Heather Antos é uma das várias editoras da Marvel, ela trabalhou em The Unbelievable Gwenpool e atualmente trabalha com as revistas de Star Wars da editora americana. Antos também é a feliz detentora de uma conta no twitter e, assim como um bilhão de outras pessoas, costuma postar fotos do seu dia-a-dia por lá.

Uma dessas fotos, no entanto, recebeu uma onda de ódio gigante porque, imaginem só, como assim uma mulher se junta com outras mulheres, todas trabalhando com quadrinhos para a Marvel, e postam uma selfie tomando milkshake? E como assim elas se intitulam Milkshake Crew? Como assim elas sorriem e são felizes?

Essa não é a primeira nem a última vez em que uma mulher vai ser assediada e ameaçada na internet. Com mulheres que de alguma maneira estão envolvidas com o meio nerd/geek então, infelizmente estamos longe de chegar no dia em que só postar uma foto feliz ao lado do chewbacca não vai levantar perguntas e xingamentos. Chelsea Cain, Leslie Jones, Anitta Sarkeesian, Zainab Ankhtar e a roteirista nacional Petra Leão são só alguns exemplos de mulheres que foram atacas online apenas por serem mulheres e habitarem de alguma maneira o meio nerd/geek.

Marykate Jasper, autora no The Mary Sue, levantou uma questão importante:

Quando esse tipo de assédio acontece, os advogados do diabo aparecem para dizer que esses assediadores estão reagindo dessa maneira por causa das mudanças em seus personagens favoritos, estão legitimamente criticando políticas para mulheres ou simplesmente dando voz às suas opiniões. Isso sempre é uma tentativa óbvia de fornecer uma desculpa mais palatável para as agressões machistas e/ou racistas. Mas essa resposta à selfie de Anton deixa ainda mais óbvio a real motivação deles. É assédio por existir. Por ousar ser uma mulher, sorrir e se divertir enquanto trabalha com quadrinhos. É assédio que tem como combustível o ódio por ver um monte de mulheres que editam quadrinhos se divertindo enquanto trabalham.

E esse é o ponto aqui: mulheres trabalhando com quadrinhos. Felizes. Mulheres, no plural, que trabalham com quadrinhos.

Dá pra fechar um bingo com os absurdos tão comuns sobre ser mulher na internet:

Você posta uma foto com suas amigas e, enquanto um cara se sente no direito de avisar para você e para o mundo que ele sente atração sexual por uma das pessoas da foto (da maneira mais nojenta possível), o outro faz menção à estupro. Ser mulher na internet.

“Eu totalmente transaria com a garota da frente.” – “Melhor fazer ela assinar um formulário de consentimento, ela parece o tipo “falsa acusação de estupro”.

Através da foto os analisadores de currículo podem dizer sua formação e se você é habilitada o suficiente para fazer o seu trabalho – tudo isso sem entrar no seu Linkedin. Eles também conseguem saber a sua inclinação política e descobrir se você tem ou não uma conta no tumblr. Essa última eu acho particularmente interessante porque, veja bem, a maioria das pessoas acha que eu nunca teria uma conta no tumblr, quando na verdade eu estou por lá há mais de dez anos.

Você posta uma foto com as suas amigas e ela se torna imediatamente um statement sobre a sua possível inclinação à temas feministas, ela também é uma óbvia menção à luta por inclusão de personagens femininas dentro dos quadrinhos. Você foi tomar um milkshake, mas está na verdade tramando a dominação mundial. Também vira a guerrinha mais chata do milênio: Marvel vs DC. O mais interessante aqui é que esse moço provavelmente chorou o equivalente às Cataratas do Iguaçú quando a Batgirl foi remodelada, provavelmente fez a mesma coisa com a série da Supergirl e deve ter tido uma síncope com as piadas em Mulher-Maravilha.

Esse próximo twitte é o meu favorito, e é difícil conseguir chegar em como uma coisa está relacionada a outra, porque esse é o tipo de linha de raciocínio que nem o supercomputador de Guia dos Mochileiros das Galáxia conseguiria de fato fazer funcionar, mas eu vou tentar:

Um grupo de mulheres saíram para tomar milkshake. Todas essas mulheres trabalham para a Marvel. Porque elas saíram para tomar um milkshake as revistas da Marvel desenvolveram uma falta de qualidade crônica. Disserte.

Piadas a parte, isso serve para mostrar que porque mulheres que trabalham com quadrinhos saíram para tomar um milkshake e postaram uma selfie, elas recebem mensagens que variam de: acusações sobre serem responsáveis pela suposta falta de qualidade das revistas da editora para a qual trabalham (e aqui há a intenção de ligar a presença feminina à queda da vendas da Marvel – algo que já discutimos AQUI), até twittes sobre estupro.

Quando você é mulher e trabalha no meio nerd/geek, fala sobre representação ou feminismo de maneira geral, é comum que uma simples foto do que você está lendo no momento resulte em pessoas mirabolando razões feministas para você estar lendo aqui. Mesmo que você só esteja curtindo um momento de paz e colocando a leitura de Homem-Aranha em dia. Esse tipo de movimento vem de todos os lados, de quem não te conhece e de amigos, já que muitas pessoas não parecem entender que a gente pode só gostar das coisas, ou que a gente só pega umas coisas pra ler/assistir e ficar de boa. Mas mesmo que esse não seja o caso, mesmo que você não seja uma das mulheres ativamente discutindo representação, ainda assim existir como mulher dentro do meio nerd/geek é quase um ato político.

Você não pode ser mulher, ser feliz e e trabalhar com o que gosta. Porque mesmo que essa não seja a sua intenção, ser feliz vira um ato político por ser uma afronta à masculinidade frágil dos fãs de quadrinhos – como assim você é feliz com toda a merda que te rodeia? Como assim você ousa ser feliz enquanto trabalha? Estar dentro do meio nerd/geek impõe uma aura política em toda mulher que existe alí dentro. Mesmo que, no fim, você só queira tomar um milkshake com as suas amigas e registrar esse momento feliz.

Mas nem só de merdas vive essa história. Diversas pessoas, leitores e profissionais saíram em apoio à Anton e às garotas da Milkshake Crew.

Por aqui nós continuamos adorando MilkShake e lendo quadrinhos.

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