Liga da Justiça: Deuses e Monstros, produzido por Bruce Timm e dirigido por Sam Blabla, re-imagina a tríade clássica da DC com diferentes origens e uma visão adulta, sombria e muito mais violenta. O filme tem a estética clássica de Bruce Timm, mas decepciona no que diz respeito à construção de personagens.

No filme, Superman foi gerado dentro da nave que o trouxe à Terra. O processo todo é um pouco confuso, já que aparentemente tudo que precisa para se fazer uma criança kriptoniana é o DNA de duas pessoas, mas o básico é que o DNA de Lara se mistura com o DNA de Zod, não de Jor-El. Já na Terra, Superman é adotado não pelos Kents, mas sim por uma família de imigrantes que estava cruzando a fronteira. E é aqui que a coisa fica um pouco problemática para mim.

YEP. Continuo achando esse uniforme da MM equivocado e feio.

YEP. Continuo achando esse uniforme da MM equivocado e feio.

Essa versão de Superman dá headshots de visão de calor nos seus inimigos, ele os mata sem pestanejar e acredita estar fazendo a coisa certa. Quando questionado por Lois Lane sobre os seus métodos (eles não são um casal, a repórter despreza a Liga da Justiça), Superman diz que conhece a dureza e a dor, porque ele cresceu numa família de imigrantes, e é por isso que responde da maneira que responde às ameaças. Não me entenda mal, eu sei que a vida de imigrantes nos Estados Unidos é difícil, muitas vezes vivendo à margem da sociedade e passando por todo tipo de dificuldades, mas sério mesmo que optaram por justificar a brutalidade desse Superman nele ser imigrante? Me perguntei se não seria uma crítica ao modo como o governo americano lida com imigrantes, muitas vezes deportando e os deixando em uma situação de perigo ainda maior, mas Superman tem um relacionamento amistoso com o governo, o que ajudou na impressão de que é só uma escolha equivocada de construção de história pregressa. A intenção pode ser a melhor de todas, e é legal ver um personagem poderoso como uma representação latina (já que ele foi criado dentro de uma família latina), mas a escolha por essa narrativa em particular deixa um gosto amargo.

Batman, por sua vez, é Kirk Langstrom, físico brilhante que acaba se tornando um vampiro depois de tentar se curar de um câncer com uma mistura da sua pesquisa com a de seu colega, Magnus. Essa versão do Batman mata e consome o sangue de seus inimigos, mas possui um forte elo com Magnus e sua esposa, Tina, colegas de faculdade que o ajudaram na sua transformação e que continuam a procura de uma cura para o amigo. Não há nada de especialmente problemático no passado de Kirk, mas serve para mostrar um paralelo com o de Bekka, a Mulher Maravilha desse universo.

Bekka é uma Nova Deusa, ex-noiva do filho de Darseid, que fugiu de seu planeta após o massacre comandado por seu pai contra a família de seu noivo. Oh boy.

Bekka e Orion, erupções vulcânicas e romance em Apokolips

Bekka e Orion, erupções vulcânicas e romance em Apokolips

É legal ver uma outra personagem assumir o manto de Mulher Maravilha, sempre pode ser interessante ver outra perspectiva de uma personagem clássica. Mas por que a história pregressa dela precisava ser sobre casamento e amor? Eu sei que essa é a história clássica da Bekka dos quadrinhos, e é também uma história de traição, e eu também sei que Kirk é apaixonado por Tina. Mas por que precisavam escolher logo essa personagem? Por que logo esse acontecimento? O que me decepciona nessa Mulher Maravilha, é que a personagem clássica tem em sua origem essa desconexão com o clichê tradicional de amor/família/casamento. Sim, Diana é em alguns momentos apaixonada por Steve, mas isso não está na sua origem, não é o que a definiu como super-heroína. No caso de Bekka é sua relação (de uma noite, diga-se de passagem) e o modo como ela é tragicamente encerrada que a define.

Eu gosto de romance, e quando ele é bem feito e cabe dentro de arcos interessantes de história e de personagem, melhor. Mas nesse caso me parece uma oportunidade perdida já que histórias sobre mulheres raramente não estão ligadas com amor, família e casamento. Por que essa Mulher Maravilha não poderia ter um passado que envolvesse traição, guerra e outros planetas sem que isso envolvesse um marido? Por que não fazer dela a herdeira do trono que é traída pelo pai e por isso precisa fugir? Por que não uma cientista que criou uma tecnologia poderosa demais para entregá-la ao seu governo? Casar, amar e ter um marido não são necessariamente elementos negativos da narrativa feminina, mas utilizá-los na única personagem feminina central da sua história, é.

Durante uma luta-treino com Steve, Bekka diz que não pertence a homem nenhum, a que Steve reponde a lembrando que ela um dia pertenceu a alguém. Primeiro que Steve é um canalha por jogar a informação que foi obviamente dita num momento de intimidade na cara de Bekka só porque está com o ego ferido, segundo que essa é a pior escolha de palavras do filme inteiro.

A espada de Bekka, presente de casamento de Orion.

A espada de Bekka, presente de casamento de Orion.

Não bastasse a história clichê, o uso do termo pertencer é tão ou mais problemático que todo o resto porque caímos na visão da sociedade de que quando uma mulher está com um homem, ela o pertence. Parece algo pequeno, mas isso também é uma objetificação da figura feminina que a abstém de controle sobre si mesma. Casais reais comumente dizem que um pertence ao outro, mas quando isso é representado na mídia o termo é raramente usado da mesma maneira. Quantas vezes você viu um herói dizer que pertence à alguém? Pois é. Pensando no que o título de Mulher Maravilha representa, uma mulher forte, independente e guerreira, é com certeza uma escolha equivocada de palavras.

Na época em que os curtas que antecedem o filme foram lançados eu comentei que estava ao mesmo tempo decepcionada e feliz com a personagem. Parte da minha decepção é que enquanto Batman e Superman são personagens sombrios por causa de seus atos, o que há de sombrio na Mulher Maravilha viria da sua sexualidade. Depois de ter assistido ao filme, e agora pensando na origem da personagem, ela realmente não está em pé de igualdade com seus colegas masculinos. Eu não estou dizendo que a história da Mulher Maravilha não é legal, apenas que ainda espero pelo dia em que vão  criar uma personagem feminina realmente sombria sem precisar apelar nem para a sexualidade, nem para o clichê do casamento.

E se era para ter um personagem sexy e com backstory romântico, porque não juntar mais esse clichê e fazer do Superman um Latin Lover? 😛

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