O Hikaru Sulu da nova franquia cinematográfica de Star Trek é gay.

Sulu não é o primeiro personagem gay do universo de Star Trek. A temática LGBT já foi abordada de maneira sutil durante suas diversas séries de televisão, e também de maneira mais óbvia com as personagens Dex e Lenara (num plot que, inclusive, eu diria abrir toda uma discussão sobre amor não estar ligado à gênero, mas isso é pra outro dia). Apesar disso a internet ficou empolvorosa com a notícia de que Sulu “agora é gay”.

De acordo com John Cho, o interprete do personagem, a sexualidade de Sulu vai ser apresentada de maneira natural, sem grandes alardes sobre isso. Sulu tem uma família composta por ele, seu companheiro e a filha do casal. Independente de como o filme abordar a sexualidade do personagem, esse já é um grande passo.

Porque eu acho que essa é uma representação tão importante?

Porque eu rodei diversas listas de filmes dentro das maiores franquias nerds no cinema e não encontrei um personagem central que fosse abertamente gay, lésbica ou bissexual. Star Trek é uma das maiores franquias de Hollywood. É uma das maiores franquias nerds. E em blockbusters nerds do tamanho da franquia Star Trek, Sulu se tornará o primeiro personagem abertamente gay.

Me parece ridículo que apenas em 2016 nós ainda precisemos discutir e celebrar esse tipo de inclusão, mas a verdade é que a perspectiva de vermos personagens LGBTs atingirem as grandes franquias nerds no cinema é bem pequena. Nós e Mark Hammil podemos querer isso, mas dificilmente a Disney vai anunciar que Luke Skywalker é gay. E se depender de Kevin Fiege, talvez nos próximos DEZ ANOS a Marvel introduza um personagem LGBT nos seus filmes.

George Takei, ator que interpretou o Sulu original, não ficou contente quando foi abordado pela equipe de produção do filme com a novidade. E o fato deles terem prosseguido com o plot apesar da objeção dele, acabou o deixando desapontado. E ele tem todo o direito do mundo de se sentir assim.

Takei acredita que o personagem não deveria ser gay pois essa não era a visão original de Gene Roddenberry, criador da série. Desde que se assumiu gay, Takei se tornou um dos grandes nomes do ativismo LGBT na cultura pop, incansavelmente abordando o assunto e a importância da representação dentro da cultura pop. A voz dele é uma voz importante pra ser ouvida principalmente no que tange representação gay e, um de seus argumentos, é que seria muito mais interessante se um personagem novo tivesse sido introduzido na franquia. Apesar de eu concordar que essa teria sido uma ótima saída, eu não consigo não achar que essa mudança não é positiva.

Já falei algumas outras vezes sobre como essas mudanças nos personagens clássicos são importantes. Star Trek está dentro da cultura nerd há cinquenta anos, por maior que seja o sucesso das suas séries paralelas, é difícil que algum personagem seja tão conhecido mundialmente, ou tenha tanto alcance em todas as esferas do mundo nerd, quanto a tripulação original. Talvez só Capitão Pickard. Criar um personagem completamente novo e incluí-lo nos filmes poderia ter sido uma solução interessante, mas porque não apresentar essa nova camada à um personagem original?

Star Trek (2009) e Star Trek: Além da Escuridão (2013) não abordaram Sulu dentro da sua esfera romântica e pessoal, então há sim o espaço para que isso seja apresentado organicamente e agora. Os trailers prometem colocar a tripulação em perigo de vida ou morte, faz sentido que se elevem os riscos para cada um dos personagens. Ter uma família que o aguarda em casa, e a possibilidade de talvez nunca mais vê-la é uma das maneiras mais tradicionais do cinema de mostrar tudo que um personagem pode perder caso um plano dê errado. Porque não usar essa narrativa tão tradicional com um personagem fora da linha heteronormativa?

É muito importante que novos personagens LGBTs sejam criados, e que eles sejam cada vez mais integrados à cultura pop. Mas mudar a sexualidade de personagens já estabelecidos ou, nesse caso, simplesmente apresentar uma sexualidade diferente da que se acreditava ser, é um passo importante para que a comunidade nerd passe a ver personagens que fogem do padrão heteronormativo com a naturalidade que eles deveriam ser vistos. E principalmente para que esses temas tenham um alcance mais universal que talvez seria difícil alcançar um personagens novos.

Particularmente eu não vejo a revelação de que o Sulu dos novos filmes é gay como uma mudança na sexualidade do personagem, e nem só porque ela nunca foi abordada antes. Uma das principais sacadas dessa nova franquia de filmes de Star Trek é que ela não é um reboot no sentido mais fechado da palavra, ela é uma realidade paralela. As histórias envolvendo a tripulação clássica e esta nova tripulação acontecem em universos diferentes, ou seja, este Sulu não é o mesmo Sulo da série de televisão. O filme em si já tem diversas diferenças temáticas do original, porque não apresentar uma nova faceta à um de seus personagens?

Apesar das diferenças em relação à série clássica, e mesmo apesar das doses de hipersexualzação feminina e machismo presentes nos últimos dois filmes, eu gosto dessa nova franquia de Star Trek. Quando Simon Pegg foi anunciado como roteirista do terceiro filme, fiquei com grandes esperanças de que talvez eu não tivesse que enfrentar uma cena onde uma personagem feminina está de calcinha e sutiã sem nenhum motivo aparente. Saber que houve a preocupação de incluir um personagem gay na trama me dá ainda mais fôlego para assistir ao filme nos cinemas.

O filme ainda não estreou, então ainda guardo dentro de mim ressalvas e aquele medinho de que mesmo tentando acertar, eles tenham errado. Mas dentro do universo de cultura pop sci-fi onde só existem homens brancos heterossexuais, Sulu é gay e asiático. Isso é mais do que queer baiting, é representação.

Sulu não é o protagonista de Star Trek. É um passo pequeno, mas é um passo importante. Eu continuo querendo que novos personagens LGBTs sejam criados, mas estou feliz com a revelação. Agora é esperar não só que as outras franquias nerds sigam os passos de Star Trek, mas que mais letras da comunidade LGBT continuem a aparecer nesse nosso meio nerd.

Nós vamos continuar discutindo. Vamos continuar celebrando. Vamos continuar cobrando. E vamos chegar lá. <3

Tradição vs Mudança

*Eu sei que vão aparecer aqueles para me lembrar da pansexualidade do Deadpool, e eu já digo logo de cara que isso não está no filme. Nos quadrinhos? Sim. No filme? Vamos ter que esperar para o próximo, que já prometeu incluir esse aspecto do personagem na trama. Continuo na torcida.

*A sexualidade de Dumbledore também nunca foi abordada nos filmes.

*Os filmes dos X-Men nunca abordaram a bissexualidade da Mística.

  • Arrasou, Rebeca! \o/

  • Rosana

    Oi Rebeca,
    Gosto muito deste site e como vocês abordam as temáticas. Concordo com seus argumentos. Apesar de não ser meu local de fala, acho que cada passo é importante para a construção de uma boa representação LGTB, assim como para personagens femininas e de outras etnias. Devemos comemorar sim, e continuar a cobrar também.
    Só gostaria de corrigir que Picard não tem o k.
    Continuem o bom trabalho, meninas!
    Beijos

    • Rebeca Puig

      Oi Rosana! Obrigada pelo carinho! <3 E valeu pela dica, tenho uma mania de colocar K em tudo. hehehe 😉

  • Marcos Correia

    Entendo a posição do Takei de querer preservar o obra original do Roddenberry, mas acho que a mudança não só é bem vinda, como é também uma homenagem relevante ao próprio ator.
    E convenhamos, Sulu ser gay tem impacto praticamente nulo na franquia.
    Polêmica haveria se mudassem o Kirk, o estereótipo do “garanhão-hétero-pegador”, para pelo menos bissexual.

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