Eu não ia escrever sobre a bendita capa alternativa da Batgirl 41 que o Rafael Albuquerque fez a pedido da DC para a comemoração dos 75 anos do vilão Coringa. Honestamente, achei que a essa altura do campeonato a discussão ia morrer rápido e a gente ia seguir as nossas vidas. Mas como hoje cheguei a ser chamada de conservadora por questionar a capa – porque, veja bem, não tem nada mais conservador do que uma mulher questionando anos de mulheres sendo vitimadas em prol de personagens masculinos e leitores homens –, resolvi que vale um post de discussão sobre esse rolê todo.

fey_meh_clap-500x249

Como nós já falamos inúmeras vezes, o mercado de quadrinhos norte-americano de super heróis foi, durante anos, centrado no público masculino branco, hetero e cis. Hoje, nós vivemos um momento de mudança, em que as grandes editoras começam a se dar conta de que existe toda uma camada de fãs pagantes que pagariam ainda mais se fôssemos bem representados. Esses fãs também começaram a se tornar mais vocais quanto às reivindicações e quanto ao conteúdo ofensivo que acaba sendo publicado – mesmo que a intenção dos autores não seja de ofensa.

Gente, isso não é conservadorismo, isso é mudança – e mudança é uma coisa boa. A nossa sociedade é plural e o mercado é grande o suficiente para todo mundo ter representação. Quando um grupo de fãs vocaliza a sua insatisfação com uma capa por conta do que ela representa para a personagem que está no centro, o correto é escutar – não xingar e ameaçar. Conservadorismo é quando alguém que foi historicamente diminuído consegue espaço para mostrar a sua insatisfação e a horda de fanboys injustiçados cai matando em cima. Conservadorismo é não questionar o status quo dos quadrinhos que sempre foi o de vitimar e diminuir as personagens femininas em prol dos personagens e fãs masculinos.

batgirl41

A capa de Albuquerque, apesar de linda, remete ao clássico A Piada Mortal de Alan Moore e Brian Bolland. A edição apresentava uma história em que a Batgirl era alvejada pelo Coringa e sofria violência nas mãos do vilão. A página em questão é de um grafismo horroroso e culminou numa discussão que dura até hoje sobre se o Coringa estuprou ou não a Bárbara. Independentemente de quão incrível seja a história do quadrinho, não dá para negar que em A Piada Mortal, Bárbara é vitimada única e exclusivamente para que a história pessoal do Batman com o Coringa atingisse um determinado patamar. Além disso, as fotos de Bárbara sendo machucada foram exibidas à força para seu pai, o Comissário Gordon, representando mais uma vez o clichê da violência contra mulher apenas para motivar um personagem masculino.

Muita gente veio me dizer que depois disso a Bárbara se tornou a Oráculo, e que isso foi muito legal. Sim, de fato a Oráculo é uma daquelas célebres personagens de quadrinho que são fodas, que trazem uma representação muito legal de mulheres e outras minorias, e que formava uma equipe de super-heróis feminina. Mas vale lembrar que a revista foi inicialmente pensada para ser um stand alone, uma história que não entraria no cânone, ou seja – a violência que Bárbara sofreu não foi pensada para uma transformação própria, mas sim para a transformação do Batman dentro daquela trama, que seria isolada.

killingjoke27

Voltando à capa da edição comemorativa. Hoje a revista da Batgirl segue uma linha editorial muito mais leve do que com a sua equipe criativa anterior, e mesmo que alguns dos fãs não gostem das voltas que a revista deu, o fato é que a Bárbara Gordon que está correndo as ruas de Gotham nessas edições não é a mesma que corria com Gail Simone no comando. Uma coisa não diminui a outra. A reestruturação da revista buscou trazer um público mais jovem ao título, com histórias mais descontraídas e que – de acordo com a própria equipe criativa – buscava afastar a personagem do episódio d’A Piada Mortal. É sob esse contexto, de uma revista com tom mais leve e mirando um público mais jovem, que essa capa simplesmente não faz sentido.

Particularmente, eu não acho positivo celebrar um vilão, não importa o quão foda ele seja, prestando homenagem com uma capa que novamente vitima uma personagem feminina numa cena que ficou icônica não só pela qualidade da história, mas pela violência contra a Bárbara. Esse episódio é um dos mais simbólicos quando falamos de “Mulheres na Geladeira”: Bárbara não morreu, mas sofreu bastante para valorizar o arco de seus colegas masculinos.

Outra coisa que tem se falado muito é que o desenhista foi censurado. Colegas, não, né? Uma parte do público vocalizou o seu descontentamento – o que fazia tanto sentido que até a equipe criativa da Batgirl afirmou posteriormente que também falou contra a capa quando ela foi apresentada – e o artista compreendeu que o descontentamento não era particular a ele, mas sim à existência da capa que, apesar de bem feita, não cabe dentro do contexto atual da revista. Se o artista parece não ter considerado o descontentamento algo pessoal, porque alguns dos fãs ficam tão ofendidos?

Clarification2

yak7T7GEu nem sei mais quantas vezes já entrei em discussões com fãs que ficam ofendidos quando qualquer tipo de mudança é feita para acolher os outros fãs que não tinham espaço anteriormente. Eu adoro quando eles usam o “mas você está estragando a minha infância” – ai amigo, pára que tá feio. Personagens de quadrinhos, principalmente os mais clássicos, tem décadas de história, eles estão passando por transformações constantes. Eu já falei sobre isso antes, mas vou ressaltar que a sociedade em que vivemos hoje não é a mesma na qual os personagens foram criados – os quadrinhos precisam caminhar junto com a evolução da sociedade, senão se tornam obsoletos, e aí sim vão perder público. Simples assim.

Também muito se falou sobre o Coringa ser um psicopata lunático e que isso não deveria ser ignorado por causa de uma única personagem – a capa deveria mostrar o personagem como ele é no seu cerne. Sabe, o Coringa é sim um lunático, mas ele também tem outras facetas que já foram trabalhadas nos quadrinhos, no cinema e na televisão. Por que essa recusa em aceitar capas que não se apoiem somente nessa loucura psicopática violenta dele?

Isso tudo quer dizer que a Batgirl nunca deveria ter tido uma capa alternativa de comemoração dos 75 anos do Coringa? Não. Apesar de eu achar que a história do A Piada Mortal é muito mais pesada do que o tom das edições atuais (e isso não quer dizer que as atuais são menores ou piores por isso), a capa podia ter sido feita sim mas, ao invés de colocar a personagem numa posição de vítima, colocá-la numa posição de empoderamento perante um dos maiores traumas da sua vida. O mais louco é que na edição Batgirl Endgame #1, que precede a comemorativa, o próprio Rafael Albuquerque fez uma capa que faz referência ao episódio e não diminui a personagem.

Batgirl-Endgame-cover

Sabe o mais absurdo disso tudo? Com o comunicado que a DC soltou, os fãs entenderam que as ameaças foram dirigidas ao desenhista Rafael Albuquerque. Mas, adivinha? Para surpresa de zero mulheres, a realidade é bem diferente: as ameaças foram direcionadas a quem ousou criticar e questionar a escolha da capa. Ah! E teve o pessoal que usou o bom e velho “mas A Piada Mortal é um clássico! Alan Moore é um Gênio! Rafael Albuquerque é foda. Quem são vocês para falar de uma das grandes obras dos quadrinhos de super-heróis”. Praqueles que insistem nesse discurso, eu digo o seguinte: até o Alan Moore já disse que não gosta d’A Piada Mortal. Então supera aí e fica de buenas.

Eu não quero excluir da discussão da capa os fãs masculinos, mas eu espero que a discussão que vem deles seja fundamentada não em seus orgulhos de fanboy feridos, mas numa análise do momento pelo qual o mercado editorial de quadrinhos está passando agora. Assim como eu acho que a escolha foi pobre e completamente equivocada, teve fã mulher que amou a capa e a compraria. A diferença entre uma discussão com uma mina que gostou e um cara que tá torrando o saco com as lembranças de infância dele, é que essa fã mulher provavelmente sabe o quão chato é estar lendo um quadrinho e ver a sua personagem favorita ser vitimada em razão de: homens. Então, moços, peço o seguinte: vamos escutar o que as minas falam, vamos tentar entender o que a gente passa e porque esse tipo de situação pode ser ofensiva. É simples assim – MESMO.

Ainda falta um longo caminho até que gente consiga questionar uma posição machista sem que uma revoada de ódio e indignação venha para cima – mas a posição que o Rafael Albuquerque assumiu (e a quantidade de lágrimas que isso acarretou) mostram que estamos no caminho certo.

Atualização: o Cameron Stewart, roteirista da revista, soltou esses dois twittes gênios.

%d blogueiros gostam disto: