Amigo humorista branco, vem cá. Segura a minha mão que é tão branca e privilegiada quanto a sua e vamos juntos entender porque humor ofensivo não é sinônimo de humor bem feito, muito menos de humor “edgy” ou inovador, é sinônimo de humor preguiçoso e de baixa qualidade mesmo. O humor brasileiro vem há anos se baseando numa fórmula que procura sempre colocar o negro, a mulher, o pobre, o nordestino, o [inclua aqui uma parcela oprimida da sociedade], no punchline da piada. A construção da piada vêm sempre baseada em tirar sarro do oprimido, nunca do opressor.

Eu sei que é difícil chegar a idade adulta e divergir desse padrão, principalmente quando a gente cresce assistindo todo tipo de humor ofensivo, quando nossos ídolos do humor (ou só ídolos mesmo) são reconhecidos por esse tipo de trabalho e a gente quer atingir esse nível de reconhecimento. Eu sei também que é difícil perceber o quão privilegiado nós somos só por sermos branco, e sei que dói quando alguém te aponta o privilégio pela primeira vez. Eu também sei que estou aqui falando sobre isso com você porque sou branca e tenho eu mesma um histórico de privilégios que me permitiram criar esse espaço.

“O Politicamente Correto” ou “se ofendem por qualquer coisa”

A gente vive numa época em que o termo “politicamente correto” vem sendo usado como maneira de deslegitimar um movimento social que ultrapassa todo tipo de mídia e que vem exigindo da nossa produção cultural que ela seja melhor, que seja maior. Esses dias apareceu na minha timeline um experimento interessante, trocar “politicamente correto” por “tratar uma pessoa com respeito”. É incrível como fica muito mais fácil entender a falácia que é ridicularizar quem procura tornar a sociedade mais igualitária.

  • Vivemos a ditadura do tratar uma pessoa com respeito.
  • O tratar uma pessoa com respeito está destruindo a nossa produção cultural
  • Esse pessoal do tratar uma pessoa com respeito são todos uns chatos sem senso de humor.
  • O pessoal do tratar uma pessoa com respeito se ofende com qualquer coisa.

Deu pra notar o problema? Não é uma questão de politicagem, é uma questão de respeito ao próximo.

Acho particularmente engraçado quando humoristas que tem um histórico de opressão dizem se inspirar em humoristas americanos e ingleses como Louis C. K., Mitch Headburg, Amy Pohler ou Tina Fey. Veja, esses humoristas não são perfeitos, todo mundo erra, mas esses caras tem uma consciência bem grandinha do privilégio deles. O punchline da piada são, muitas vezes, eles próprios ou a sociedade machista/racista/homofóbica/gordofóbica na qual estão inseridos. O humor inglês tem como base a auto-zoação. Quantas vezes você zoou a si próprio? Quantas vezes você foi o punchline da piada que você criou? Quantas vezes você usou o seu preconceito parar tirar sarro e questionar a sociedade ao invés de oprimir o público que você quer entreter?

Blackface

Blackface é um termo que define o ato de pintar o rosto com tinta preta ou de outra cor para que um ator branco finja ser de outra etnia. Um dos casos mais marcantes de Blackface que a cultura ocidental tem lembrança é do começo do século XX, do começo do cinema – O Nascimento de uma Nação, de D. W. Griffith. O filme é de 1915 – cem, CEM ANOS atrás.

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Algumas semanas atrás, em pleno 2015, enquanto eu dirigia pelas ruas de São Paulo me deparei com um pôster promocional do novo programa do humorista Ceará, no Multishow. No programa, o humorista faz diversos personagens baseados em pessoas reais da mídia brasileira e, no pôster em questão, Ceará fazia blackface. Como não consegui achar o pôster na internet, fica aqui uma imagem tirada direto da página do programa.

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Aliás, sobre o nome dos personagens que o humorista interpreta, temos o Dantena (Datena) e o Rei Roberto (Roberto Carlos) – nomes bem comuns, nada demais. Mas temos também Carlinhos Brownie (Carlinho Brown), Marília Gabriela Herpes (Marília Gabriela) e Ana Catamina (Ana Carolina). Notou a tendência de dar nomes “de boa” para os homens brancos, e deixar as mulheres e o negro com os nomes mais deprimentes? Pois é, eu também.

Não contente, nesse fim de semana, nossa sociedade foi agraciada com o personagem Africano, do Pânico na TV, onde o ator usa uma malha preta no corpo, enquanto cobre o rosto e as mãos com uma tinta preta. Em uma produção tão grande quanto a do Pânico na TV será que ninguém se perguntou “Calma, será que isso é um erro?” – aparentemente, não.

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A Band não pediu desculpas, mas fez questão de dizer que não queria ofender e que ô, tem mais um monte de personagens diferentes como um nordestino, um japonês… Ufa! Que alívio hem?! Não. A gente espera pelo próximo personagem ofensivo do Pânico. O humorista Eduardo Sterblits, ator do personagem, foi dizer no facebook que não é racista e que também está chorando. Tadinho.

Esses dois incidentes de racismo – porque eu sinto muito mas é bem esse o nome do que aconteceu nos dois casos – vêm poucos meses depois de uma peça de teatro ter sido alvo de protestos por usar o blackface. É quase como se fosse de propósito, saca? Como se vocês estivessem fazendo isso unicamente para conseguir polêmica. Mas ó, eu tenho essa visão do mundo em que tento ver o melhor nas pessoas, então estou considerando que foi apenas uma questão de falta de noção mesmo. Eu posso me dar a liberdade de achar isso porque sou tão branca quanto vocês, porque não sinto na pele esse preconceito de cor que UMA PARTE MUITO GRANDE do seu público sente todos os dias.

O problema com o blackface é que, além de ser um artifício racista e que ajudou a manter durante muitos anos atores negros longe de palcos e do cinema, além de sustentar uma política de estereótipos racistas, também transforma uma identidade em fantasia. Ser negro não é fantasia. Assim como se vestir de mulher para o carnaval não é fantasia. Quando você pinta o rosto de preto e coloca uma peruca afro, ou quando você se espreme dentro de uma saia curta, passa batom e coloca peruca loira você não está se fantasiando, você está oprimindo um monte de gente. Porque eu, como branca, nunca vou saber de verdade o que é ser negro, o que é passar pelo preconceito racial que uma pessoa negra passa. Assim como um homem nunca vai saber o que é ser mulher nessa sociedade machista em que vivemos. Uma identidade, seja racial, de gênero ou sexual, não é fantasia. Quantas pessoas vocês já viram “fantasiadas de branco”? Pois é.

“Mas é só uma piada”.

Não, cara. Não é.

Piadas, amigos humoristas brancos, podem matar. Como? – você me pergunta. Matam porque ajudam a perpetuar estereótipos racistas, homofóbicos, misóginos, gordofóbicos e etc. São esses estereótipos que, repetidos como um zumbido ao longo das nossas vidas, normalizam um negro ser chamado de macaco/carvão/buiú, de ser considerado culpado antes mesmo de ser reconhecido pela testemunha de um suposto crime. Que faz com que negros continuem sendo considerados inferiores aos brancos, que justifiquem um ódio racial que humilha e extermina a população negra periférica no Brasil todos os dias.

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Racismo e violência de gênero numa só foto. Que bonito, heim? Mas imagina, fazer piada com negro e mulher nem ajuda a manter esse tipo de absurdo.

Mas então devo parar de fazer piada? Quer deixar o humor sem graça?

Não, mas podemos deixa-lo mais inteligente. Sim, eu sei que parte do humor vem de uma situação ofensiva – só que a grande maioria dessas situações se baseiam em fazer da piada a pessoa menos favorecida. É isso que precisamos aprender com humoristas como Louie CK, Tina Fey, Amy Pohler, John Oliver e John Stewart. E SE, ao invés de usar o oprimido como punchline, usarmos o opressor? Sim, usemos a nós mesmos, usemos o modo como a sociedade continua sendo patriarcal e branca, como esse bitolamento social e racial diminui as nossas possibilidades de avanço como sociedade, como ele nos limita e faz de nós imbecis.

“Mas eu não vejo cor” – então porque ao invés do Africano não é o Europeu?

O que você considera ofensivo por ser politicamente correto, nada mais é do que um chamado à igualdade – tratar pessoas com respeito. E esse movimento que você vê como censura é, na verdade, uma oportunidade de desenvolver, se educar e melhorar a qualidade do seu trabalho. Porque limitar o seu humor às piadas que a gente vem escutando desde a década de 70? O Mussum fazer piada com o fato dele ser negro – o único negro num grupo de quatro humoristas, aliás – não te dá direito de ser um babaca racista. Aproveita esse momento de reflexão e enxerga que você pode ser melhor, que tem mais no humor do que rir da opressão alheia.

Blackface é racismo. Racismo mata. Racismo chacina e racismo violenta. Vamos manter isso em mente. Seja melhor.

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