No começo do ano foi anunciada uma antologia que iria reunir o melhor dos quadrinhos brasileiros de 2015. Cada quadrinista interessado em fazer parte da seleção deveria se inscrever e enviar o material para a organização. Muitas pessoas se inscreveram. Muitas mulheres se inscreveram. Ainda assim, em um ano como 2015, onde a participação feminina na cultura pop (indie ou não) ganhou um novo gás e veio com tudo exigindo espaço e discussão, ainda assim, a antologia O Fabuloso Quadrinho Brasileiro 2015 conseguiu encontrar apenas quatro mulheres quadrinistas brasileiras que tenham produzido algo tão bom quanto todos os outros trinta homens selecionados.

Quatro mulheres. Quatro.

Este ano foi um dos anos em que a produção de quadrinhos feitos por mulheres atingiu um alcance de público como nunca antes, com mulheres como Laura Athayde, Brenda Costa, Fefê Torquato, Rebeca Prado, Lila Cruz, LoveLove6, Bianca Pinheiro, dentre tantas outras, ganharam destaque. O Catarse foi inundado por projetos de quadrinistas mulheres. Elas estiveram no centro de diversos debates e polêmicas exatamente sobre o espaço da mulher quadrinista no cenário brasileiro. Elas foram silenciadas e continuaram a levantar suas vozes. Elas marcaram presença e ainda assim elas parecem ser invisíveis.

Esse não é o caso em que o organizador de uma antologia simplesmente não se interessou o suficiente para ir atrás de mulheres quadrinistas – elas foram até ele. Elas se inscreveram e, uma após a outra, elas receberam negativas.

Esse não é o caso de desvalidar a qualidade das obras selecionadas, é o caso de que, de todos os inscritos na seleção, julgou-se apenas QUATRO mulheres tão boas quanto os outros TRINTA homens. Não. Isso simplesmente não é possível, nós temos hoje uma produção feminina grande e forte, com mulheres se autoproduzindo e auto-publicando. Criando editoras. Vendendo seu trabalho online, firmando parcerias, sendo publicadas por editoras.

Esse não é o caso em que dizer que “é a opinião do editor” funciona, porque 2015 não é 2013, quando as mesmas discussões talvez não tivessem tanto espaço. Quando as mulheres quadrinistas talvez ainda não tivessem a mesma força e organização que elas têm hoje. Quando elas talvez não se sentissem seguras o suficiente para bater de frente contra o clube do bolinha que permeia o mundo dos quadrinhos (tanto o indie quanto o mainstream).

A antologia foi organizada por Rafael Coutinho e Clarice Reichstul, que chamaram Érico Assis como o editor convidado da primeira edição. Foram 259 inscritos e mais alguns selecionados pela editoria. Pensar que essa lista passou pela mão de três pessoas diferentes, e que em nenhum momento algum deles se atentou para a ridícula desproporção entre homens e mulheres talvez seja ingenuidade demais. Se eu fizer um recorte de etnia essa seleção vai, provavelmente, passar ainda mais vergonha. Olhar essa lista e não notar que ela está exageradamente masculina é viver numa realidade paralela à nossa. Principalmente levando em consideração toda a discussão que se seguiu neste ano no quesito representação feminina nos quadrinhos nacionais.

A ironia? Um dos quadrinhos selecionados é “A sub-representação feminina no imaginário dos autores”, da LoveLove6.

[Atualização]

A Equipe da coletânea soltou um pedido de desculpas através da página de facebook da publicação. Eu considerei um pedido bem feito, admitindo o erro e a falta de iniciativa em tornar o ambiente mais iqualitário. Continuo sustentando que a simples “opinião do editor” não é um justificativa boa o suficiente para justificar 4 mulheres dentre 37 autores, mas os editores da coletânea parecem também concordar com isso.

“Aos leitores e leitoras, artistas que inscreveram trabalhos e/ou foram convidados a participar da antologia:

Criamos “O Fabuloso Quadrinho de 2015” com o intuito de celebrar e agrupar em um só livro o que de melhor foi feito entre os meses de junho de 2014 e julho de 2015 no Brasil. Para isso nos baseamos no formato de outras antologias da mesma natureza, onde um editor convidado seria o responsável, apoiado e conduzido por nós da editora, para escolher entre um vasto número de inscritos o que aos olhos dele saltavam como obras de maior destaque.

Depois de muito debate e esgotamento do tempo e recursos para a primeira fase do projeto, era hora de fecharmos a lista. Em um último entre e sai de nomes e obras, ficamos com 37 autores e muito mais obras. O projeto era capaz de contar com algo próximo a 300 páginas por conta da realidade financeira da editora e do alto custo do livro, e algumas últimas histórias tiveram que ser cortadas para que esse número fosse mantido.

Dentre o processo inteiro, fomos levianos. Foram poucas mulheres inscritas – 51 dentre 259 artistas (entre obras individuais e coletivas), e ao longo das peneiras, cortes e opções por histórias, os nomes foram caindo e não tratamos com o devido peso os efeitos dessa exclusão. Por questões legais, tivemos que cortar dois nomes fortes de mulheres que admiramos muito, Laura Lannes e Cynthia B, bem como todo projeto “Capitão América e Seus Amigos”, onde ambas haviam publicado as obras em questão. Havia outras que estiveram nas listas finais como Bianca Pinheiro, Mariana Waeschter e Baby C, e são mencionadas ao fim do livro em uma lista de Notáveis, obras que não foram impressas no livro mas que gostamos muito. Sabemos que todas essas informações não justificam o baixo número, mas acreditamos que são informações que deviam ser passadas pra frente aqui.

Ao fim constatamos que a lista final continha apenas 10% de mulheres. Principalmente em um momento onde o quadrinho feminino anda tão forte e evidente, e tão organizado. Mas estávamos num ponto onde o caminho não tinha volta e decidimos ir em frente, tanto por motivos de cronograma como financeiros. E principalmente acreditamos que o conteúdo aqui apresentado representa um bom momento no quadrinho brasileiro a ser evidenciado. Dito isso, bancamos a escolha dos artistas nessa lista seguindo os preceitos éticos do que acreditamos ser a força primordial e inconteste desse projeto:

1- A inscrição era aberta a todos que quisessem enviar.

2- Os projetos precisavam ter sido produzidos entre o período estipulado.

3- O critério final era o gosto e a crítica do editor convidado, e assim será nas outras edições futuras.

4- O critério do editor foi pautado em maturidade de trabalho, gosto e interesses pessoais.

Grande parte dos nome de autoras femininas que gostaríamos de convidar não tinham concluído suas obras no período em questão. Outras tantas de excelente qualidade e trabalhos pungentes não enviaram seus trabalhos, e nesse momento enxergamos sim nossa incapacidade em lembrar e ir atrás de todos os autores que queríamos que entrassem. Por fim, outras poucas, que outrora fizeram trabalhos de força, não tinham publicado algo a altura do que haviam em anos passados. Esse é um critério absolutamente pessoal e impossível de ser discutido, e pesa muito nas costas do editor convidado, assim como pesará em outras edições.

Sim, pisamos na bola. Ainda mais levando em consideração o momento que a produção feminina passa no país. Acreditamos que variando o perfil dos editores convidados (e já tinhamos definido em convidar uma mulher para a segunda edição) podemos garantir que a longo prazo um balanço mais calibrado. É primordial salientar que essa antologia é a primeira de uma série, que naturalmente vai se transformar ao longo dos anos. Para além da consciência de que somos falhos e ainda reproduziremos outros muitos preconceitos de nossa época – reflexo de nossas limitações – entendemos que esse projeto se faz da conversa, do debate e do aprendizado nos erros que cometemos.

Gostaríamos também de deixar claro nosso absoluto orgulho de ter contado com o Érico nessa primeira edição, que além de um olhar muito refinado e atualizado com toda produção nacional, é uma figura muito bem quista e admirada por homens e mulheres no meio, e foi muito corajoso em se entregar em um processo delicado e arriscado como esse. O número enxuto em representatividade de autoras mulheres nessa antologia é resultado de um vasto combinado de forças e da nossa reconhecida desatenção ao fato, e por isso pedimos desculpas às mulheres do meio que não entraram e aos leitores que acompanham de perto o sensível crescimento da produção autoral feminina.

Rafael Coutinho e Clarice Reichstul”

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