Hoje os jornais estamparam dois crimes horrorosos, um deles hediondo. Num ato de terrorismo, covardes incendiaram um centro de tradições gaúchas (CTG) que iria sediar um casamento. No outro o adolescente João Antonio Donati, de 18 anos, foi torturado, morto e sua boca entupida por papéis de picolé. Ao ler a segunda notícia meu estômago se contorceu e eu segurei a vontade de chorar. Uma dor que não é nem perto da que o rapaz sentiu ao ser agredido antes de ser morto. Mas uma dor que vêm da raiva que eu sinto pelo descaso.

Incêndio criminoso e homicídio são crimes com punição prevista por lei, caso sejam identificados esses criminosos e assassinos serão julgados e se existir justiça, serão condenados. Mas a nossa constituição não se importa com a razão pela qual o CTG foi incendiado, e muito menos o que levou esse menino a ser assassinado. Não importa a motivação do bandido – a não ser que ele quebre os vidros do metrô de São Paulo durante a copa. Aí os políticos se movimentam pra criar uma lei antiterrorismo. A única coisa que importa para a constituinte é o bem privado, é a bancada religiosa que prega amor e comete homicídio.

Não, eu não estou sendo leviana e não estou pegando pesado. Cada um de vocês, políticos e religiosos fundamentalistas, que presam pelo seu direito de ser homofóbico e de reprimir os direitos civis dos cidadãos são culpados por isso sim. Pode não ter sido a sua mão que acendeu o pavio, nem a tua mão que acertou os socos, pontapés, que quebrou o pescoço e que afundou o papel na boca sem vida do menino de dezoito anos. Mas foi é a sua intolerância e o seu discurso homofóbico que cultiva esse ódio contra uma pessoa. Por que por mais que você tente evitar, que pinte de ameaça do capeta, que diga que é contra a bíblia e que por isso é amoral, esse rapaz morto pela intolerância é pessoa, é cidadão, tem livre arbítrio e diferente de você sabia o que era estar vivo de verdade e o que era amor.

Você, fundamentalista religioso da bancada religiosa, diz que homofobia não pode ser criminalizada porque senão os pastores vão perder a liberdade religiosa. Você sabia que antes dos homossexuais quem eram perseguidos por igrejas eram os negros? Que até hoje ainda há organizações religiosas que os perseguem? Que o racismo foi considerado crime exatamente para que você não pudesse mais propagar um discurso de ódio que coloca todos aqueles diferentes de você em perigo? Ódio mata. E ódio aliado a religião mata ainda mais. Homofobia precisa ser criminalizada para calar babacas como você, que confundem liberdade de expressão com propagação de ódio, terrorismo e assassinato. Você se acha diferente do fundamentalista mulçumano que corta o pescoço do repórter e coloca na televisão? Você não é. A diferença é que não é a tua mão que empunha a faca, mas o seu discurso que a controla.

Se Deus quer dizer amor, que merda é essa que você está fazendo? Você quer liberdade de expressão para propagar palavras de ódio? Hitler fazia isso muito bem também e matou milhares de cristãos.

Homofobia já é crime. Já espanca, incendeia, mata e esquarteja. O que falta agora é tornar oficial, é adicionar aos anos de cadeia a punição por crime de ódio. E por que importa? Porque se fosse o seu filho que tivesse sido assassinado, ou se fosse o seu casamento que tivesse sido boicotado, você ia querer saber o porque. Porque esse rapaz merece justiça não apenas pelo ato do crime, mas pelo que levou os assassinos a cometerem, pelas ameaças que recebeu ao longo da vida, pelas amizades que perdeu, pelos amores que nunca vão se concretizar e pelo direito de ser livre e viver. Tudo isso ele perdeu, graças ao ódio que você incentiva e distribui. Nada vai trazer o rapaz de volta a vida, mas a gente precisa honrá-lo em sua morte. Nada vai fazer valer a morte, mas pode ajudar a parar outro crime.

*Não, eu não tenho nada contra a sua religião, seja ela qual for. Eu vou defender até o fim o seu direito de tê-la. Mas eu quero que ela não interfira nos direitos das outras pessoas.

 **Este texto antes utilizava a palavra o termo evangélico para se referir aos religiosos extremistas em questão. Ciente de que não é apenas uma religião, por maior que seja o seu alcance, que é responsável por disseminar o discurso de ódio, resolvi optar pela mudança.

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