Precisamos falar sobre a Kesha e todo esse problema. Quando o capitalismo fala mais alto que a dignidade de uma mulher, isso mostra muito sobre nossa realidade atual. Realidade que não é exatamente nova, mas que ficou muito explícita depois da Justiça americana ter negado o encerramento do contrato entre a Kesha e o produtor Dr. Luke por pressão da Sony.

foto: Reprodução

Kesha e o produtor Dr Luke. Foto: Reprodução

Kesha denunciou que foi drogada e estuprada por Lukasz Gottwald, mais conhecido como Dr. Luke. Segundo ela, seu produtor deu um suposto remédio para sobriedade, mas, na realidade, eram drogas. Ela disse que ficou inconsciente e no dia seguinte acordou nua na cama do produtor, ainda desorientada. Mas não foi um caso isolado.

Depois disso, a cantora entrou na Justiça para encerrar o contrato entre a Sony e ela por causa do episódio, que não foi o único. Segundo ela, foram anos de assédio psicológico sexual. Vale lembrar que não foi nem para tentar prender o cara, mas pra encerrar o contrato. Ela só não quer mais trabalhar com ele. Desde então, Kesha não tem mais feito música e vários posts no Instagram mostram o quão deprimida ela está por causa disso.

 

Mas como tudo aos olhos do show biz, Kesha não é mais uma mulher com seus direitos e dignidade. Ela virou um produto pelo qual a Sony lucra e, mesmo se for estuprada, Kesha não é mais uma mulher, é lucro. E acabar com o contrato seria o equivalente a não ter mais produto, e, portanto, não ter mais lucro em cima dela. O homem primata da música dos Titãs falou mais alto.

Escuta “Homem Primata” aí:

 

Por pressão da Sony, o contrato não foi encerrado – por alegações de provas e depoimentos imprecisos – e uma Kesha às lágrimas na corte comoveu todo mundo, menos o homem primata do show biz.

Mais do que a dignidade de uma pessoa sendo deixada de lado, também se está ignorando uma vítima de estupro. Mais especificamente, uma mulher. Chris Brown bateu na Rihanna há uns anos atrás e continua no mundo da música, fazendo sucesso. Ele é homem e o agressor. Mas Kesha é mulher e mesmo sendo vítima de um ato tão hediondo e prejudicial em todos os aspectos possíveis, ela é, aos olhos do mundo da música, um produto, um objeto de lucro.

Ainda mais que uma fonte de lucro, ela é uma mulher hiper-sexualizada que fala sobre ficar bêbada todos os dias e pegar vários caras, indiferente de quem sejam. Pouca gente sabe que suas músicas ficaram assim depois do contrato com a Sony. De novo, é aquela mesma história sobre ela ter virado um produto. O que vende é a hiper-sexualização , não importa se é ou for na música, nos quadrinhos ou em qualquer parâmetro da cultura pop.

Kesha em clipe. Foto: Reprodução.

Kesha em clipe. Foto: Reprodução.

Não se vê mais uma Kesha que pode continuar a fazer música livremente como e do jeito que quer, mas uma máquina de dinheiro ambulante. #FreeKesha está mobilizando todo mundo e até a Taylor Swift já doou US$250,000 à cantora. Mostrar apoio à Kesha é importante, principalmente nessa hora, mas é difícil mudar a mentalidade capitalista que visa nada mais a não ser o lucro do homem primata.

Kesha após pedido de anulação do contrato com a Sony ser negado. Foto: Reprodução.

Kesha após pedido de anulação do contrato com a Sony ser negado. Foto: Reprodução.

Se não está fácil para a Kesha, cantora internacional, imagina para a mulher comum. Diariamente, mulheres sofrem de abusos psicológicos e sexuais. Se ela, figura pública que tem relevância no mundo da música perdeu o processo, a chance que a mulher comum tem contra o homem primata – seja no show biz ou não – é pequena. A gente precisa fazer barulho.

%d blogueiros gostam disto: