James Cameron é um diretor conhecido por seus ambiciosos filmes e por sua constante procura por conseguir avanços científicos através das suas produções. Titanic, Avatar e mesmo O Segredo do Abismo, todos eles precisaram que algum tipo de tecnologia fosse desenvolvida para que eles pudessem acontecer. James Cameron também é conhecido por ser o diretor de Aliens (1989), a continuação do clássico de ficção científica e, para muitos, o melhor filme da franquia e pela criação da franquia d’O Exterminador do Futuro.

Em uma entrevista ao The Guardian, o diretor de True Lies (1991), achou que seria conveniente fazer uma crítica ao modo como Hollywood recebeu o filme da Mulher-Maravilha:

Todos esses tapinhas nas costas, esse auto-elogio, que Hollywood vem se dando por causa de Mulher-Maravilha é muito equivocado. Ela é um ícone objetificação, e é só a Hollywood masculina fazendo a mesma coisa de sempre! Eu não estou dizendo que não gostei do filme, mas é um retrocesso.

A diretora de Mulher-Maravilha, Patty Jenkins, respondeu com o que provavelmente é o melhor resumo de todos os problemas da fala do diretor:

A incapacidade de James Cameron de compreender o que a Mulher-Maravilha é, ou o que ela representa, para mulheres ao redor do mundo não é surpreendente já que ele, apesar de ser um grande diretor, não é uma mulher. Mulheres fortes são ótimas. O elogio dele ao meu filme, Monster, e à nossa representação de mulheres forte apesar de perturbadas é muito apreciado. Mas se mulheres precisarem sempre ser forte, duras e perturbadas, e nós não formos livres para sermos multidimensionais e celebrarmos um ícone de mulheres em todo lugar porque ela é bonita e amável, então nós não fomos tão longe assim. Eu acredito que mulheres podem e devem ser TUDO, assim como personagens masculinos deveriam ser. Não existem um tipo certo ou errado de mulher poderosa. E a massiva audiência feminina que fez do filme o sucesso que é pode com certeza julgar o seus próprios ícones de progresso.

Existem muitos pontos a serem debatidos na fala de Cameron e, por mais que a fala de Patty seja uma resposta mais do que à altura ao que o diretor disse, eu sei que muitas pessoas ainda tem dificuldade para entender a problemática de Cameron ter dito o que disse.

O “auto-elogio” de Hollywood.

É verdade que toda vez que alguém faz o mínimo para a representação feminina ou de qualquer outra minoria Hollywood, e os envolvidos na produção, costumam se tornar símbolo de inclusão e acreditar que são os panteões da justiça (apesar de eu não achar que Patty Jenkins fez isso). E é importante que nós não acreditemos que Mulher-Maravilha chegou e pronto, todos os problemas de representação feminina estão resolvidos – porque não estão. Mas é engraçado como o diretor reclama do auto-elogio mas se dá um tapinha nas costas por causa de Sarah Connor.

Sarah Connor não era um ícone de beleza. Ela era forte, ela era perturbada, ela era uma mãe terrível e ela ganhou o respeito da audiência através da força de sua personalidade. E, para mim, o benefício de uma personagem como a Sara é óbvio. Quer dizer, metade da audiência é feminina!

Ou seja, uma personagem que ele criou é muito mais completa e uma visão muito mais positiva de representação feminina do que aquela trabalhada por uma mulher. Se isso não é o auto-elogio masculino mais comum, eu não sei o que é.

O Tipo Certo de Mulher

Mas essa declaração de Cameron não é problemática só por se considerar capaz de fazer um trabalho superior ao escrever uma personagem feminina do que o que uma diretorA poderia fazer. Ela também indica que Cameron parece acreditar que há apenas um tipo de mulher que pode causar identificação através da força de sua personalidade – aquela que reune qualidades normalmente atribuídas à personalidades masculinas, ou que renunciam ao que é considerado “feminino demais”.

Veja bem, em toda a sua carreira, Cameron possui três protagonistas femininas solo: Sarah Connor, de O Exterminador do Futuro, a Tenente Ripley, de Aliens, e Max, da série Dark Angel (que eu vou falar mais tarde).

Sarah e Ripley, por mais que eu as ame e acredite que sejam personagens femininas muito interessantes, apresentam traços de personalidade que são normalmente associados ao masculino: predisposição à violência, capacidade de combate e nenhuma das duas atrizes se encaixava no que seria o padrão de feminilidade da década de 80.

Em Dark Angel, Max é uma mulher que foi cobaia num laboratório para modificação genética de crianças. Ela é mais forte do que o normal, uma guerreira nata e a representação de tudo que um protagonista masculino de ação é – mas ela faz isso tudo de salto. Novamente nós temos uma heroína feminina que ganha valor por ter características normalmente atribuídas à personagens masculinos.

Além delas Cameron tem ainda Helen Tasker, de True Lies, uma dona de casa que precisa abandonar o seu instinto caseiro e materno para se juntar ao marido agente secreto num plano para parar uma ameaça terrorista e salvar a filha do casal. Aqui, Cameron coloca o papel de dona-de-casa e mãe como algo negativo e, apesar de ser o marido o principal responsável pela crise no casamento, mostra Helen como a culpada.

Veja bem, eu AMO uma personagem feminina que chutas bundas, atira granadas, luta contra aliens em um robô e sabe kung-fu, mas mulheres não são só isso. Essa visão de que se uma personagem feminina não se encaixa num núcleo preciso de qualidades masculinas consideradas positivas, então elas não são revolucionárias o suficiente, é uma visão retrógrada. Porque se para ser considerada uma personagem bem construída, com quem a platéia possa se identificar, a personagem feminina precise assumir características masculinas, então está se apagando aquilo que é considerado feminino, está se ligando essas características à algo negativo.

Essa visão de que maternidade e características femininas são algo negativo está presente dentro dos filmes do diretor. Em determinado momento da história de Dark Angel, o fato de Max ser mulher e poder gerar um filho é usado contra ela, Helen tem anseios por carinho e atenção que True Lies trata como algo negativo e a responsabiliza pela crise no casamento, Cameron disse que Sarah é uma péssima mãe – quando na verdade ela está tentando fazer de tudo para salvar o filho e o mundo. Ripley, na versão do diretor de Aliens, descobre que sua filha morreu de velhice antes que ela pudesse voltar à vê-la, o que faz com que ela se sinta culpada. Mesmo em Titanic nós temos o caso clássico do estereótipo da mãe malvada que quer usar a filha para continuar rica. Se é feminino, é negativo.

Mulher-Maravilha, ícone de objetificação.

Se você acompanha o Collant sabe que volta e meia eu falo sobre objetificação feminina e, mais de uma vez, falei sobre como me incomoda o modo como as super-heróicas são representadas – incluíndo a MM. Eu continuo achando a roupa da Mulher-Maravilha uma das coisas mais não-práticas e feitas apenas para agradar o olhar masculino – podia ser ótimo lutar de saia na época da Grécia Antiga mas, passando alguns milhares de anos, era de se esperar que roupas de batalha tivessem evoluído também.

Muitas das minhas críticas ao modo como super-heroínas são retratadas tem como causa o fato de que quem faz a maioria dessas representações são homens, porque o mercado criativo seja de cinema ou de quadrinhos, ainda é dominado pelo olhar masculino. E esse olhar tende a ser objetificante e desumanizador. Por isso o que se iniciou como um símbolo de liberdade sexual feminina, como o uniforme da Mulher-Maravilha, ao longo dos anos acabou se tornando uma maneira para que homens criadores pudessem explorar todos os ângulos ginecológicos possíveis.

É engraço ver Cameron falar sobre MM ser objetificada, quando a Helen de True Lies é forçada pelo próprio marido à fazer um strip-tease para alguém que ela acredita ser um estranho. Fica mais engraçado lembrar que, apesar de todos os outros membros da nave estarem vestidos com calças e shorts, Ripley continua usando o kit calcinha + blusinha para viajar. Eu rolo de rir ao lembrar que Max, por mais incrível que Dark Angel seja, era interpretada por Jessica Alba e tratada como símbolo sexual o tempo todo – chute bundas, mas seja sexy. E não podemos esquecer da raça alienígena de Avatar onde as fêmeas tem as mesmas características físicas das mulheres humanas – incluíndo seios.

Jessica Alba, que interpretava Max, disse em uma entrevista alguns anos atrás:

Uma série minha (Dark Angel) premiou quando eu tinha 19 anos. E logo de cara todo mundo tinha uma opinião muito forte sobre mim por causa do jeito que o meu marketing foi feito. Eu deveria ser sexy, essa garota forte de sexy. Era o que as pessoas esperavam. Eu senti como se estivesse sendo objetificada, e isso me deixou desconfortável.

Apesar do uniforme da Mulher-Maravilha ser minúsculo e pouco favorável para um campo de batalha, Patty conseguiu fazer aquilo que, para muitos diretores, é impossível: ela não objetificou a personalidade. A sexualidade que Diana apresenta no filme é dela, não do olhar que é colocado sobre ela. Não existem sequências da câmera deslizando sobre o corpo da atriz para ser objetificada, quando a câmera mostra o corpo dela é para enfatizar o seu poder e sua força. Talvez esse seja o tipo de avanço que passe despercebido para o olhar masculino, já que ele tende a não entender onde começa o erro da objetificação feminina.

O Tipo Certo de Representação

Patty Jenkins está muito certa em dizer que Cameron não consegue entender a importância da MM por não ser mulher. Empatia pela história do outro é algo que todos nós podemos ter, eu cresci assistindo protagonistas masculinos e me identificando com eles, eu fui programada desde criança a ter empatia por aquilo que não me representava de verdade. Por isso é muito mais fácil para mim assistir Capitão América e me identificar com os valores e a história do personagem do que para um cara assistir Mulher-Maravilha e fazer o mesmo. E isso é, no mínimo, triste.

Não só porque esse cara vive dentro de uma bolha, mas porque ele cresceu escutando que só a história dele importa. Homens, especialmente brancos, hetero e cis,  possuem todo e qualquer tipo de representação possível em quantidades imensas. Talvez por isso seja tão difícil para eles entenderem porque Mulher-Maravilha foi tão importante para tantas mulheres, talvez por isso eles achem que tem o direito de dizer o que é certo ou errado na representação feminina.

Homens também crescem escutando do mundo que eles estão corretos, e mulheres crescem escutando que elas provavelmente estão erradas. Por isso Cameron se sente no direito de fazer esse tipo de comentário e apontar o que “está errado”. E por isso é tão importante que Patty tenha dado uma resposta tão firme sobre o assunto – porque Cameron está errado. Existe espaço para todo tipo de mulher, e todo tipo de mulher pode e deve ser um símbolo de resistência e força.

Conclusão

Parece que o problema de James Cameron com Mulher-Maravilha é que ela é uma personagem feminina que está diretamente ligada àquilo que é considerado feminino. Por mais que eu ache um retrocesso dividir sentimentos e características de personalidade binariamente entre masculino e feminino, é pior ainda ignorar e menosprezar sentimentos que foram considerados femininos e por isso menores durante tanto tempo. Eu adorei Mulher-Maravilha e, para mim, um dos pontos fortes do filme é o modo como ele não foge de falar de sentimentos e de amor – inclusive acredito que a força principal do filme e da mensagem dele para o mundo está aí. E não tem nada considerado mais feminino do que sentimentos e amor.

Essa visão de que para Cameron algo considerado feminino, como amor e sentimentos, é algo negativo fica ainda mais evidente quando pensarmos que tirando esses elementos a Mulher-Maravilha é uma guerreira. Ela pode não apontar uma metralhadora, jogar granadas ou dirigir motos futurísticas, mas ela empunha um escudo e uma espada. Então é sobre ela ser feminina demais, ou sobre não ser do jeito que ele acha deveria ser?

Não é sobre vilanizar James Cameron. Eu adoro muitas das personagens que ele criou ou com que trabalhou. Ripley tá na parede da minha sala, Dark Angel era uma das minhas séries favoritas na adolescência e apesar de saber das fraquezas do filme, Avatar não me incomodou como incomodou à muitas pessoas. Mas as declarações do diretor deixam bastante evidente um desconforto que produções como Mulher-Maravilha, e qualquer produção de sucesso que esteja ligada à alguma minoria, causam aos poderosos homens de Hollywood. Porque se a história que faz sucesso e está sendo contada não é a deles, ou se é uma história que não é contada através do olhar deles, então ela não está sendo feita da maneira correta.

Até mais! 😉

Alguns textos que talvez ajudem a entender melhor:

A HIPERSEXUALIZAÇÃO FEMININA NO ENQUADRAMENTO E NO MOVIMENTO DE CÂMERA.

MANARA, CHO E A TAL DA SUBVERSÃO DO TABU.

O AMOR EM MULHER-MARAVILHA.

ARLEQUINA E MULHER-MARAVILHA: A HIPER-SEXUALIZAÇÃO DA PERSONAGEM FEMININA. 

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