O dia ontem foi louco, heimFoi o dia de glória para o mundo nerd desavisado. O evento misterioso da Marvel jogou no colo da fangirl e do fanboy desavisado nada menos que NOVE filmes. Sim! Ainda nem nos recuperamos do levante de filmes que a DC/Warner anunciaram na semana passada e já estamos regorgizando na ressaca da avalanche Marvel. 

Eu posso ser chamada de chata por isso, mas neste momento de orgasmo nerd também é importante pararmos para analisar e refletir sobre o perfil dos filmes anunciados – e dos que vieram antes deles também.

O primeiro Blade foi lançado em 1998 e, de certa maneira, permitiu à Marvel começar a considerar se jogar no cinema de verdade. Foi ele que abriu as portas para os primeiros filmes do Homem-Aranha e dos X-Men. Protagonista negro e sucesso foram cartas que aconteceram na década de 90. O último Blade é de 2004 e nós vamos ver outro protagonista negro só em 2016, com Quarteto Fantástico. E em um filme solo só em 2017, treze anos depois de Blade: Trinity.

Para nós, mulheres, é momento de vitória. Semana passada tivemos a confirmação do filme da Mulher Maravilha, ontem recebemos a notícia linda de que Captain Marvel vai ser protagonizado por Carol Denvers. Finalmente recebemos os filmes de super-herói com protagonistas femininas que tanto sonhamos e merecemos. É lindo, é mágico e 2017 não vai chegar rápido o suficiente. Mas estamos em 2014 e o primeiro filme protagonizado por uma mulher vai sair só daqui três anos.

x-1

Os primeiros filmes de super-heróis baseados em quadrinhos começaram a sair no começo dos anos 2000, final dos anos 90. Levando em consideração que o sucesso das adaptações realmente começou a disparar com o lançamento de X-Men, em 2000, foram catorze anos de filmes quase exclusivamente protagonizados por homens brancos para que filmes protagonizados por mulheres e por etnias não-caucasianas começassem a ser anunciados.

Não é que eu não esteja achando o máximo esses filmes, eu tô vibrando e passei o dia inquieta depois do anuncio. No entanto, tivessem sido anunciados dois, três anos atrás talvez eu não estivesse levantando essa reflexão. Dois anos atrás nós estávamos assistindo Vingadores (2012) no cinema, depois de termos passado por dois Homens de Ferro e um Thor. Esse teria sido o momento ideal para anunciar filmes protagonizados por mulheres e personagens não-caucasianos. Se tivesse acontecido antes, seria mais lindo ainda. Mas em 2012 a Marvel já tinha dado início ao seu caminho triunfal no estabelecimento do universo cinematográfico e, um ano depois estreou Agents of Shield, com Ming-Na como a única personagem não-branca do elenco.

black panther

Qual incrível é esse uniforme? *_*

Eu entendo que uma empresa tem receio em sair do “padrão” de sucesso que homens brancos heterossexuais são – a garantia de rentabilidade é importante quando você está tentando criar um universo como a Marvel estava fazendo. Talvez até aquele momento o anuncio de Capitã Marvel e Pantera Negra tivesse sido recebidos como ato de “coragem” e “visão”. A verdade é que mesmo hoje a notícia talvez também seja recebida assim – mas não é coragem e não é ser visionária, é atender uma demanda e largar mão de ser racista e sexista.

A DC tem uma história diferente. A grande maioria dos filmes feitos até então eram versões do Batman e do Superman – o que em si só já mostra o medo da editora em apostar em outros personagens. Tivemos The Flash no começo dos anos 90 e a série da Mulher-Maravilha na década de 70 . E só.

O anuncio do levante de filmes no último dia 15 era algo aguardado, mas a editora vêm dando passos mais desavisados e, me parece, descontrolados. A idéia de um filme da Liga da Justiça e do estabelecimento de um universo cinematográfico próprio é mais recente, e começou a ser levada a sério mesmo quando do lançamento do polêmico Homem de Aço (2013). Para muitos, inclusive para mim, parece que a DC está tentando formular o universo sem ter pensado nisso com muita antecedência, quase uma reação ao sucesso da Marvel no cinema. Nos dias de hoje teria sido loucura anunciar nove filmes sem que pelo menos um deles fosse da Mulher Maravilha e de um personagem negro.

Vale dar algum crédito a mais para a DC, já que o Ciborgue, por mais legal que ele seja, não tem a fama que os demais personagens da editora. Houve uma preocupação em tender a demanda, mesmo que tenha sido apenas por motivos de marketing. Ao meu ver, faria muito mais sentido lançar o Lanterna Verde com John Stewart como protagonista do que um filme do Ciborgue (ou que tal os dois?). Vale lembrar também que eles trocaram os cabelos loiros e nórdicos do Aquaman pelos traços nativo-americanos de Jason Mammoa – e eu falei em outro post sobre porque essas mudanças de etnia são legais e muito bem vindas.

captain marvel

A questão aqui é por que se levou tanto tempo para anunciar esses filmes? Foram necessários catorze anos para que realmente começasse a se escutar os apelos do público e a enxergar a sociedade com a pluralidade que ela tem – mas ainda não é o suficiente. Para os próximos seis anos temos 28 filmes de super-heróis marcados. Três deles serão protagonizados por mulheres (Mulher Maravilha, Capitã Marvel e um da parceira Sony/Marvel que ainda não foi anunciado quem é a personagem) e dois por homens negros, o que deixa um total de 23 filmes para equipes e protagonistas masculinos.

Eu gosto de ser positiva e acreditar que os filmes de equipe vão se preocupar em deixar de lado a mania de ter apenas uma mulher na equipe (Os Vingadores já aponta para isso, com Feiticeira Escarlate e talvez Capitã Marvel se juntando nos próximos filmes). Há também múltiplos personagens femininos e não-caucasianos que podem ser incluídos nos filmes de equipe, e as etnias podem ser invertidas. Mas mesmo assim falta, ao meu ver, coragem das produtoras de realmente tomar a dianteira e se mostrar aberta para as mudanças que a sociedade vêm exigindo.

Falei bastante sobre a falta de personagens femininos e não-caucasianos como protagonistas, mas um abismo muito maior se estabelece quando pensamos na representação LGBT. Eu sei que pra muita gente parece desnecessário, já que somos todos ou homens ou mulheres (há divergências nesse quesito, aliás), mas representação é o que faz todos nós nos sentirmos parte da sociedade, especialmente nma sociedade homofóbica, misógina, transfóbica e sexista como a nossa. Sei que a barreira LGBT ainda vai ser difícil de quebrar, mas o primeiro passo foi dado com a contratação de Ezra Miller como o novo Flash. Agora é aguardar, observar e exigir qual será o próximo passo.

Novamente, estou animadíssima com os novos filmes e a diversidade que vai aos poucos conseguindo se jogar no meio, e acho animal que as editoras e os estúdios finalmente tenham tido coragem de jogar esses filmes na roda – mas é importante também lembrar que ainda não é o suficiente, e que a gente quer e precisa de mais diversidade. Agora é sentar e esperar 2017 com o balde de pipoca e o laço da verdade na mão – talvez pra esse filme eu abra uma exceção e vá de cosplay para o pré-lançamento. 😉

Acho que a DC devia esquecer a Liga da Justiça e apostar num filme dos Superamigos.

Acho que a DC devia esquecer a Liga da Justiça e apostar num filme dos Superamigos.

 

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