A Mulher Comestível é um dos livros mais conhecidos de Margaret Atwood, escritora canadense, publicado em 1969. Eu o li ano passado nessa mesma época pós-férias, e esse ano, mesmo com mil livros me esperando na estante com olhinhos tristes, eu tive que lê-lo de novo. E cara, não consigo lidar com a genialidade de Margaret Atwood. Que pessoa mágica.

O plot central da história é o mais simples possível, quase como o início de A Metamorfose, de Kafka: um dia, Marian percebe que não consegue mais comer. Não porque lhe falte comida ou fome, mas porque progressivamente o ato de comer se torna algo do qual ela é fisicamente incapaz.

Marian é uma jovem recém-formada na universidade que trabalha em um centro de pesquisa de marketing e leva uma vida absolutamente comum. Ela divide um apartamento com Ainsley, uma colega de trabalho, e tem um relacionamento relativamente estável com Peter — estes dois sendo suas relações mais próximas. O mundo que ela habita é herdado, esperado e já bem definido; nele, Marian é um “agente”, no sentido bourdieusiano, onde o indivíduo não decide de suas ações, mas é “regido” por estruturas sociais já determinadas. Porém, esse mundo conhecido e estável — faculdade, trabalho, relações desinteressadas — começa a erodir pouco a pouco, feito a casca de um ovo.

Três elementos principais contribuem para a destruição desse mundo: o primeiro é o encontro com Duncan, um jovem doutorando que mora com dois colegas e que se recusa a conformar-se com qualquer tipo de papel social, fazendo com que Marian comece a questionar suas vida e suas escolhas. O segundo é Clara, antiga colega de faculdade de Marian, casada e com  duas crianças — grávida da terceira —, absolutamente entediada com sua vida de dona de casa. O ambiente sufocante onde vive Clara faz com que Marian se pergunte sobre a forma que ela quer dar a seu futuro.

O terceiro, e mais importante, é Peter, que após anunciar-se como tendo horror ao casamento — chegando a ter crises de humor a cada vez que um de seus colegas de casa —, decide pedir Marian en casamento. Ela aceita, sem muito entusiasmo, como se não houvesse nenhuma decisão a ser feita e casar-se com Peter (ou casar-se, não importa com quem) fosse apenas o passo seguinte. É a partir daí que a estrutura narrativa muda — o livro, até agora em primeira pessoa, passa à terceira pessoa à medida que Marian “entrega” o controle de sua vida a Peter — e é também a partir daí que ela progressivamente deixa de comer.

muito entusiasmo

muito entusiasmo

O que eu acho muito interessante em Marian é a forma que existe uma espécie de separação intrínseca entre ela e seu corpo, ou entre ela e seus impulsos. A presença de sua amiga Ainsley, ex-estudante de psicologia, dá a Atwood a oportunidade de inserir na narrativa conceitos e conflitos típicos às teorias freudianas sobre a constituição do self. Marian, no caso, vive o conflito constante entre seu Superego, que tenta por todo modo conformá-la às expectativas sociais e comportamentais da época, e seu Id, suas pulsões mais íntimas, que constantemente tentam livrá-la desse conformismo.

Porque Marian não consegue articular de forma racional, através de ações maduras, a rejeição que ela sente em relação a Peter e à vida que ela leva em geral, essa rejeição aparece sob a forma de ações “irracionais”, que nem ela mesma consegue entender.  Assim, durante um jantar com Peter, Ainsley e seu antigo amigo da faculdade, Len, Marian tem uma crise de choro e em seguida, ao sair do restaurante, larga a mão de Peter e sai correndo. Quando ele finalmente consegue alcançá-la, ela não consegue explicar o motivo de suas ações.

É também por essa incapacidade de expressar-se que Marian se torna incapaz de comer. O narrador explica que Marian começa a identificar-se com certos tipos de comida, vendo neles algo de vivo, algo de Marian, sentindo-se ela mesma como algo prestes a ser devorado. Em pouco tempo, conforme o casamento se aproxima, essa sensação se estende a quase todos os tipos de comida.

Impossível não pensar em termos de objetificação feminina. Quando Marian se torna uma noiva, cujo futuro muito provavelmente envolve a dedicação total dela à casa, ao marido e aos possíveis filhos, Marian deixa de ser o sujeito que come para tornar-se objeto consumível. Ela perde de vista sua individualidade e sua capacidade de ação. Durante a primeira e a segunda partes do livro, Marian luta contra essa revolta interior, fazendo o possível para resignar-se, mas é apenas quando ela admite para si mesma essa revolta que ela pode voltar ao normal. Assim, Marian dorme com Duncan, assinalando definitivamente sua ruptura emocional com Peter, desmancha o noivado e, na terceira parte do livro, retoma a narrativa em primeira pessoa.

O último esforço de Marian se faz quando ela faz um bolo em forma de mulher, enfeitando-a chantilly colorido e flocos de açúcar — e depois o come. O ato de comer essa representação de si mesma mostra claramente uma reintegração de Marian com Marian, de Marian com suas próprias aspirações, livre da pressão social.

Apesar de Atwood não considerar o livro como uma obra propriamente feminista (mas protofeminista, segundo ela), é preciso reconhecer a temática feminista inscrita no livro. A luta de Marian, que fique claro, não é exatamente contra o casamento enquanto instituição, mas contra sua própria disposição a viver uma vida que ela não deseja viver — contra os resquícios de uma mentalidade antiga que ditava às mulheres não mais do que o casamento e a família. A Mulher Comestível foi escrito em uma época de transição, o fim dos anos 1960, e é essa mesma transição que se reflete na vida interior de Marian. Super recomendo!

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