No começo do ano os casos de assédio sexual dentro da DC vieram novamente à tona quando a editora passou por uma reestruturação. Na ocasião, Shelly Bond foi demitida da Vertigo, mas Eddie Bernganza foi mantido dentro da DC. A sensação de indignação vinha do fato de Eddie ser um conhecido assediador de mulheres, com histórico de assédio sexual verbal e de contato físico. Ao invés de demitir o assediador, a DC o blindou em um escritório formado apenas por homens.

No Brasil, não temos um mercado de quadrinhos organizado industrialmente nem grandes selos editoriais como nos EUA, mas isso não quer dizer que nós não tenhamos os nossos assediadores.

Homens quadrinistas e ilustradores usam de sua posição de privilégio dentro do mercado para assediar mulheres quadrinistas, fãs e alunas. Estes caras estão por ai. Tem mesas e banquinhas em eventos;  tem livros lançados por editoras; eles até trabalham nessas editoras. Eles são pesquisadores e estão dentro do meio acadêmico. Eles são convidados para palestrar em eventos, compartilham conteúdo do Collant, pagam de desconstruídos e de caras legais.

Com mais mulheres inseridas no mercado artístico, que assim como qualquer outro é majoritariamente composto por homens (em especial o homem branco, hetero e cis), os casos de assédio parecem se multiplicar, e as razões pelas quais não se fala sobre eles, também. Enquanto isso as notícias correm por trás dos Becos dos Artistas. Toda quadrinista, ilustradora ou mulher envolvida com o mercado sabe de uma história. Aconteceu com uma amiga, com a conhecida de uma amiga, com ela mesma. A gente até sabe de alguns nomes, conhecidos e desconhecidos. A gente identifica eles quando caminhamos pelos corredores de eventos de cultura pop.  

Histórias de assédio não faltam, variam apenas na abordagem. Tem cara que se aproxima de outras quadrinistas com “oi linda/fofa/gata”, que abraça, dá beijo e força o contato físico sem consentimento, que pede nude sem qualquer envolvimento prévio e que pede nude em troca de desconto em aula. Também tem cara que usa a posição de “famoso” para dar em cima e ter mais liberdade do que deveria com outras profissionais e com fãs. Tem cara que passa a mão em colegas e que fica com colegas de profissão ou fãs pra depois sair cantando de galo para outros caras.

Infelizmente, situações como essas são relativizadas na nossa sociedade. Quantas vezes comentários como “ela está exagerando” não foram ditos após uma mulher se sentir desconfortável com o modo como aquele cara famosinho encostou nela?

E assim, o assédio, se apresenta no meio dos quadrinhos (e na nossa sociedade) como uma forma de demonstrar poder sobre a mulher, demarcar espaço, pressionar a mina a produzir de um jeito em detrimento de outro, ou desestimular essa mina a produzir.

O impacto de um assédio, seja físico ou verbal, seja qual for o grau ou o tipo de violência utilizada, é tão grande que causa reações que vão do medo a impotência. Quando esse assédio acontece dentro do seu ambiente de trabalho tudo fica ainda pior. Além do trauma, tem a insegurança e o medo de passar por aquilo de novo. De ter a sua carreira atrapalhada por causa do assediador. Aí o silêncio prevalece porque as mulheres sabem que se falarem sobre o acontecido, se revelarem o nome do assediador, o mercado pode se virar contra ela e quem vai pagar pelo assédio não vai ser o cara, mas ela.

Nestas horas, o mais comum é ver homens apoiando outros homens. Questionando os fatos, culpabilizando as minas, exigindo videos e prints pra provar. Afinal, mulheres, são fáceis, não é mesmo? São loucas e mal educadas quando reagem a uma investida. Querem atenção o tempo todo, para serem reconhecidas pela beleza, não pelo que sabem fazer.

Aqui no Collant já cansamos de falar como ambiente da cultura pop é hostil para as mulheres. Criticamos o espírito da broderagem que sempre fala mais alto no meio dos quadrinhos, repudiamos todas as ações que colaboram para o afastamento e invisibilização da produção de quadrinhos e ilustrações feitos por mulheres e já criamos até um guia de como ajudar a acabar com o assédio e machismo no meio. É por isso que não ficamos apáticas quando vemos a lista de quadrinistas e ilustradores que já assediaram mulheres aumentar.

Assim como o MDM, que soltou um texto discutindo o assédio no cenário nacional de quadrinhos, nós precisamos que mais pessoas se posicionem contra qualquer forma de inferiorização das mulheres. Se você mulher quadrinista, ilustradora, integrante do meio artístico, leitora sofreu algum tipo de assédio, mas não tem coragem de prestar queixa junto a delegacia da mulher, nós estamos abertas para conversar com você e dar todo o suporte que você precisar.

Nós não vamos fechar os olhos, não vamos olhar para o lado. Vamos exigir que escolas, eventos, editoras e a comunidade como um todo se posicione. Não dá mais para ignorar o que acontece por trás do artist’s alley. Não dá mais para passar a mão na cabeça de ilustrador/quadrinista assediador. Se o mercado de quadrinhos quer continuar crescendo, então ele precisa lidar com todos os seus problemas, e o assédio é um deles.

Outros textos sobre o assunto:

Broderagem, Mercado e Exclusão.

Como você, homem, pode ajudar a acabar com o assédio e o machismo no meio dos quadrinhos.

 

  • Daniela

    É muito bom ler textos como estes, Rebeca. Somos muito mais fortes juntas e agora mais e mais caras estão se ligando que ou eles estão do nosso lado ou estão do lado dos assediadores.
    É muito triste passar por situações que passamos e ainda perceber que nada acontece com eles. Pior ainda é ver minas apoiando esses caras sabidamente misóginos.

    • Marcia

      Daniela, todo apoio as quadrinhistas! Não vamos nos calar…

  • Crítica do Hessel

    Olá, eu conheci o site de vocês através do MDM e acompanho há meses, adoro as postagens de vocês e já repassei pra amigas minhas.
    Incrível como vocês conseguem explicar pra nós homens como é o mundo através de seus olhos. O que vocês passam, os seus desafios e etc.

    Não sei se há um post sobre isso, então estou dando a sugestão.
    Por mais que seja um site sobre cultura pop, acharia interessante vocês fazerem uma postagem especial sobre prevenções e contra-medidas.
    Pratico Krav Maga (arte marcial específica para auto defesa) e lá muitas mulheres praticam conosco, nossos instrutores e instrutoras tem como foco aulas inclusive só para elas (como se defender de uma abordagem maliciosa, agarramento, agressão física e verbal, tentativa de estupro).
    Elas aprendem diversas coisas como, aprender a ter uma visão periférica, chutar os faróis traseiros de um carro, caso você seja jogada na mala (eles saem com facilidade e muitas vítimas conseguiram pedir socorro assim), e etc.

    Ouvi diversos testemunhos delas mesmas, entre elas mulheres que revelaram ter começado a praticar depois de serem vítimas (e outras que conseguiram se defender de agressores), e elas relatam como isso as ajuda a conquistar amor próprio e sentimentos maior de força e segurança.

    Acabei me estendendo bastante kkkk mas era essa minha sugestão, parabéns pelo site, continuem sempre com as ótimas postagens, nós agradecemos. ^^

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