O mercado dos quadrinhos de super-heróis vem passando por muitas mudanças nos últimos anos – para dizer o mínimo. Uma delas é que nós, leitrAs, estamos exigindo cada vez mais e melhor representação dentro desse universo que tanto gostamos. Algumas das melhorias que queremos, e que está constantemente em discussão, diz respeito aos uniformes das heroínas e vilãs.

Logo que foi lançado, o nome uniforme da Mulher Maravilha causou uma revoada de reclamações machistas vindas inclusive de profissionais da área. Muitos homens reclamaram que é um absurdo mudar o uniforme clássico por causa de feministas – sempre acusando de conservadoras e policiais do politicamente correto quem acha um disparate uma mulher lutar contra super-seres usando um maiô tomara que caia (eu ADORO quando dizem que querer igualdade e melhor representação é conservadorismo).

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Apesar de considerar o uniforme antigo um clássico, e de inclusive gostar do design, tomara-que-caia nunca foi blusa nem pra andar de ônibus em rua esburacada – quem dirá lutar contra exércitos alienígenas ou legiões de super-vilões. Já fui apaixonada por um uniforme anterior da MM, desenhado por Jim Lee e que tinha a malfadada jaquetinha. Eu adoro a jaquetinha. Sei lá, vai ver é a fangirl 90’s dentro de mim. O fato é que tanto o de Lee, quanto o mais recente, são uniformes que fazem muito mais sentido dentro do corre-corre diário de uma super-heroína.

Com calças, camisa justa de gola alta, o tradicional corpete e ombreiras de metal, o novo uniforme da Mulher-Maravilha mostra o quão longe do ideal o design da roupa da amazona em Batman vs Superman está. Eu não odeio o uniforme do filme de Zack Snyder, mas não consigo entender como é que aquela saia aconteceu. Parece que alguém disse “Zack, acho que a gente devia tentar algo diferente do maiô. Algo mais prático” e Snyder respondeu “vamos fazer uma saia com um recorte na altura das coxas. Tipo a sunga do Tarzan, mas não é sunga, é saia”. ¬¬

Eis que surge a nova versão da Mulher-Maravilha, re-imaginada por Bruce Timm para o universo paralelo em que seu novo filme, Liga da Justiça: Deuses e Monstros acontece.

Ache o problema nessa imagem (tirando o ângulo bizarro que estou optando por não comentar).

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Se você pensou “tomara que caia com decote profundo”, você acertou. Eu estou optando por ignorar o horrendo adereço de cabeça da amazona, já que além de ser feio ele não parece servir para muita função.

Olha, eu adoro o Bruce Timm. Batman: A Série Animada, foi o meu desenho favorito quando criança (junto com X-Men), e continua sendo um dos favoritos depois de adulta. Eu tenho toda a série em DVD, também tenho Liga da Justiça e Liga da Justiça Sem Limites. Amo Batman Beyond. Eu adoro o design de Timm, o traço com uma pegada retrô-futurista é um dos meus favoritos. Todas as personagens femininas dele são lindamente desenhadas, desde a Mulher-Maravilha até a Hera Venenosa. Mas não estamos em 1991, nem em 2000. Estamos em 2015, e se você tem a oportunidade de re-imaginar a personagem que é a maior representação feminina dentro dos quadrinhos – porque por mais que você não goste muito dela não tem como negar que a MM é a super-heroína mais conhecida – você não coloca ela num collant branco, tomara que caia e com uma fenda que desce até o umbigo. Você simplesmente não faz isso.

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Liga da Justiça: Deuses e Monstros tem uma pegada mais sombria (Zack Snyder mandou um alô), com histórias mais pesadas e personagens totalmente reinventados. Batman é um vampiro, Superman cresceu numa família de imigrantes com um pai violento (¬¬) e por isso é mais propenso à violência, e a Mulher Maravilha é a esposa do novo deus Orion (nos quadrinhos, um dos filhos de Darkside). Como ainda não assisti ao filme não quero fazer juízos sobre essas descrições, mas vale nota o fato de que Superman criado pelo casal branco americano com um pai amoroso é um cara muito legal e menos propenso à violência, e que a origem da única personagem feminina do filme sentiu a necessidade de casá-la para talvez justificar seu lado mais sombrio. Tá sendo difícil não achar isso ruim, mas vou esperar o filme ser lançado para discutir isso mais a fundo.

[Nota da autora: algumas pessoas vieram me avisar que a Mulher Maravilha na história não é Diana, e sim Bekka, que tem origem Asgardiana. Quando escrevi o texto não senti a necessidade de falar sobre isso porque a origem Asgardiana, e o fato da MM não ser a Diana, em nada altera o fato do uniforme dela ser péssimo e da origem dela ainda me preocupar. Honestamente, acho que já que iam alterar a personagem sob o manto da Mulher Maravilha ia ter sido muito mais animal ver uma personagem não-branca do que mais uma mulher branca. Mas ok.]

Não bastasse tudo isso, ontem saiu o curta pré-filme Twisted, protagonizado pelo Batman e em que ele encontra uma versão da Arlequina que atinge níveis de psicopatia completamente impensáveis para a versão tradicional da personagem – mas esse não é o meu problema. Particularmente acho que se um cara como o Bruce Timm chega para você e diz “quero fazer uma versão tão sombria quanto Seven – Os Sete Pecados Capitais da Liga da Justiça” você responde “MAS COM CERTEZA”. Quanto à violência e às cenas MUITO PESADAS do curta, e que possivelmente se repetem no longa, acho que contanto que o filme seja direcionado à um público não infantil, ok. Não sou muito à favor do excesso de violência, e essa “pegada mais sombria” não me agrada e acho que está constantemente tentando disfarçar um trabalho mal feito. Mas sabe, é o Bruce Timm. MAS, quando em 2015, esse mesmo cara resolve colocar a Arlequina numa calcinha branca com cinta-ligas você fala “então Timm, o que que tá pegando?”

OH LORDE WHY?

OH LORDE WHY?

Timm sempre fez muito uso dos designs clássicos de personagens – inclusive é dele a fantasia mais icônica da Arlequina. Suas personagens femininas sempre foram interessantes, sexys e em Liga da Justiça ele construiu uma Hawkgirl tão complexa que a tornou a minha personagem favorita. Mas você não sexualiza uma personagem nesse nível sem justificativa. Será que é realmente tão difícil assim colocar pelo menos um shorts na personagem?

Assistindo ao curta não há absolutamente nada de sexual sobre a Arlequina nessa versão – ela é uma garota com óbvios problemas relacionados à família, mas nada que aparentemente justifique ela estar de calcinha BRANCA, corpete meio aberto e cinta-liga. Ela é completamente louca? Sim, mas em momento nenhum a sexualidade dela é mostrada de maneira a representar parte da personalidade da vilã. É a sexualização pela sexualização. Sem contar que a calcinha tem babadinhos o que remete à uma infantilização da personagem e acho que só isso já dá para problematizar infinitamente.

Ela está assustadora? Sim. Mas também está desnecessariamente sexualizada.

Ela está assustadora? Sim. Mas também está desnecessariamente sexualizada.

Não interessa o quão genial você é, se você não consegue perceber o que está acontecendo ao seu redor, ou se recusa a aceitar as mudanças você vai ficar obsoleto. A história do filme pode ser incrível, e eu posso estar gigantemente errada nas minhas preocupações com as origens da Mulher Maravilha e do Superman, mas já estou com os dois pés atrás por causa dos designs desses uniformes e por causa do modo como a Arlequina foi representada.

“Mas são só uniformes”, dirão os desavisados.

Experimenta sair na rua de corpete e calcinha e vê o que acontece. Aliás, experimenta ser mulher e sair na rua – ponto. Ao sexualizar uma personagem apenas porque você acha legal e sabe que os fãs gostam desse tipo de representação punheteira, você está se recusando a aceitar que aquilo que você coloca no papel ou na tela faz parte de um sistema que alimenta a cultura do estupro e vitima tanto a mulher que assisti ao filme quanto às mulheres que trabalham ao seu lado.

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