Hoje à tarde, recebi uma mensagem de um colega me dizendo que Gone Girl havia atingindo os fóruns de Masculinistas e estava fazendo sucesso. Isso era exatamente o que eu temia.

Fóruns e grupos masculinistas são o centro de quase todo o ódio contra mulheres da internet. Neles, feministas são vistas como terroristas, que devem ser assassinadas, estupradas e o que quer que esteja entre esses dois atos violentos. São grupos voltados para vitimizar os homens que tem seus privilégios e seus “direitos” negados pela sociedade. Esses direitos, vamos deixar claro, são os de bater em mulheres que “não se comportam”, ser um womanizer, se recusar a trabalhar para uma mulher; muitos acreditam que estupro corretivo é necessário, questionam todas as acusações de estupro, desmerecendo as vítimas. Eu estou sendo delicada na descrição desses grupos. Mas acho que vocês já devem ter entendido o tipo de pessoa que frequenta estes sites. Vale lembrar que os sites não são apenas contra mulheres, mas contra pessoas LGBT’s e alguns deles se estendem ao racismo.

Aqui no Brasil, nós tivemos um caso famoso alguns anos atrás, quando um ex-aluno invadiu uma escola em Realengo. Foi um crime horroroso que chocou o país. Algum tempo depois, descobriu-se que ele estava ligado a um grupo misógino na internet, que havia inclusive conversado dentro do grupo sobre um possível ataque, e que havia sido incentivado por um dos líderes. Este líder acabou preso por outras acusações. A história ganhou pequena divulgação na mídia e logo foi esquecida. A Lola falou sobre toda essa história num post quando o ataque fez um ano.

Li muitas críticas sobre Gone Girl, muitas delas pareciam não perceber ou relevar o problema de misoginia no filme. Apesar de sentir alguma dúvida enquanto lia as críticas, nunca consegui me desfazer do sentimento ruim com que o filme havia me deixado. Infelizmente, eu estava certa em me preocupar.

Quando falamos de maneira superficial e cheia de estereótipos de um problema real, tudo tende a ser interpretado da pior maneira possível – neste caso, pelas piores pessoas possíveis. Demorou um pouco, mas Gone Girl atingiu os fóruns masculinistas e adivinhe? Eles estão adorando um filme em que o homem justo e masculino é mostrado como vítima da mulher louca e dominadora. Um filme onde acusações de estupro desmedidas são usadas para representar uma psicopata.

O mais louco disso tudo é que, logo após esse colega me mandar o link para esse fórum de merda, o meu texto recebeu um comentário de um cara comprovando todo esse meu medo com um filme desses. É triste. Eu preferiria escrever um texto dizendo que estava errada e que a nossa sociedade não absorve informações e reproduz conceitos prejudiciais do jeito que eu achava. Mas esse não é o caso.

Muitas pessoas acham que o machismo existe, mas que ele não é esse monstro de sete cabeças de que tanto falamos. Muitas vezes eu me questiono, é um processo constante esse de quebrar o machismo que está internalizado dentro de mim. Eu sou feminista, mas cresci em uma sociedade machista e a desconstrução desse elemento, e da culpa que ele me causa, é um trabalho que talvez dure toda a minha vida.

Se a indústria do entretenimento mostrar apenas homossexuais felizes, coloridos, festeiros e promíscuos, ou se o negro sempre for retratado como vilão, ou se a pessoa trans sempre for tratada como uma anomalia, ou se a mulher sempre for retratada como a donzela em perigo ou a louca descontrolada, ou mesmo se o homem sempre for retratado como o alfa, nós nunca vamos evoluir. Vamos sempre estar presos num ciclo sem fim de negatividade e de preconceito. Vamos continuar a contribuir para os índices de violência doméstica, de ataques a homo e transfóbicos, de garotinhos sendo açoitados por pais machistas e de negros sendo presos e assassinados apenas por serem negros.

É preciso ter responsabilidade quando se cria algo que vai atingir o público. Essa responsabilidade é necessária e é imediata.

Esta semana, eu assisti a um TED Talk da Chimamanda Adichie, escritora feminista nigeriana, em que ela fala sobre o perigo da História Única. Sobre como, no ocidente, nós crescemos escutando apenas a história de tragédia Africana, onde todos passam fome e morrem em guerras. Ela mesma acreditava na história única, que lhe convencera de que ninguém na família do empregado da casa dos seus pais era capaz de criar alguma coisa – e se sentiu envergonhada e surpresa quando se descobriu errada. Chimamanda é uma mulher negra africana que é capaz de notar os seus próprios privilégios. Por que nós não podemos fazer o mesmo?

Criar histórias que vão atingir outras pessoas é um privilégio, e ao construir uma história nós estamos construindo um discurso. Discursos podem ser mal interpretados e podem ser utilizados para fins negativos. Ninguém tem controle sobre a mente de ninguém, mas quando vivemos numa sociedade machista, homofóbica, transfóbica, racista e exclusivista, precisamos nos preocupar com quem o nosso discurso vai dialogar.

No caso de Gone Girl, assim como ficou claro para mim logo no começo que o filme era ofensivo para mulheres, ficou claro para os caras mascus que ele era o paraíso. Pelos comentários no fórum (eu fiz um não fo.de, mas eu recomendo evitar a leitura) eles não esperavam que esse fosse o caso, mas receberam de braços abertos um filme que dissemina e cultiva a manutenção de um monte de estereótipos negativos tanto para mulheres como para homens. Nick não é um personagem legal, ele é um cara que foi submisso a vida inteira e vai continuar assim, mas ele é o personagem perfeito para as fantasias de qualquer homem abusivo ou preconceituoso se projetar. Ao mesmo tempo que é um prato cheio para os mascus, Gone Girl esvazia a vítima real de abuso físico e moral de qualquer subjetividade, desrespeita o trauma dessas mulheres e as entrega numa bandeja para os masculinistas.

Claro, eu não acho que foi a intenção do diretor e da roteirista que isso acontecesse. Na verdade eu tenho muita certeza de que esse não é o caso. Mas como criadores de conteúdo cultural, eu sinto muito, nós precisamos nos preocupar com as consequências que os nossos produtos vão trazer. Se eu opero no limite do estereótipo, estou ajudando a disseminar conceitos errados, negativos e extremamente prejudiciais, alimentando um ciclo eterno de misoginia, racismo, homofobia, transfobia e assim por diante.

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