TW: Estupro

Quando comecei a pesquisa para esse texto, tive a ideia horrível de jogar “rape games” (“estupro” e “jogos”) no Google, esperando que aparecessem textos que falariam sobre cenas de estupros em games. Eu tive que sair da primeira página para achar o que procurava porque os primeiros resultados eram jogos de estupro. Isso mesmo, sabe aqueles sites que você entra e nem precisa baixar nada pra jogar? Então, eram desses, só que com a possibilidade do seu personagem estuprar alguém. Eu não entrei pra verificar como eram os jogos porque já está sendo um trabalho difícil o suficiente escrever sobre o assunto, mas independente do que o game ofereça, só de existir uma boa quantidade de jogos desse tipo já indica que tem algo muito errado na comunidade gamer.

Depois desse momento infeliz, parei e pensei comigo quantas vezes me deparei com cenas de estupro ou até um personagem falando sobre o assunto. Foram poucos os jogos que vieram na cabeça. Em GTA 4 um homem pede para o seu personagem sequestrar a filha do rival e, uma vez que você o faz, ele diz que agora iria se “divertir” com ela. Na série The Witcher, no fim do segundo jogo, o personagem principal impede uma mulher de ser estuprada, também durante o terceiro jogo um dos órfãos da guerra dá a entender que sua mãe foi levada pelos guardas para ser estuprada. O Tomb Raider de 2013 teve uma cena polêmica que muitos jogadores interpretaram como uma tentativa de estupro.

Quando saímos da área dos “grandes jogos” e procuramos dentro dos indies ou jogos menores, a coisa fica mais explícita. Em 2006 a desenvolvedora Illusion Soft lançou um jogo chamado RapeLay, em que o protagonista tem como objetivo estuprar a mãe e as filhas de uma família. A demo de Hotline Miami 2, de 2015, também tinha uma cena de estupro que mais tarde foi cortada. O protagonista tem a opção de se aproximar da mulher que acabou de atacar e estuprá-la. Olhando mais para trás, temos o um jogo chamado Custer’s Revenge, de 1982, em que o protagonista é um cowboy que no final estupra uma índia.

Olhando pra esse cenário, parece que “só” jogos menores que perpetuam cultura do estupro e os jogos maiores se mantém longe da temática, não? Errado. O que eu quis dizer com esse começo é que não necessariamente algo precisa mostrar a cena em si do estupro para perpetuar essa cultura, jogos maiores, mais conhecidos e de desenvolvedoras grandes também ajudam nisso, infelizmente. Uma das coisas que permite a existência da cultura do estupro é um contexto patriarcal que desumaniza mulheres constantemente e uma das formas que isso acontece é a objetificação da mulher.

Apesar de a maioria dos jogos não mostrar cenas de estupro diretamente, muitos deles sexualizam suas personagens, objetificando-as e passando aquela velha ideia de que mulheres são apenas um corpo bonito, um objeto que foi criado para o prazer do homem. Há uma série de formas que os jogos podem fazer isso, alguns exemplos disso são:

Mulheres como cenário: NPCs mulheres sexualizadas que ficam no fundo de uma cena, como se fossem objetos do cenário. Na maioria das vezes elas nem tem uma personalidade ou interação, só estão lá mesmo como parte do ambiente. Em alguns dos casos esses NPCs são prostitutas que a única interação possível é fazer sexo com o protagonista. Em Mortal Kombat 9, quando Shao Kahn vence uma batalha, uma mulher seminua se arrasta no chão na direção dele. God of War e The Witcher são jogos em que personagens seminuas e extremamente sexualizadas estão ali apenas para compor cenário.

Violência: Quando mulheres são mortas em jogos ou colocadas em qualquer situação de violência, mas seus corpos ainda são sexualizados. Muitas vezes elas são colocadas nessas situações para o protagonista salvar ou dar algum propósito para a história, fazendo com que o sofrimento deixe de ser sobre elas e passe a ser do protagonista que muitas vezes é homem. As capas sexualizadas de Hitman e L.A. Noire mostram bem isso. Também tem a cena de luta em Heavy Rain em que Madison tenta impedir um intruso de atacá-la em sua casa e ela está de calcinha e blusa colada.

Animação: Aqui eu quero dizer a forma que os desenvolvedores animam os movimentos das personagens mulheres. Muitas delas andam rebolando de uma forma que os homens não fazem nos jogos, assim como até mesmo durante lutas elas fazem movimentos que não combinam com o momento. Em Dragon Age 2 dá pra ver bem como a Hawke mulher rebola bem mais enquanto anda do que o Hawke homem. No jogo Batman Arkham City a mulher gato também rebola exageradamente. Bayonetta é um show de movimentos sexualizados que não fazem nenhum sentido.


Câmera
: Apesar de muitas vezes o jogador controlar a câmera, os games também possuem cutscenes em que os desenvolvedores escolhem o ângulo e nem sempre são os melhores. Assim como pode acontecer no cinema, a câmera foca na personagem de forma que sexualize o corpo da mulher, convidando e guiando o olhar do jogador. Mass Effect 2 ganhou o apelido de “Ass Effect” pela quantidade de enquadramentos que focavam na bunda da Miranda. Falando de Bayonetta de novo, a câmera do jogo foca na bunda da protagonista em inúmeros momentos de luta. Um exemplo talvez menos conhecido seja Haunting Ground, em que a protagonista Fiona precisa trocar de roupa e um personagem fica espionando por um buraco na parede.

Roupas: Esse é provavelmente o aspecto que mais reclamamos nos jogos e também o mais aparente. Quantos jogos não colocam roupas absurdas em suas personagens? Pouca roupa em ambiente de guerra, salto alto durante lutas, decotes nada confortáveis… Não precisa fazer sentido, só precisa ser atraente para o público masculino. Enquanto os personagens homens recebem roupas que conversem que façam sentido com o contexto e suas personalidades, as mulheres precisam estar sexualizadas de alguma forma. Os casos mais conhecidos atualmente são as roupas de Laura em Street Fighter e Quiet em Metal Gear, mas é muito fácil encontrar outros exemplos.

Essas são as formas mais comuns, mas existem outros jeitos de um jogo sexualizar suas personagens. Juntando isso com personalidades fracas e pouca relevância dentro dos games, a representatividade das mulheres dentro dos jogos acaba sendo objetificada de alguma forma, assim perpetuando a cultura do estupro.

Também precisamos olhar para fora das telas dos jogos. A comunidade gamer é muito misógina e é conhecida por não ser um lugar bem-vindo para mulheres. São inúmeros os casos de assédio que jogadoras relatam dentro de partidas online, sejam comentários de cunho sexual ou ameaças de estupro por parte dos jogadores homens. Isso faz com que muitas gamers acabem evitando esse tipo de jogo ou só jogando com o chat desligado. Além disso, infelizmente ainda é comum ouvir, durante partidas online, que um time “estuprou” ou “vai estuprar” o outro, no sentido de vitória de lavada, como se estuprar alguém fosse motivo de orgulho.

Não são apenas nas partidas online que as mulheres do mundo gamer sofrem assédio. Talvez o caso mais conhecido seja a perseguição que fizeram contra Anita Sarkeesian, que passou por ameaça de estupro e morte em boa parte incentivada pelo GamerGate. Quando puxamos o histórico do GamerGate vemos que são vários casos de assédio, incluindo as desenvolvedoras Zoe Quinn e Brianna Wu.

Em 2014 alguns jogadores mexeram nos códigos de GTA5 para que pudessem estuprar outros jogadores em partidas online. É isso mesmo que você leu, o código permitia que um personagem se aproximasse de outro e fizesse movimentos que simulavam um estupro. Também teve o caso mais recente de animações pornográficas com as personagens mulheres de Overwatch aparecendo pela internet. Os vídeos foram inclusive colocados em sites de pornografia, mesmo que o público alvo do jogo seja Teen. A única boa notícia desse caso é que a Blizzard está trabalhando para que todos os vídeos sejam removidos.

Isso tudo mostra que há uma forte perpetuação da cultura do estupro tanto dentro dos games como fora deles. Piadas com estupro, objetificação, assédio… Tudo isso afeta o cotidiano das mulheres e nós precisamos falar sobre isso. Os games, assim como outras mídias de entretenimento, são capazes de passar mensagens e influenciar a vida das pessoas, portanto é no mínimo irresponsável que games continuem perpetuando essa cultura. É preciso também mais atenção na comunidade gamer, principalmente por parte das desenvolvedoras, que não deve dar espaço para assédio em seus fóruns.

Precisamos e vamos continuar criticando até que as coisas mudem. Conseguimos melhorar alguma coisa ultimamente, empresas como Bioware e Blizzard começaram a ouvir o público feminino e tentam melhorar sua representatividade. Isso é importante, não só para mulheres se sentirem acolhidas no mundo gamer, mas também para tentar modificar uma cultura que nos afeta todo o dia. Não podemos diminuir essas questão com “isso é só um jogo”, games perpetuam a cultura do estupro e isso precisa parar.

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