A IBM lançou uma campanha no último dia 4 com o intuito de “detonar  as barreiras que enfrentam as mulheres todos os dias e as percepções equivocadas sexistas que mantém essas mentes brilhantes fora dos laboratórios de pesquisa”. Eles fizeram isso convocando as mulheres a hackearem um secador de cabelo.

https://twitter.com/IBM/status/672809095213113344

Vamos lá, vou vestir meu terno de advogada do diabo.

Eu sou uma mulher na área da Tecnologia. Estudei Mecânica, sou Gerente de Projetos, e quase toda minha vida profissional trabalhei em grandes indústrias onde a tecnologia e a inovação eram os objetivos. Então eu não preciso de estatística para saber que numa sala de aula com QUARENTA homens, eu era a única mulher lá em 2005. Numa das minhas primeiras aulas um dos professores disse “você vai desistir, uma hora ou outra”. Eu não desisti. Quer dizer, tive muitos percalços, tive que dar a volta para não dar murros em ponta de faca, mas em essência não desisti.

Não preciso também dizer que todos me olham como se eu fosse uma aparição do além quando abro a boca numa reunião e percebem que eu entendo do que falo. E sim, eu tenho que repetir várias vezes para me ouvirem apesar disso. Que sempre tentam “me ajudar” de maneira condescendente, e quando sou assertiva é sempre a TPM.

Mas para os academicistas, vamos às estatísticas.

O artigo da AIR, American Institutes for Research (algo como Institutos Americanos para Pesquisa), reuniu dados sobre o desequilíbrio de gênero nas formações de Bacharelado e Doutorado nas áreas de STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics), como podemos ver nos gráficos abaixos, que estão em inglês, mas a parte visual é bem intuitiva:

nsf-underrep-women-stem-copy

nsc-bs-stem-gender-copy

Estamos falando da América do Norte nesses dados, então acho que conseguem projetar como é mais difícil para países menos desenvolvidos. E digo mais, não pretendo eu, como branca, falar sobre a disparidade ainda maior no que diz respeito a mulheres negras, pois neste quesito sou privilegiada por não enfrentar essa barreira muito maior que é o preconceito racial.

Mas voltando à disparidade de mulheres em geral nas áreas de tecnologia, ao realizar pesquisa para escrever este texto, percebi uma carência enorme de informação a respeito no Brasil. No site do IBGE temos pesquisas sobre a representatividade das mulheres no mercado de trabalho, anos de escolaridade comparadas aos homens, mas tudo isto de maneira geral. Não há diferenciação da área de estudo destas mulheres. Então comemoramos um crescimento das mulheres com maior escolaridade (embora ganhem menos, mesmo assim), mas não nos importamos em saber em que campos de atuação elas estão. Pelo menos aqui no Brasil.

No entanto, não é difícil perceber os reflexos disto no mercado de trabalho, e o motivo não é falta de qualidade do trabalho das mulheres que chegam a trabalhar com tecnologia, mas a falta de interesse em entrar neste campo desde criança. Porque o tempo todo nos são empurradas bonecas, panelinhas, e uma enxurrada de coisas cor-de rosa.

Aí, meus amigues, vocês podem dizer “mas as garotas gostam mais deste tipo de brinquedo”. Não, elas não gostam. Elas podem e tem o direito de gostar, assim como tem o direito de gostar de carrinhos, de blocos de montar e super-heróis. Mas sempre vem alguém para dizer “mas isso não é coisa de menina”, e volta a ensiná-las a serem princesas subservientes. E também as empresas que acham que não precisam produzir bonecas das personagens de filmes para as meninas porque “já tem uma linha de princesas”, como podem ver aqui e aqui.

E como disse Camila Achutti do Mulheres na Computação para a Época Negócios:

“No Brasil, o isolamento feminino começa na faculdade. Camila Achutti convive com essa realidade desde o primeiro dia do curso de ciência da computação, no Instituto de Matemática e Estatística (IME), da Universidade de São Paulo (USP). Ela não só era a única mulher em uma sala com 49 homens, mas também a única a não saber como um algoritmo funcionava. Todos, ali, haviam cursado o ensino técnico. Camila optou por um colegial normal, o que a obrigaria a horas extras de estudos para acompanhar o ritmo da classe. A moça ainda ouvia dos colegas, que quase não estudavam para as provas e tiravam boas notas: “Mas você está estudando? Você não é muito boa nisso, né?”. “Eu era o patinho feio”, diz. Frustrada e sem ninguém com quem conversar (duas outras alunas entraram em sua turma, mas ambas abandonaram o curso), criou o blog Mulheres na Computação para narrar detalhes da sua experiência com um bando imenso de colegas. Descreveu ali, por exemplo, como os garotos, em trabalhos em grupo, sempre a colocavam para escrever o relatório de um projeto, enquanto eles faziam a programação. Ou ainda que, ao entrar na sala de um professor para pedir a reconsideração de uma nota, a eventual mudança da avaliação era associada a fuxicos sobre favores sexuais.”

E eu posso dizer que passei exatamente o que ela descreve no trecho acima. EXATAMENTE.

Voltando à iniciativa da IBM, vemos uma inclinação de muitas empresas em lançar este marketing inclusivo para as questões de gênero. Não posso dizer que a empresa não trabalha para melhorar o cenário das mulheres na tecnologia. No site da empresa dizem serem parceiros de projetos como “Girls Who Code” (garotas que codificam) e “Black Girls CODE” (garotas negras codificam), então não tenho expertise e não quero cair no erro de dizer que o que fazem é significativo com base na breve pesquisa que fiz.

Entretanto, é comum vermos empresas darem tiros no pé ao criarem campanhas inclusivas.

Me diga, IBM, em que máquina do tempo vocês voltaram para a década de 50? Qual é a tecnologia envolvida num secador de cabelos? Não podia utilizar um aparelho menos simples e estereotipado? Pois é.

Como era de se esperar (cadê o assessor de “vai dar merda”, IBM?) a resposta do Twitter não foi nada positiva:

(Talvez haja um escopo para desmontar o secador de cabelos, mas as #mulheresnatecnologia da IBM poderiam, provavelmente, dar conta de hackear algum produto que não seja de beleza também)

(@IBM, talvez eu devesse largar a #neurociência para reengenheirar batom. Esses são os problemas que importam, no fim das contas)

(@IBM, ninguém está perguntando aos homens cientistas para hackear barbeadores. #mulheresnatecnologia)

(Posso aderir a besteira científica de #hackeieumsecadordecabelos também? Eu kackeei o meu para esquentar minha cara)

(alguém poderia avisar a @IBM que não estamos em 1950 mais?  #hackeieumsecadordecabelos #mulheresnatecnologia)

(Eu não entendi. Eles entendem que todas nós usamos secador de cabelos? Eu só utilizo um secador para descongelar o freezer)

(Santo sexismo, Batman)

(Mesmo se nos permitirmos dizer que a @IBM está sendo irônica ou fazendo uma piada, e não sexista com #hackeieumsecadordecabelo, isso ainda trivializa a ciência #mulheresnatecnologia)

https://twitter.com/nailsandheels/status/673733589528272897

(@IBM, um secador de cabelos? Sério? Uma forma de diminuir as mulheres, por que não lidar agora com um aspirador ou ferro de passar?)

(@IBM, que vergonha que não uso um secador de cabelos. Eu imagino que essa seja o fim da minha carreira em STEM. Já volto, vou desistir do meu PhD em astrofísica. #hackeieumsecadordecabelo)

Eu acho que já deu para perceber a besteira que fizeram, não?

IBM, melhore!

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