Eu sinto que eu já falei desse assunto inúmeras vezes, talvez você, que acompanhe mais meus textos, não aguente mais ouvir falar disso, mas como as pessoas insistem em dizer besteiras, aqui estou eu, mais uma vez, para falar em nome desse gênero que amo tanto.

Esta semana, John Boyega estava participando de uma entrevista para a GQ e falou sobre a falta de diversidade étnica em Game of Thrones. Eu tenho a impressão de que existem certos assuntos no mundo nerd que, se você falar mal, você automaticamente vai summonar um nerd preconceituoso. Game of Thrones seria um deles. John Boyega disse:

Não há pessoas negras em Game of Thrones. Você não vê uma pessoa negra em Senhor dos Anéis. Eu não estou pagando dinheiro para ver só um tipo de pessoa na tela. Você vê pessoas diferentes com várias histórias e culturas todos os dias. Mesmo se você for racista, você precisa lidar com isso.

A internet caiu em cima dessa declaração. Como nós sabemos, o público nerd ainda é muito difícil e preconceituoso, então ofensas de todos os tipos surgiram, além de pessoas tentando argumentar, com pontos bem falhos, que não havia nenhum problema em Game of Thrones só ter pessoas brancas. Vamos parar um pouquinho para ver essas “argumentações”.

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Uma coisa que eu li muito foram pessoas falando que John Boyega não conhece Game of Thrones, portanto ele não podia falar sobre a franquia, afinal de contas “se ele visse, saberia que não é todo mundo que é branco”. Bom, eu li todos os livros, vi todos os episódios da série, inclusive escrevo críticas pra vocês desde a quinta temporada. Também já consumi muito conteúdo voltado para análise de personagens e teorias. Eu acho que posso dizer que sou fã da franquia, certo? Pois bem, eu concordo completamente com John Boyega.

Não adianta usar Missandei e Verme Cinzento para dizer que há negros na série. Compara o número de personagens brancos com os de outras etnias. A diferença é absurda. Sem contar que os personagens negros estão sempre em alguma posição de escravidão, que são libertados por causa da salvadora branca Daenerys. Isso não é uma crítica a personagem dela, eu gosto muito da Daenerys, mas a história dela foi sim escrita como uma salvadora branca. Há certas nuances no livro, mostrando que ela não foi uma boa líder, que ela não soube lidar com o povo ali e muitas outras coisas, mas inúmeros desses aspectos foram mal tratados na série.

Podemos dizer também que Dorne é um lugar onde só há pessoas que não são brancas. É verdade, e o livro especifica bastante isso. Eu entendo que, para os Estados Unidos, os atores que fazem o núcleo de Dorne não são vistos como brancos, mas pega o exemplo do Oberyn. Na série ele passa sim por whitewashing, mesmo que as pessoas lá não o vejam Pedro Pascal como branco. Custava ter escolhido um ator negro para fazer Oberyn? Assim como todos os outros em Dorne, que inclusive foi um núcleo muito mal adaptado? Ninguém gosta dos Martell na série, mas nos livros eles são incríveis.

A questão é: Não dá para usar alguns personagens secundários e terciários, por mais legais que eles sejam, para justificar um elenco majoritariamente branco. Pega os personagens principais: Daenerys, Tyrion, Jon, Arya, Sansa, Cersei, Jaime… Todos eles são brancos. O elenco poderia ser infinitamente mais diverso do que isso. “Ah não! Mas no livro tem a descrição deles…” a única parte da história em que a aparência é realmente relevante é no arco da Cersei, por causa de seus filhos, que são de Jaime e não de Robert. Aparência pode ser adaptado, basta ver que o Idris Elba foi escolhido para ser o Pistoleiro em A Torre Negra. Engraçado é que quem diz isso não reclama que Oberyn também tinha uma descrição física no livro que foi ignorada.

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Eu estou me focando mais na série, mas a verdade é que a obra original também não é o maior exemplo de diversidade. Apesar de Dorne e Essos não serem compostos por personagens brancos, o centro da história, os maiores acontecimentos, ainda acontecem em Westeros, onde praticamente todo mundo é branco.  E aí vem o argumento que, toda vez que eu leio, tenho vontade de virar a minha escrivaninha: “Mas é a fidelidade histórica! Naquela época não tinha pessoas negras na Europa! Westeros é baseada na Europa! Não faria sentido ter personagens de peso que não sejam brancos”

Há duas respostas para esse argumento. Vamos começar pelo ponto de vista do gênero em si. Eu sei, eu já falei disso naquele meu texto sobre o machismo na fantasia medieval, mas já que o recorte é outro aqui, acho importante voltarmos para essa questão antes de explicar o segundo argumento que quebra o “naquela época”.

Existe algum debate sobre como podemos definir a fantasia. Em geral, é aceito como uma história de fantasia aquela que usa algum elemento mágico, sobrenatural ou fantástico como uma das partes centrais do enredo. Uma das “vantagens” da fantasia é que as ações e os acontecimentos podem ser diferentes do que aconteceria na vida real. É um gênero que permite que muita coisa possa ser trabalhada, criada do zero, inclusive mitologias e lugares completamente imaginários. Isso é muito importante de entender, e honestamente, eu acho que todo mundo entende. Afinal de contas, todo mundo sabe que dragões, magos e elfos não existiram na nossa história. Não acredito que exista uma pessoa adulta que assista Game of Thrones e acredite que uma bruxa vermelha pode ter um filho que na verdade é uma sombra assassina, nem que alguém assista Senhos dos Anéis e acredite numa criatura como um Gollum ou nos poderes que o anel tem.

A fantasia, independente dela estar na subcategoria medieval, não possui qualquer obrigação de ser fiel à nossa realidade. O fato de ser “medieval” só indica que há elementos na historia que nos remete ao nosso período medieval. Ninguém lê um livro de fantasia e fala “Ah não, esse dragão não faz sentido, como funciona o sistema para ele cuspir fogo?”. O universo até pode explicar algumas regras, mas exatamente por ser um gênero que tem muita ligação com a magia e coisas fora da realidade, não precisamos de realismo.

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Baseado em fatos reais… Não, pera

A pergunta que eu levanto, como já fiz em vários textos e vídeos, é: Se as pessoas acham tão tranquilo aceitar dragões, elfos e criaturas fantásticas, por que é tão absurdo e incoerente aceitar pessoas de diversas etnias? Por que é mais fácil aceitar um lugar onde só existam pessoas brancas? Quando as pessoas reclamam que isso é incoerente, ou elas não entendem como o gênero da fantasia funciona, ou elas estão reproduzindo um comportamento de base racista, de não aceitar a representação de outras etnias na produção cultural. Novamente: Se não há nenhuma necessidade de fidelidade histórica, por que alguns ainda insistem em usar esse argumento? É fraco e não cabe.

Mas há uma segunda resposta para esse argumento. Vamos supor que a fantasia precise sim ter alguma base histórica. Mesmo que a pessoa insista que esse é o caso, usar isso para justificar a falta de diversidade étnica continua sendo um argumento falho. Algumas pessoas têm essa ideia de que não existiam negros na Europa, agora da onde eles tiraram essa informação, eu não sei. Sim, a história que aprendemos é bem eurocentrada, muita coisa é embranquecida, basta vez que existe várias representações do Egito com pessoas brancas. Porém, um pouco de pesquisa pode provar que esse pensamento é errado, não havia só pessoas brancas na Europa.

De acordo com um artigo de história da BBCPessoas negras viveram na Grã-Bretanha por séculos, mesmo que as circunstâncias tenham variado muito. Nesse mesmo texto, também é pontuado que: Registros mostram que homens e mulheres negros viviam na Grã-Bretanha em números menores desde pelo menos o século 12″.

Essa não é a única referência que encontrei enquanto pesquisava. Há registros, inclusive em pinturas, de pessoas negras na Europa e, de acordo com o National Geographic, uma dessas pinturas é de 1241, isso falando apenas da Grã-Bretanha. No site dos arquivos nacionais do Reino Unido também há muita informação sobre isso, entre eles um trecho muito interessante:

Nos tempos de Roma, tropas compostas por pessoas negras foram mandados para a província de Britania, e alguns deles ficaram por lá depois que as forças de Roma saíram da Grã-Bretanha. Mais tarde, na época medieval, os mouros chegaram na região. Eles provavelmente vieram, direta ou indiretamente, da Espanha, que tinha sido conquistada por muçulmanos do norte e noroeste da África no século 8.

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Africans in Medieval Britain | National Geographic

Se essas pessoas não acreditam nos arquivos nacionais do Reino Unido, não é falta de informação, é só uma cegueira causada pela barreira do racismo mesmo. No final das contas, existiam sim pessoas negras na Europa Medieval, talvez em alguns países mais do que outros, mas elas estavam sim no continente. Logo, mesmo que a fantasia medieval precisasse ter alguma fidelidade histórica, essas histórias predominadas por personagens brancas também estariam erradas, porque historicamente falando, existiam pessoas negras lá, um número bem maior do que o que é representado na televisão e no cinema.

Não há espaço para usar a desculpa de fidelidade histórica para justificar a falta de representação étnica. A fantasia não a exige e, mesmo se exigisse, obras como Game of Thrones e Senhor dos Anéis estariam fazendo errado. Mas há algo acima disso tudo, mais importante do que essa discussão de fidelidade histórica.

Existe sim um contexto histórico que faz conexão com essas produções culturais: O atual. Todas essas séries, livros, filmes e outras obras são criadas em um contexto social, não dentro de uma bolha. E no ponto em que estamos, muito tem se falado sobre a importância da representação, ela tem sido exigida cada vez mais. Assim como também buscamos incluir outras pessoas criando esse tipo de conteúdo, não só as brancas. No final do dia, o que importa é que esse produto está sendo consumido por pessoas no presente, pessoas de todos os tipos, os mais diversos possíveis, que tem tanto direito de serem representadas quanto as pessoas padrão. Quando você escolhe fazer um produto, qualquer que seja ele, e só incluir pessoas brancas, você não só está fechando as suas possibilidades, como está ignorando o contexto em que a obra está sendo criada. Independente de ser medieval ou não, essa obra está sendo criada no século 21, onde a diversidade é importante.

Infelizmente, pela falsa fidelidade histórica, a fantasia medieval acaba entrando muito nessa discussão e sofrendo com narrativas únicas. As pessoas que trabalham com esse gênero insistem em tentar justificar o fato de só haverem brancos em seus universos, mas não importa quantas desculpas eles inventem, John Boyega está certo sim.

Fontes:

http://www.gq.com/story/john-boyega-star-wars-detroit-and-robert-downey-jr

http://www.bbc.co.uk/history/british/empire_seapower/black_britons_01.shtml

http://channel.nationalgeographic.com/videos/africans-in-medieval-britain/

http://www.nationalarchives.gov.uk/pathways/blackhistory/intro/intro.htm

Originalmente postado em Ideias em Roxo

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