Há alguns dias eu postei um texto sobre estereótipos que encontramos em personagens bissexuais na cultura pop. Eu terminei concluindo que o problema não é a característica clichê em si, mas como isso pode dar uma representação ruim como um todo, já que muitas vezes é a única que vemos. Personagens que se resumem ao estereótipo não são representações tão interessantes, mas quando isso é uma característica no meio de várias, ou um personagem bissexual no meio de outros, aí a representação pode ser mais positiva.

Isso tudo aqui é o ponto de vista de uma pessoa, então seguir as minhas dicas não significa que nenhuma outra pessoa bissexual no mundo não vai criticar a representação da sua obra. Mas ler sobre o assunto, ouvir as pessoas da minoria em questão e, mais importante, se permitir ouvir críticas e dicas pode ajudar.

Eu entendo que às vezes ouvir críticas não é fácil, principalmente no ponto de vista de representação. Isso é considerado uma característica secundária das obras, então há sim muitos artistas que acham que pensar criticamente sobre isso é “censura” ou “impedir minha arte de ser livre”. Mas assim como estamos dispostos a ouvir dicas sobre narrativa, revisão de texto ou formatação, também precisamos estar dispostos a ouvir quando o assunto é representação.

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Você não precisa ser bissexual para escrever um personagem que é. J. K. Rowling não é um homem, mas o protagonista de sua história mais famosa é o menino que sobreviveu. Se as suas histórias só possuem personagens que tem algo em comum com você, a variedade será muito pequena. Parte do trabalho de escrever é tentar se colocar no lugar do outro, e quanto mais pessoas criarem personagens diversos, melhor! Você não precisa ser da minoria em questão para fazer isso.

Normalmente a primeira coisa que ajuda a fugir dos estereótipos de personagens bissexuais é ter mais de um na sua obra. Cada um deles com sua personalidade, manias e formas de agir diferentes ajuda a mostrar que a sexualidade não é algo que define as pessoas. Basta ver que, uma história que só tem personagens hétero, constrói todos eles de forma diferente um do outro, exatamente porque a sexualidade não define uma pessoa. Dessa forma, se um dos seus personagens bissexuais acabarem caindo em algum clichê, o fato de ter outro que não apresenta a tal característica melhora a representação. Isso acontece em Dragon Age, há personagens bissexuais que podem cair no clichê de certa forma, mas como existem outros, a representação se expande.

Talvez o grande problema é que, quando muitas pessoas vão construir um personagem fora do padrão cis heteronormativo, elas se focam na característica que faz com que esses personagens fujam do padrão. Uma história que mostre um personagem bissexual, que tenha que lidar com o preconceito que sofre pela sua sexualidade é muito legal, mas um personagem bissexual pode ter outros tipos de questões, assim como todas as outras pessoas, de qualquer sexualidade. Imagine só um personagem bissexual que, ao contrário de ter algum problema que envolva relacionamentos ou sexualidade, tem que enfrentar o fato de que sempre que espirra, o tempo é congelado? Normalmente, quando a sexualidade não importa, nós assumimos o padrão hétero, mas algo muito interessante para a representação na cultura pop em geral é que personagens bissexuais, ou de qualquer outra sexualidade, possam ser qualquer coisa, como acontece com os que são heterossexuais. Basta ver Max, de Life is Strange. Ela é a protagonista e a bissexualidade não é o ponto principal da personagem.

Mas de qualquer forma, independente de quantos personagens bissexuais você tenha na sua história, há alguns estereótipos que é interessante ficar de olho.

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Há algumas histórias que colocam seus personagens como pessoas indecisas, que não entendem sua sexualidade e por isso se relacionam com pessoas de vários gêneros. Isso pode ser seguido do personagem acabar escolhendo ficar com uma pessoa como “interesse romântico” e passar a ser chamada de heterossexual ou homossexual. Isso é ruim porque cria a ideia de que ser bissexual é uma fase, e não uma sexualidade válida. Que tal escrever um personagem que está seguro de ser bissexual, sem dúvidas sobre o assunto? Uma história bem feita de um personagem descobrindo a sua sexualidade, e experimentando no processo, pode ser interessante, ainda mais se no final, mesmo que esse personagem decida ficar em um relacionamento com outra pessoa, ela continue se identificando como bissexual. Para esse exemplo, é interessante ver a construção de Kelly, no episódio San Junipero de Black Mirror.

Uma das formas mais comuns de mostrar que um personagem é bissexual é falando que ele “gosta de pessoas”. Isso é uma forma de fazer o público entender, e funciona, mas acabou virando um recurso que a maioria dos criadores usam. A bissexualidade já é muito apagada, colocar essa conversa na boca de personagens pode fazer com que as pessoas falem e fiquem mais cientes dessa sexualidade. Então, se você pretende mostrar para o público a sexualidade do personagem, que tal fazer ele dizer “bissexual” com todas as letras?

Às vezes, quando existe um grupo de personagens, justo aquele que é bissexual é o que vai ter encontros com várias pessoas. Eu sei dar exemplos de alguns personagens bissexuais bem escritos que caem nesse estereótipo, mas se você pretende colocar só um personagem bissexual na sua história, poderia evitar que logo ele carregasse essa característica. O estereótipo de que pessoas bissexuais saem com “todo mundo” é muito forte na sociedade, então isso seria uma forma de mostrar um outro lado. O seu personagem pode ser a pessoa do grupo casada a mais tempo, por exemplo.

Nesse caso específico, muitas vezes o fato do personagem bissexual se relacionar com várias pessoas é colocado de uma forma negativa na narrativa. Isso porque a sociedade gosta de condenar pessoas que têm muitos parceiros ao longo da vida (geralmente mulheres). Uma coisa que eu gostaria de ver mais na cultura pop são personagens bissexuais que tenham alguns desses clichês, como por exemplo sair com várias pessoas, mas isso não é mostrado de forma negativa. É só mais uma característica, assim como a cor do cabelo ou o tom de voz. Porém, como falei acima, nem todos podem estar de acordo com a minha visão, há parte do público bissexual que se incomoda em ver mais um personagem com qualquer característica considerada clichê.

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Procure dar finais mais felizes para seus personagens bissexuais. Caso você esteja escrevendo uma história triste, onde todo mundo acaba se ferrando no final, faz mais sentido que essa não seja a sua opção, mas se alguns terão a chance de serem felizes, que tal incluir entre eles o que é bissexual? Personagens LGBT+ em geral às vezes sofrem na cultura pop por morrerem, ou terminarem seus arcos quebrados. Você pode sim fazer seus personagens sofrerem (eu inclusive sou super a favor de um drama na ficção), mas estamos cansados de ver personagens fora do padrão se dando mal. Isso pode passar a ideia de que ele está sendo punido por não ser heterossexual. Que tal um personagem bissexual que, mesmo passando por inúmeros problemas, consegue seu final feliz? Como é o caso de Korra, em Avatar.

Eu já falei isso em outro texto, mas acho bom repetir aqui: Uma pessoa bissexual, que exista de fato fora do mundo da ficção, não é errada ou tem a sexualidade invalidada por fazer qualquer uma dessas coisas. Ser confuso, indeciso ou sair com várias pessoas não são problemas, não há nada de errado com isso. A questão não é alguém ser assim, mas que a representação dessa minoria só dê escolhas específicas baseadas em estereótipos.

Escreva personagens bissexuais que são heróis, coadjuvantes, vilões, engraçados, românticos, inseguros, muito seguros, com arcos de redenção, que sobrevivem no final… O que queremos é que essa representação chegue no ponto em que esse tipo de personagem possa ser qualquer coisa, em qualquer gênero da cultura pop. Às vezes, quando o autor quer colocar um personagem bissexual na obra, ele o coloca como vilão ou algum personagem próximo deste. Inclusive a sexualidade seria parte da vilania, que pode ajudar a trazer uma imagem ruim para pessoas bissexuais, por isso é importante que esses personagens apareçam em todos os lugares, com a maior diversidade de motivações possíveis.

A maior dica que eu posso dar para fazer um personagem bissexual complexo e que não caía em estereótipos é: Escreva um bom personagem. Quando ele é bem escrito, ele até pode ter clichês, mas será mais que isso. A história de um personagem bissexual pode ser sobre sua sexualidade, mas não necessariamente, então busque outras coisas além das que você automaticamente pensa. Ouça pessoas bissexuais, leia sobre esses estereótipos e esteja disposto a entender as críticas. Escrever um personagem fora da sua zona de conforto não é fácil, mas com imaginação, que é necessário para todo o artista, e também humildade, você estará no caminho certo.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.

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