uma adolescente, fazer o homem com quem ela se relaciona de maneira submissa chamá-la de sweet child, e tentar me vender isso tudo como normal, romântico e engraçadinho – já que as cenas de Ísis com a família (que praticamente a agencia por debaixo dos panos) sempre vêm com aquela música que te induz a pensar que é uma cena de humor. Uma família que explora a filha é sempre engraçado, né gente? Não.

Uma mulher pode querer agradar o seu respectivo, pode querer se vestir com roupas que remetem a infância, pode curtir homem mais velho, pode ser bancada pelo homem, pode estar apaixonada por quem quiser. Mas quando um relacionamento abusivo engloba todos esses aspectos e é retratado como amor o machismo transparece.

A novela começou faz pouco tempo, e podem me chamar de otimista, mas ainda há tempo o suficiente para reverter essa situação. Maria Ísis pode ir aos poucos se dando conta dos diversos problemas que o seu relacionamento com o Comendador possui, e assim a novela vai condenando aquilo que normalizou no começo e educando o espectador que relacionamentos abusivos são diferentes de relacionamentos normais. Maria Ísis, quem sabe, pode até se tornar uma personagem tridimensionais com desejos e anseios que vão além daquilo que o seu homem quer para ela. Marina Ruy Barbosa tem calibre o suficiente para passar por essa transformação.

Há o filho do Comendador, um personagem que parece interessando na amante do pai, e que aparentemente consegue ver o canalha que ele é. Talvez seja essa a porta de libertação para Maria Ísis, talvez os dois consigam se ajudar ao encontrar cada um o caminho de liberdade e autoconhecimento que eles precisam. Eu só espero que, caso seja essa a escolha do autor, que ela seja feita de maneira com que Maria Ísis não seja só a donzela em perigo, que ela não abandone a história do pai para se tornar apenas parte da do filho, mas que ela saia dona de suas próprias decisões e da sua liberdade.

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