[Alerta de Spoilers]

Esquadrão Suicida chega ao cinema essa semana com a promessa de entregar um filme mais colorido e mais divertido que os últimos filmes da DC Comics. O filme realmente é mais colorido e tem mais piadas do que todos os outros, mas talvez na tentativa de consertar os erros de Batman v Superman, a DC/Warner parecem ter ajudado a transformar o filme numa grande bagunça.

Ninguém gosta quando se levanta comparações entre Marvel e DC, e antes de continuar eu gostaria de lembrá-las que eu também não gosto de alguns filmes da Marvel, mas como essas são as duas principais franquias de filmes de super-heróis as comparações são inevitáveis. O que eu quero levantar aqui, no entanto, não tem a ver com o tom dos filmes, nem personagens e nem mesmo a qualidade técnica de cada filme, mas sim com o modo como cada empresa escolhe quem vai segurar o título de diretor para seus filmes.

Quando a Marvel anunciou Joss Whedon como diretor de Vingadores, o nome dele gerou um certo burburinho porque ele não era conhecido como diretor de cinema, mas sim de televisão. O que não se questionou, no entanto, era a sua capacidade de lidar com diversos personagens em tela. Buffy – A Caça Vampiros, Firefly e DollHouse já havia dado à Whedon a experiência tanto de direção quanto de roteiro para equilibrar os Vingadores numa história consistente e que desse aos personagens o espaço necessário para se desenvolverem. Mesmo aqueles personagens que apareceriam pela primeira vez no filme, tiveram pelo menos um “momento de personagem” para que o público pudesse criar empatia por ele, além de tornar ainda mais forte o momento em que os Vingadores realmente se tornaram Os Vingadores.

Digo tudo isso porque a escolha de Ayer para dirigir o primeiro filme de equipe da DC me pareceu um tanto estranha desde o começo. Eu acho que o universo da DC nos cinemas está sendo construído de maneira desorganizada e numa tentativa de alcançar a Marvel – algo completamente desnecessário, já que todos nós pagaríamos para assistir todas as fases da DC da mesma maneira que pagamos, e continuaremos fazendo, da Marvel. Essa necessidade de correr atrás da rival acabou, na minha opinião, gerando um universo cinemática confuso e feito de retalhos. Pelo menos até agora, e com Esquadrão Suicida isso ficou mais forte, essa é a sensação que eu tenho.

Ayer é um diretor que tem no histórico como diretor e roteirista uma série de filmes com temática policial e militarista uma escolha só aí estranha, já que Esquadrão Suicida possui vilões e anti-heróis como protagonistas, que em teoria deveriam quebrar a moral na qual a polícia e o exército representam. Talvez por isso o filme gaste um tempo importante tentando mostrar que esses vilões possuem um “lado humano”, que acaba repetidamente caindo no clichê que muitas vezes chega até o brega. Em um determinado momento, enquanto eles caminham em direção ao perigo final, Deadshot vê numa vitrine um manequim infantil com um casaco similar ao que vimos a filha dele usar no começo do filme. Em um universo onde esses vilões são os piores que existem, a quantidade de tempo que o filme perde estabelecendo que apesar de tudo Deadshot ama a filha é excessivo e ajuda para aumentar a sensação de retalhos.

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Um dos meus maiores problemas com Batman v Superman foi o roteiro cheio de buracos e o esforço imenso que você precisa fazer para tirar uma história que faz sentido. Esquadrão Suicida consegue pelo menos estabelecer uma história que pode ser resumida de maneira simples: Amanda Waller reune um grupo de vilões para usar contra potenciais ameaças alienígenas/meta-humanas, mas acaba precisando deles para parar a ameaça que ela mesma liberou. Infelizmente a simplicidade com que a gente consegue resumir a história não quer dizer que o filme é eficaz em construí-la de maneira orgânica e unificada.

É essa sensação de colcha de retalhos que atrapalha mais o filme. Como Batman v Superman, Esquadrão Suicida prefere mostrar cenas, diálogos e imagens “cool” do que de fato se preocupar em contar uma história interessante. Os diálogos por vezes beiram o ridículo e o falso, são muitas as frases de efeito que, tivessem acontecido em menor quantidade, talvez não deixassem a sensação de excessivo. Enquadramentos pensados apenas para “o bonito”, em cenas construídas apenas pelo pseudo-humor e que em nada ajudam a avançar a história também se juntam aos retalhos.

As cenas de ação são muitas, mas mal filmadas, com músicas que diversas vezes parece mais atrapalhar do que realmente ajudar o espectador a entrar no clima do filme. Novamente o filme tenta criar cenas e enquadramentos “cool” e esquece de estabelecer uma narrativa coerente também para as cenas de ação. Acho que o grande problema de Esquadrão Suicida é que ele se esquece que está contando uma história, não fazendo um apunhado de “momentos mais legais” do filme. A sensação que eu senti durante todo o filme foi de tédio, de excesso de informação e de que ele poderia ter sido um filme muito bom se estivesse nas mãos de outro diretor ou roteirista.

SUICIDE SQUAD

Aos personagens de Esquadrão Suicida pouco se dá espaço para que eles se mostrem além do quadrado no qual o filme os joga desde o começo. Will Smith e Viola Davis, que dão vida à Deadshot e Amanda Waller, são os que mais conseguem tirar do pouco que lhes é dado. Escolher Smith para um filme que mistura ação e comédia é deixá-lo confortável, dentro de seu espaço natural de atuação e talvez onde ele mais consiga brilhar como ator. Deadshot em si é um dos personagens dos quais mais conhecemos o passado, mas isso não quer dizer que exista uma evolução coerente dele ao longo do filme. Desde o começo o filme nos mostra que tudo que ele quer é estar com a filha, mas quando Waller lhe dá a chance de ficar com ela, livre de todos os crimes, caso ele mate Harley ele decide não o fazer. Não há nenhum laço de amizade ou companheirismo ou de honra entre ladrões forjado entre Harley e Deadshot, mas o roteiro escolhe por esse caminho. Ao final, quando Magia está mostrando o maior desejo de DEadshot, o que vemos não é ele com a filha, mas ele matando o Batman. Falta coerência na construção de Deadshot, assim como falta coerência na construção de quase todos os personagens.

Waller é talvez a única personagem a quem a falta de desenvolvimento não afeta, já que mesmo nos quadrinhos ela é essa mulher forte, uma muralha que vai fazer tudo que for preciso para conseguir aquilo que ela quer. Viola consegue passar toda a frieza da personagem tanto enquanto ela apresenta o time durante um jantar, quanto quando ela assassina friamente todas as pessoas com quem trabalhava. Ela trabalha por um objetivo, e ela vai realizá-lo custe o que custar. O problema em Amanda Waller não vem da personagem em si, muito menos de Davis, mas do roteiro e da maneira como o roteiro constrói a sua participação na história central do filme. Amanda consegue controlar a Magia por que ela possui o coração mumificado da meta-humana (algo como o coração de Davi Jones em Piratas do Caribe), que ela carrega para cima e para baixo dentro de uma caixa. Quando a Magia consegue escapar enquanto Jane dorme, ela vai até o que parece ser a casa de Waller, mas não conseguindo roubar o coração, pega a estátua onde seu irmão está preso. Isso acontece única e exclusivamente porque o filme precisa que aconteça, é um trabalho preguiçoso de roteiro, que está constantemente esperando que o espectador faça conexões que o filme não mostra ou se quer indica, que faz com que Amanda Waller guarde relíquias mágicas da Argus dentro da sua casa. Sendo um artefato mágico, faria muito mais sentido que esses objetos estivessem dentro de um lugar protegido, onde a Magia não pudesse entrar e que só fossem retirados quando necessário. Mas não, o filme nem se preocupa em mostrar que Waller possa ter se dado conta que foi roubada, muito pelo contrário, ou o filme espera que o público assuma que em determinado momento a chefe da Argus pensou “vish, fui roubada”, ou simplesmente a tornou muito mais incompetente do que o necessário.

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A Magia em si é um dos grandes problemas do filme, que em momento nenhum se preocupa em estabelecer quais são os seus poderes, nem mesmo a fonte de todo esse poder.  Nem mesmo a motivação dela fica clara, já que o máximo que se fala sobre isso é que ela parece estar chateada porque os humanos agora veneram máquinas, e não ela e seu irmão. Além desse ser talvez o tema mais velho do mundo, é jogado de maneira tão despreocupada que não funciona de verdade. Ela é onipotente e onipresente, apresentando poderes que funcionam de acordo com o que o filme precisa, deixando novamente a sensação de bagunça e incoerência. Ela possui o poder de colocar pensamentos na cabeça das pessoas, de viajar rapidamente de um lugar para o outro, ela sabe lutar, ela manipula um tipo de energia que vai destruir o mundo… Ela transforma pessoas normais em guerreiros com um beijo… Ahrg, sim. Essa mulher super-poderosa do poder fodão precisa beijar as pessoas para transformá-los em seus guerreiros. Em contrapartida, seu irmão só precisa encostar seus tentáculos para que os humanos se tornem parte do seu corpo físico. Além disso tudo a Magia usa um mix de biquini com saia longa de fenda, com a maior parte de sua pele exposta, enquanto seu irmão se torna esse ser gigante de energia. Eu disse que ela usando a sua magia é uma das coisas mais engraçadas do filme? Aqui vai um exemplo muito similar da Magia manipulando a sua energia.

Além da Magia e de Amanda Waller nós temos outras duas personagens femininas: Katana e Harley Quiin. Katana, a menos hiper-sexualizada das três, apesar de eu ainda não entender porque uma samurai optaria por usar um top de barriga de fora par entrar em batalha, passa a maior parte do filme falando japonês, com Flag traduzindo o que ela fala… Até que ela fala em inglês. Mais uma daqueles elementos em que eu quase posso escutar Ayer dizendo “a Katana vai falar japonês, porque aí vai ser cool”. Seria mais interessante se isso se tivesse mantido até o final, mas não. A última vez que a escutamos falar em japonês é antes da grande batalha, em que ela está encolhida num canto chorando copiosamente enquanto conversa com o espírito de seu marido, que está preso dentro da sua espada. Olha, a Katana acredita que o marido está preso dentro da espada, é normal que ela fale com ele, que ela até chore uma lágrima enquanto fala que talvez esteja prestes à encontrá-lo, mas ela não chora sentada num cantinho. Não daquela maneira. É desconcertante e na verdade bem injusto com a personagem, obviamente a visão masculina de como uma mulher apaixonada e meio desesperada, não faz o menor sentido com o que o filme apresentou da Katana até alí.

Harley. Oh, Harley. Tanto se especulou, tanto se criou esperança, tanto se falou sobre a personagem apenas para o filme perder todas as chances de criar uma personagem interessante que seria um reflexo mais atual da Arlequina que nós conhecemos nos quadrinhos. Ao invés disso, o filme optou por uma versão infantilizada, hiper-sexualizada e, honestamente, boba da personagem. A Harley de Suicide Squad tem uma história de origem que mistura tanto “Mad Love” quanto a sua origem dos Novos 52. Aqui Harley se apaixona pelo Coringa e parece ajudar em sua fuga. Depois de solto, Coringa usa choque elétrico em seu cérebro e só depois disso ela se joga dentro do caldeirão de ácido. Tivesse o filme não mostrado a cena em que o Coringa usa o eletrochoque contra a Dr. Quinn, ele teria conseguido uma origem da personalidade que lhe dá o controle sobre sua própria transformação em Harley Quinn, mas não. Ao vitimá-la antes desse momento, o filme diz que Harley só é tão alucinada como é por causa do Coringa, ela acaba se tornando vítima ao invés de ser apenas mais uma vilã. Tira da personagem a ação sobre seu próprio destino, fortalecendo ainda mais a sensação de que a personagem está num relacionamento para lá de abusivo com o Coringa, mas o filme não se importa com isso, porque o Coringa ama a Harley.

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Eu torcia para que as fotos do set em que Harley aparecia tirando a coleira e o casaco quisessem dizer que de alguma maneira ela estava se libertando do Coringa, sendo uma vilã autônoma, uma mulher indo além de um relacionamento abusivo. Essa Harley é a representação que temos dela hoje nos quadrinhos, uma representação que em muito se encaixa para o momento no qual a nossa sociedade está, uma representação que ajuda a discutir relacionamentos abusivos, que ajuda mulheres que adoram a personagem a se libertarem de relacionamentos tóxicos. Infelizmente o filme optou por mostrar uma Harley com uma abordagem ultrapassada e machista. A câmera hiper-sexualiza a personagem o tempo todo, mesmo nas cenas de luta. Num dos momentos que já apareciam nos trailers, Harley luta dentro do elevador contra um dos soldados da Magia. A câmera desliza pelo seu corpo enquanto ela tenta se livrar do monstro que a segura por trás, o movimento é tão nojento que a sensação que fica é que ela está tentando se livrar de uma encoxada. Mas ela não para por aí.

Em um dos momentos mais desconcertantes do filme, perto do final, Harley luta contra a Magia, que lhe acerta um golpe. Nós vemos o golpe através do gap entre as coxas da Harley. Não é um asa-shot, não é um enquadramento das pernas abertas da Harley. O que é usado para enquadrar a ação é o espaço entre as coxas e, bom, a vagina da personagem. É um quadro muito rápido, mas extremamente sintomático dessa necessidade de hiper-sexualizar a personagem em todo e qualquer momento.

Esquadrão Suicida tenta se vender como algo “edgy” e diferente, um filme sombrio e engraçado, uma nova maneira de olhar e criar filmes de super-heróis, mas tudo que consegue fazer é ser ainda mais conservador do que Batman v Superman. No filme de Snyder, por mais incrível que pareça, há pouca hiper-sexualização das personagens femininas, com até algum espaço para o emale-gaze, mas em Esquadrão o único olhar é o masculino. E poucas coisas são mais conservadoras hoje em dia do que insistir num olhar que nada mais é do um padrão ultrapassado de representação.

Um dos poucos pontos positivos no filme é ser o primeiro filme de super-heróis com um elenco tão diverso. Apesar das mulheres ainda serem a imensa maioria, nós temos personagens japoneses, negros e latinos que, apesar de existirem dentro de seus próprios estereótipos, deixa o filme com um gosto mais palatável caso fosse ele inteiro formado por um time de homens brancos. A morte rápida de Slipknot (Adam West, ator nativo-americano) poderia ter sido substituída por Capitão Boomerang que é completamente subutilizado e um dos personagens cuja motivação é menos explicada durante todo o filme. Infelizmente Esquadrão Suicida é um exemplo de como junto com um elenco diverso é preciso também trazer uma narrativa e uma direção que não seja tão presa ao olhar masculino e branco.

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A presença de El Diablo é bem interessante, mas o modo como o filme revela que ele é, na verdade, um ser semelhante à Magia e seu irmão, beira o ridículo. Além de ser uma informação que não foi estabelecida anteriormente, escutá-lo falar que ele não queria perder a sua segunda família me fez rir, já que o filme pouco faz para estabelecer o Esquadrão sequer como um time, quem dirá uma família. A cena do bar, que já aparecia nos créditos, é talvez o único momento do filme em que todos os participantes do Esquadrão estão juntos num mesmo ambiente e conversam além de frases de efeito, mas mesmo assim a sensação que fica não é de que agora eles são uma família, apensa que sei lá, tá dando merda lá fora e eles tão bebendo juntos. Faltou ao filme criar oportunidades para que eles interagissem entre si, descobrissem pontos de acordo e discordância, para que pelo menos como um grupo de foras-da-lei eles criassem uma unidade. Mas se nem para isso filme para, quem dirá para estabelecê-los como uma família.

Esquadrão Suicida é um filme que acha ser muito mais do que ele é, e isso é uma pena. Uma oportunidade perdida, um filme que deveria ter sido feito apenas depois de se estabelecer melhor o universo da DC nos cinemas. Com excesso de momentos “cool”/fanservice, de frases de efeito, CGI que tentam colorir o filme e que em alguns momentos caem no brega (El Diablo escrevendo palavras no ar, com fogo, é de doer os olhos), lutas que mais parecem cenas de clipes musicais, roteiro retalhado e uma direção conservadora, a sensação que fica é que Esquadrão Suicida vai, ao longo dos anos, se tornar o Batman e Robin dessa geração de filmes de Super-heróis.

Pequenos detalhes:

  • A cena pós-créditos não acrescenta em absolutamente nada para o universo, já que as informações que a gente vê Bruce Wayne conseguir de Waller ele já tinha desde Batman v Superman.
  • A rápida aparição do Flash foi um dos melhores detalhes do filme, os efeitos da velocidade dele são muito legais e, apesar de muito rápida, me fez ficar com ainda mais vontade de assistir ao filme solo.
  • Esse filme me deixou mais preocupada com o que vai ser do filme da Mulher-Maravilha. Com sorte, o efeito Snyder não vai ser tão pesado quanto em Esquadrão.

 

Esquadrão Suicida
Apesar de poucas, as mulheres do filme não são todas brancas.
Não consegui me lembrar de nenhum momento em que duas personagens femininas centrais tenham conversado de verdade.
40%Pontuação geral
1)HÁ PELO MENOS DUAS PERSONAGENS FEMININAS?100%
2)Elas conversam entre si sobre algo que não um homem?0%
3)Ela(s) é(são) importante(s) para a trama central?100%
4)Ela(s) é(são) desnecessariamente hiper-sexualizada(s)?0%
5)Ela(s) é(são) está(ão) presa(s) aos tropos/clichês de personagens femininas?25%
6)Número de personagens femininas em relação ao número de personagens masculinos.36%
7)Há diversidade entre as personagens femininas?50%
8)Participação feminina na equipe criativa central do filme.5%
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