Se desconstruir é aceitar que quase todo produto cultural que você já leu/assistiu/escutou vai ter problemas com machismo, gordofobia, transfobia, etc, etc. Ou às vezes, a intenção do material era até boa, mas a execução só fez emergir mais ~complicações~.

Esse é o caso de um dos meus filmes favoritos da minha pertubada infância, Dormindo com o Inimigo, de 1991.

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Deixando de lado as duvidosas escolhas de filmes da minha mãe para me ensinar a ser uma mulher independente, a verdade é que eu AMAVA esse filme. Julia Roberts interpreta uma jovem mulher presa a um marido violento. Ela simula a própria morte para fugir dele, mas o marido, Martin, aos poucos descobre que ela ainda está viva e passa a procurá-la. Pra mim, era a história de uma mulher lutando pela sua liberdade, enfrentando um grande desafio e salvando a si mesma. E o filme ainda é isso, mas… Gente, o que é esse vilão?

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Relacionamentos abusivos são absurdamente comuns, justamente por terem o machismo e o patriarcado como sua base. Portanto, quanto menos caricato e mais relacionável o homem for, melhor. Martin, interpretado por Patrick Bergin, não é um homem abusivo, é um psicopata, um monstro, um Nosferatu de acordo com a própria Rebeca Puig. Os closes, ângulos da câmera, uso da luz, a forma exagerada como Patrick interpreta o personagem, o diálogo do filme, tudo sugere que Martin possui no mínimo, uma condição de esquizofrenia unida com T.O.C. O marido violento do dia a dia simplesmente não é esse cara. Ou é, mas como uma minoria. Essa escolha equivocada causa falta de reconhecimento. E falta de reconhecimento é uma porta aberta para a insegurança e o questionamento. Ninguém se perguntará se possui um comportamento semelhante a uma figura tão exagerada, assim como vítimas se questionarão se o abusador é realmente “daquele jeito”.

E claro que ninguém é desse jeito, né? Ninguém arregala os olhos dessa maneira por nenhum motivo aparente:

dormindo-com-inimigo

Nope.

Ou encara uma roda gigante dessa forma:

relacionamento-abusivo

Segura essa respiração aí, fio

Um tema sério como violência doméstica merecia muito mais. Buscar um equilíbrio para a representação de Martin teria deixado o filme muito mais verossímil. É preciso mostrar como há sutilezas no relacionamento, como o abusador é um ser completamente inserido na sociedade, com amigos, família, etc. Homens agressivos no relacionamento são bem reais e principalmente: não são mentalmente doentes. Não são loucos, psicopatas, bipolares, não precisam ter T.O.C como desculpa para ser controlador. Não são monstros. São vizinhos, colegas de trabalho, pais, irmãos. E no caso de muitas, são o cara dormindo ao  lado.

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