Dirigido por James Hawes, Hated in the Nation (Odiados pela Nação) é o último episódio da terceira temporada de Black Mirror. Também é o mais longo, com uma hora e meia de duração, praticamente um filme. Em Hated in the Nation, a detetive Karin Parke (Kelly Macdonald) e sua nova assistente Chloe Perrine (Faye Marsay) começam a investigar um novo caso: Uma jornalista famosa foi assassinada depois de escrever um artigo muito polêmico em sua coluna, que rendeu muitos comentários de ódio na internet. Durante a investigação, Karin e Chloe descobrem que os assassinatos possuem conexões com uma empresa que desenvolve abelhas robóticas, já que essa espécie está extinta nesse mundo.

Por ser mais longo que os outros, o episódio acaba trazendo vários tipos de reflexões: discursos nas redes sociais, viralização, governo monitorando a vida da população, extinção de espécies importantes para o ecossistema… Hated in the Nation é uma história policial que mostra um lado sombrio do que poderia acontecer caso as coisas que postássemos na internet fossem mais do que só palavras. Hoje em dia, muitos lutam para que a internet não seja uma terra sem lei e esse episódio aborda isso, só que de uma forma muito mais… Black Mirror.

Devo assistir? O episódio tem mortes e ameaças na internet, mas não é um episódio violento ou com cenas muito gráficas de violência. Tem abelhas robóticas, é bom saber caso você tenha fobia, mas como uma pessoa que tem medo de abelhas (as de verdade), apesar de passar por alguns incômodos, consegui assistir o episódio numa boa.

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Hated in the Nation começa mostrando a investigadora Karin Parke dando um depoimento. Já sabemos que alguma coisa ruim aconteceu pelo clima dessa cena. O resto do episódio se passa todo em flashback, apresentando a protagonista e a primeira morte daquele caso. A jornalista Jo Powers escreveu um texto bem polêmico, agora a internet está enfurecida, escrevendo todo tipo de comentário raivoso sobre ela. Nas próximas cenas, vemos que a jornalista foi morta e é nesse momento que Karin conhece sua nova colega, Chloe Perrine. Aliás, queria dizer que gostei bastante de ver duas mulheres protagonizando um episódio de investigação policial.

Como a jornalista estava sendo ameaçada na internet, a policia acredita que ela possa ter sido assassinada por causa de seu último texto. Tudo fica mais esquisito quando o marido, que estava no apartamento, e também foi atacado, diz que Jo fez aquilo consigo mesma. Enquanto as investigadoras tentam entender aquela nova informação, começamos a ver cenas do rapper Tusk. Ele deu uma declaração em um programa de televisão que enfureceu a internet e agora ele é alvo de ameaças. Do nada, Tusk começa a se contorcer de dor e é levado para o hospital.

Tusk é colocado para fazer uma ressonância magnética, mas isso acaba causando sua morte. Por ser um imã gigante, o aparelho de ressonância puxa qualquer metal e tinha um na cabeça de Tusk. Uma abelha robótica. É mais ou menos nesse momento que a autopsia de Jo Powers mostra que também tinha uma abelha robótica dentro de seu corpo. As investigadoras descobrem que essa abelha conseguiu ir parar no centro de dor do cérebro da jornalista. Para se livrar da dor, Jo rasgou a própria garganta.

Karin e Chloe vão até a empresa que controla as abelhas robóticas. Depois de alguns minutos de explicações, dá para entender como elas funcionam e como o assassino poderia ter controlado uma delas para matar Jo. Aqui já deduzimos que o cara é um gênio ou tem algum conhecimento avançado no funcionamento dessas abelhas. No caso, ele costumava trabalhar para a empresa. Enquanto Rasmus (Jonas Karlsson), que trabalha na empresa das abelhas, tenta descobrir mais sobre como suas peças estão sendo controladas, o agente Shaun Li (Benedict Wong) entra em contato com Karin, falando do caso de Tusk.

Depois disso eles encontram a #DeathTo, que está sendo sendo usada no twitter por várias pessoas. Um usuário (com avatar de abelha) começou a divulgar um vídeo que diz: Use #DeathTo postando nome e foto da pessoa (Death Note ficou moderno), que for mais votado até às 17h será morto. Jo Powers e Tusk tinham liderado as votações no dia em que morreram.

A partir daí, Karin e Chloe começam uma corrida contra o tempo para tentar impedir o assassino de matar as pessoas mais odiadas no #DeathTo. O assassino está sempre na frente. Para mim, o episódio podia ter aproveitado um pouco melhor o tempo para nos apresentar esse assassino. Nós até descobrimos quem ele é e porque faz o que faz, mas seria mais interessante ver mais do personagem. O episódio tem 90 minutos e em alguns momentos ele é mais longo do que precisava, então tinha espaço para mostrar mais do vilão aqui.

Além da investigação, vemos toda a questão política em volta das abelhas. Vemos aos poucos que salvar o ecossistema é uma preocupação secundária para o governo, mas nesses pequenos robôs eles conseguem uma oportunidade de monitorar toda a nação. É interessante como o episódio faz os jogos políticos entrarem em conflito com a investigação do caso.

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O fato das abelhas serem as que matam também é muito simbólico. As abelhas que fazem o transporte do polén, que permite a reprodução de várias flores e plantas. Ou seja, a abelha é uma espécie de agente da vida, não só da flora no planeta, mas também da vida humana, já que isso nos impacta também. Sua extinção é um grande baque para o equilíbrio do planeta, por isso elas são substituídas por versões robôs. Justamente elas, que foram criadas para continuar o trabalho de vida da espécie extinta, acabam carregando a morte nesse episódio. E não é só a morte, elas carregam o ódio, a vontade das pessoas de fazer justiça com as próprias mãos. Jo Powers e Tusk fizeram coisas ruins, mas nenhum deles merecia a morte por seus erros. É interessante também o fato de que um dos simbolismos da abelha é a ordem, e as desse episódio estão espalhando o caos.

O grande momento do episódio é quando eles descobrem que há uma lista de pessoas que usaram a #DeathTo. Rasmus vai desativar as abelhas, mas Karin diz que não podem. Não por causa dos assassinatos ou do ecossistema em si, mas porque está tudo muito suspeito. Karin, que é a investigadora mais experiente ali, diz que aquilo pode fazer o efeito contrário, ativar as abelhas em massa. Já que é um episódio de Black Mirror, ninguém escuta e eles ativam o comando. Resultado: As abelhas matam todos os que usaram a #DeathTo, ou seja, quase 400 mil pessoas.

É difícil processar o que acontece no final desse episódio. Inúmeras pessoas foram mortas ao mesmo tempo por postarem coisas no twitter. Depois dos acontecimentos do episódio, não espanta o clima que está na sala de depoimento. Uma pessoa sozinha conseguiu matar quase 400 mil pessoas! E não foi capturada ainda, se bem que, como vimos, Chloe ainda está atrás dele.

Falamos muito sobre a responsabilidade que precisamos ter quando postamos algo na internet. Quanto maior você for, mais longe vai sua mensagem, portanto a responsabilidade aumenta. Mesmo que você não seja ninguém famoso, não dá para simplesmente mandarmos mensagens de ódio para pessoas aleatoriamente, mas infelizmente acontece. Várias pessoas já saíram das redes sociais por causa de perseguições assim. Parece ser algo só no virtual, mas esse tipo de coisa pode acabar com a vida de alguém. O assassino sabe disso e quer ensinar essa lição da pior maneira. Ele estimula que as pessoas façam isso, que todos usem o twitter para mandar alguém morrer, mas no final todos esses morrem também. É óbvio que internet não é terra sem lei e as pessoas precisam se responsabilizar, mas assim como Jo Powers e Tusk não mereciam a morte, esses usuários também não.

As atuações são muito boas nesse episódio, principalmente das duas atrizes principais. Além disso, suas personagens são muito legais e interagem muito bem ao longo do episódio. Karin e Chloe se completam, enquanto a primeira é mais experiente e, talvez por isso, mais cética e de saco cheio, Chloe é a investigadora ligada em tecnologia, mais empolgada e relativamente nova naquele lado das investigações. Em alguns momento que o roteiro faltava com o ritmo necessário para funcionar, as interações das duas personagens que parecia segurar as coisas. Foi um dos pontos altos do episódio.

Hated in the Nation acerta muito. Tem uma história interessante, um enigma legal de acompanhar, uma dupla de protagonistas que funciona muito bem, mensagens muito fortes e um impacto grande. É uma pena que esse episódio tenha tentado ser mais longo do que precisava ser. Ao não saber distribuir bem seu tempo (e evitando aproveitar esses minutos para mostrar mais do assassino), Hated in the Nation infelizmente não tem o melhor dos ritmos e pode ficar entendiante em certos momentos. Mesmo com alguns pontos negativos, para mim é um dos melhores episódios desses novos e um bom encerramento para a terceira temporada de Black Mirror.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.

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