Ikiru é a história de um homem com uma vida quase robótica, que nunca esteve realmente vivo, e de como ele morre. É a história de sua procura por uma vida desperdiçada no vazio, e a sua tentativa de fazê-la valer alguma coisa. Watanabe é o chefe de departamento em uma repartição pública japonesa que, ao descobrir-se com câncer terminal, percebe que sua vida vazia e sem amor não é honrosa em nada. Ele passa então à engajar-se junto a um grupo de mães na tentativa de construir um parque para seus filhos, e acaba atormentando todos à sua volta por causa de sua repentina mudança.

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Kurosawa decide mostrar pelos olhos de Watanabe apenas a procura do personagem em dar sentido à sua vida, em alcançar essa felicidade, e faz a opção de mostrar o que Watanabe de fato alcançou através dos olhos das pessoas que estavam à sua volta. Ao intercalar o olhar de Watanabe vivo com as cenas de seu funeral, Kurosawa me acertou com uma navalha no peito: todo aquele trabalho que ele teve nos últimos meses de sua vida não valeu para nada. Se o personagem principal está morto, o que mais há para contar?

A verdade é que, depois de morto, a sua opinião pouco importa; você perde o controle inclusive sobre a sua vida. Ela se torna histórias e causos das vidas de outras pessoas – por isso faz tanto sentido que a história de Watanabe seja-nos contada através da boca daqueles que permaneceram vivos. De certa forma, o roteiro nos dá a sensação de estarmos vivendo o nosso próprio funeral, as nossas próprias histórias post-mortem. Nós não temos controle sobre elas, permitindo que fatos e sentimentos sejam distorcidos por aqueles que as contam. Quando vemos Watanabe pelos olhos dos outros pela primeira vez, ele é o homem que faz a vida de todos mais difícil. Funcionário público, todos os departamentos à sua volta tem algum tipo de birra por Watanabe decidir sair da estagnação confortável do serviço publico e exigir que todos ao seu redor fizessem o mesmo. Ele forçou a vida dos outros a se moverem junto com a sua, mas eles não estavam prontos para isso.

Quando a família e os colegas de Watanabe conversam no funeral sobre a mudança do protagonista, eles sempre a associam a algo negativo: talvez ele soubesse que estava morrendo, talvez ele tivesse uma amante. Eles não conseguem notar que o homem que o protagonista se tornou no final de sua vida estava apenas mumificado dentro de sua personalidade vazia o tempo todo. Com essa visão, eles não conseguem se dar conta de eles mesmos estão na mesma posição em que Watanabe esteve até acordar. Ikiru work

Quando o protagonista olha, na parede de sua casa, o papel do governo que reconhece seus 25 anos de trabalho, ele vê o vazio de nunca ter de fato realizado nada pelas pessoas que deveria representar, de nunca ter feito nada para ninguém. Ma é quando ele encontra Toyo, uma jovem funcionária apaixonada pela vida que pede demissão, que Watanabe se inspira. Watanabe justifica sua vida vazia à Toyo ao dizer que a viveu assim para ajudar seu filho – hoje um homem casado que despreza o pai e está apenas interessado no dinheiro que lhe restará de herança, mesmo sem saber da condição terminal do pai. Mas quando Toyo diz à Watanabe que seu filho nunca pediu para que ele levasse aquela vida, o protagonista se vê encarando, novamente, o vazio de significado. Havia tanto que ele poderia ter feito, tantas coisas que ele poderia ter vivido.

A maioria de nós se preocupa com a morte, sobre o que vai ficar de nossas vidas nesse mundo. As pessoas vão lembrar de nós? Seremos esquecidos? As vezes, temos a ilusão de que seremos lembrados, que seremos lendas. Mas quão grande os meus atos precisam ser para que sejam lembrados?

Quando Watanabe morre, não há sequer uma placa com seu nome no parque que ele lutou tanto para construir. Mas, pelos olhos das mães que ele ajudou, ele se torna muito mais do que uma placa. E é apenas depois que elas chegam ao velório para prestar suas homenagens que os colegas de Watanabe entendem que estar ciente do câncer e talvez ter uma amante tem pouco a ver com as coisas que ele realizou. Sim, foi ao descobrir o câncer que ele decidiu viver, mas são as mudanças que ele fez que importam. Eles então saem do velório com uma visão mais positiva sobre as suas vidas e trabalhos. Essa visão não demora a se perder e ser esquecida – vemos eles todos voltando à vida que tinham no começo -, mas é aquele pequeno momento no final do filme, com um dos colegas de Watanabe, Kimura, parando sobre a ponte para observar o pôr do sol que faz com que os atos de Watanabe tenham valido à pena.

Kimura vê o pôr do sol e as crianças brincando no parque de Watanabe. Neste momento, não foi apenas o parque que Watanabe conseguiu realizar em vida que vai permanecer, é também esse primeiro pôr do sol que Kimura vê, e seja lá o que vier depois. No final, é a maneira com que tocamos a vida das pessoas à nossa volta, por mais etérea que ela seja, que nos faz maiores que a morte.

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