imagem dois olhos no abismo

        Abaixou a televisão até tirar aquelas vozes da cabeça. O celular ainda sem nenhuma novidade. Devia fazer umas três, quatro horas que a Laís não dava notícias.

Foi tomar um banho, se arrumar pra dormir.

No meio do banho, o telefone de casa tocou. Elas se perguntavam por que ainda tinham telefone fixo em casa. Nunca era ninguém.

Estava sentada no chão do box do chuveiro, a água quente correndo pelas costas, o sabão caído logo do lado. Passava a gilete pela perna. O celular tocou, e ela se cortou – só um risco na pele. Ficou parada, olhando pro sangue que descia pela perna, se misturando com a água e o sabão. Não sabia se devia atender.

Fechou os olhos. Teria tempo pra chorar mais tarde. Agora precisava atender o telefone.

Se enrolou na toalha, pegou o celular e foi até a sala.

– † –

         Marlene tinha avisado que as estradas do sul não eram como as de São Paulo. Só que ela não queria passar mais tempo longe de casa. Logo de manhã, ia pegar o primeiro avião que saísse de Porto Alegre. Fazia umas quatro horas que estava dirigindo sem parar, e ainda tinha de correr mais três pra chegar a tempo.

Exausta, decidiu entrar na próxima saída que chegou. Dava tempo de parar num posto de gasolina e comer alguma coisa.

A noite estava fria, prometia chuva.

Entrou na cidade. Era pouco mais de dez horas e todas as janelas estavam cerradas, nenhuma alma pelas ruas. Parou no único posto aberto que encontrou e pediu ao senhor que atendia as bombas pra ele encher o tanque. Caminhou até um telefone público lá no fundo.

– Eu sei, não devia ter esquecido o carregador do celular.

– Onde você tá?

– Numa cidade qualquer. Parei pra abastecer, já tô voltando pra estrada. Não tem nada pra comer aqui essa hora.

– Cê tá sozinha?

– Tô.

– Ela não quis vir com você?

– Não. Não quis saber do que o médico tinha pra dizer. Não queria sair de casa “nem morta”. Eu tentei explicar pra ela que se não começar o tratamento logo, é isso mesmo que vai acontecer.

Laís enxugou as lágrimas com a palma da mão e apoiou a cabeça na parede.

– Eu não vou mais chorar. Ela não quer me deixar cuidar dela. Eu tenho que fingir que você não existe na frente dela.

– Eles mudaram o horário do meu turno amanhã. Não vou poder te buscar no aeroporto.

– E se eu tivesse com a minha mãe?

– Daí eles entenderiam. Ela não ia gostar de qualquer jeito.

– Eu achei que a gente já tinha falado sobre isso.

– Não é hora disso.

– Você me disse que ia pedir demissão assim que se formasse, que não queria ser policial pra sempre.

– Eu sei o que eu disse. Fui eu que disse, não você. Não esquece.

– Então por que trancou o curso?

Marlene respirou fundo do outro lado da linha.

– Porque com essas horas extras eu não dependo mais do seu dinheiro.

Laís apertou os olhos.

– Acho que eu prefiro não te ver quando chegar em casa.

Laís desligou o telefone e foi até o carro. O frentista tinha aberto o capô e estava com a cabeça enfiada no motor.

Laís limpou a garganta.

O senhor se levantou. Um sorriso debaixo dos chumaços brancos do bigode.

– Teu marido está preocupado? Eu também ficaria. Mulher bonita sozinha na estrada.

Antes da última frase, parecia amigável. Laís tentou ler a expressão dele.

– Já botou gasolina?

– Coloquei. Só estava dando uma olhadinha. Para ver se está tudo de acordo.

Parecia uma pessoa simples, devia ter passado a vida inteira naquele lugar. Era o dono do posto, tinha certeza disso.

– Não precisa. O carro é alugado.

– Sendo assim, eu não forçaria o motor… Faz tempo que o bicho não vê uma manutenção.

Não, ela não tinha motivo pra se preocupar. Além do mais, era mais forte que ele. E não tinha mais ninguém fora os dois.

Ela pagou e se despediu. Assim que virou a chave, no entanto, o senhor se aproximou novamente e se apoiou na janela.

– Para que lado a senhorita está indo?

Não se deixou encolher no assento do motorista.

Por um instante, os olhos deles se encontraram. Ele sorriu de novo, baixou o rosto e coçou o bigode.

– Estou te incomodando. Fico muito tempo sozinho aqui de noite. Antes tinha minha mulher pra conversar, ela cuidava da conveniência ali naquela porta.

A porta trancada, a tinta começando a descascar. A janela empoeirada mostrava o único pedaço desarrumado do posto. Ele deve ter deixado a loja fechada, sem tocar em nada.

– Porto Alegre. Tenho que chegar em menos de três horas. Tem gente lá me esperando.

O senhor suspirou. Viu o nome dele costurado na camisa, Martim.

– Eu ouvi um pouco da sua conversa. É o silêncio daqui, tentei não prestar atenção. É a idade, a gente já viu e ouviu de tudo.

Ele parecia estar calculando se devia falar mais alguma coisa.

– Não deixa uma briga estragar algo de bom que você tenha. Pensa bem, depois pode não ter mais volta.

Martim, você me deu a impressão errada. Me desculpa. Os gestos de Martim a lembravam do seu avô.

– Vai ser corrido pela estrada de onde tu veio.

Ele só estava tentando ajudar.

– Tem outra opção?

– Dá pra ir por dentro, aqui pela direita. Mesmo sem forçar o motor… deve ganhar de meia hora a quarenta, quarenta e cinco minutos. Se quiser, desenho num papel.

– † –

        Depois de um bom tempo rodando por estradas de terra, Laís se convenceu de que estava perdida. Tentou dar meia-volta e reencontrar o caminho por onde viera, mas todos os cruzamentos pareciam os mesmos.

O mapa de Martim não servia de nada.

Frustrada, desligou o carro e saiu.

Da estrada, não se avistava praticamente nenhuma casa, só uns trechos perdidos de mata e um pasto sem fim, quase vazio.

Era a primeira vez em dias que ficava sozinha. Fechou os olhos, se apoiou no carro e acendeu um cigarro.

Sua mãe não queria parar de fumar. Laís tinha saído de São Paulo decidida a fazê-la parar. Ela mesma tinha largado fazia uns oito anos, sua mãe ia ter que fazer o mesmo. Pelo menos, era isso que passava pela sua cabeça antes das duas se encontrarem.

Agora, era ela quem estava fumando. Seu primeiro cigarro tinha sido roubado da bolsa da mãe.

Uma brisa fria se levantou.

Laís se abraçou. A ponta do cigarro perdeu o brilho.

O vento tinha apagado a chama.

O ar que lhe atingiu os pulmões vinha carregado de um aroma que trazia imagens de coisas em decomposição, como se há pouco tivessem violado um túmulo perdido no tempo, que a terra preferiu devolver à superfície.

Existem coisas na noite que se comunicam diretamente com nossos calafrios. Sua espinha intuiu que era melhor entrar no carro e ir embora.

Laís deu a partida e checou pra ver se as janelas estavam fechadas. Com o farol alto ligado, seguiu pela estrada. Um desconforto roía a boca do seu estômago. Pra espantar o medo, ligou o rádio – a voz do locutor fez com que se sentisse menos sozinha.

E, de fato, sozinha ela não estava.

Num só instante, o motor do carro parou e as vozes do rádio se perderam no silêncio. Laís apertou a chave entre os dedos e tentou dar a partida.

Os faróis também não funcionavam.

Do lado de fora, era como se a noite escondesse seu fôlego por entre as palmas das mãos.

Sem sair do carro, Laís estudou a paisagem ao redor. Tinha uma única luz acessa, num poste ao lado de uma casa, um pouco além da cerca que limitava a estrada. Era uma casa de dois andares, de aparência moderna, com uma arquitetura que não se encaixava com o ambiente que a circundava.

Nenhum carro por perto, nenhuma janela aberta ou luz acesa do lado de dentro. Nada indicava a presença dos moradores.

Passou uns minutos juntando forças, dizendo pra si mesma que aquilo tudo era bobagem. E saiu do carro.

Com o capô aberto, seus olhos procuraram por algo no motor que lhe parecesse fora do lugar. Logo desistiu, não sabia direito pra onde olhar, ainda mais sem a luz do celular.

A imagem de Martim enfiado debaixo do capô em sua mente. Laís geralmente duvidava das suas primeiras impressões.

Depois de passar por baixo da cerca de arame farpado, seus passos a aproximaram da casa. À direita, um tanto mais adiante, havia uma mata densa e fechada, cuja vista, àquela hora da noite, não passava de uma grande mancha escura.

Durante o trajeto até a casa, Laís não conseguiu espantar uma forte sensação de que estava sendo observada.

Por instinto, desviou do círculo de luz que o poste desenhava no chão. Deu uma volta ao redor da casa. Não achou a campainha. O vento gelado se espalhou pelo campo, retorcendo a vegetação. Esfregou os braços pra espantar o frio. A porta da frente, que devia estar apenas encostada, se abriu sem fazer qualquer ruído.

Enquanto seus pés recuavam, sua cabeça se esticou pra ver o interior da casa.

Um som ressoava bem baixo, como de algo sendo riscado – pequenos estridentes se debatendo, vindos do lado de dentro. Um som parecido com o que suas unhas faziam quando, ainda criança, ela arranhava a lousa de brinquedo que sua mãe lhe dera.

Laís agora dava passos maiores pra trás, sem virar as costas pra casa. Seus dedos desceram até o bolso da calça, onde encontraram o celular descarregado, inútil. Sem perceber, ela entrou debaixo do feixe de luz do poste – a intensidade da luz parecia maior do que há pouco, seus olhos tinham dificuldades pra enxergar o que estava além, na escuridão.

Por instinto, a vista banhada por uma luz que a cegava, olhou pra cima, pro céu estrelado.

A claridade diminuiu, ou seus olhos se acostumaram a ela.

Na mata à frente da casa, surgiu um ponto de luz. Depois, outro. Seus ouvidos pareciam escutar, escondido no meio do vento, um leve murmúrio, uma espécie de canto gutural quase inaudível. Quando o terceiro ponto de luz se revelou por entre as árvores, saiu de perto do poste e correu até a casa.

O canto se tornara audível, medonho.

Sem fôlego, fechou a porta atrás de si. Os pequenos ruídos estridentes ressoavam pelo lugar.

A porta da frente dava prum pequeno hall, que Laís atravessou num instante. Tensa, chegou à sala de estar. A televisão ligada não mostrava nenhuma imagem, dizia apenas “sem sinal”. Pelo chão, bonecas espalhadas, brinquedos. Na estante mais próxima, fotos de uma família: o casal não parecia ter mais de 30 anos de idade – eles tinham uma filha pequena.

O telefone não estava funcionando.

Os ruídos estridentes se espalhavam, era difícil saber de onde eles vinham.

A vozes inumanas ecoando no vento, do lado de fora, ansiosas.

Laís foi até a cozinha e passou pela sala de jantar. Na cozinha, a pia exibia a louça do jantar de poucas horas atrás.

O canto gemia na mata lá fora, além da fina camada de vidro das janelas. Pegou uma faca, a maior que encontrou.

Com as costas apoiadas na parede, Laís subiu lentamente os degraus da escada. A madeira rangia como se estivesse gritando de encontro aos seus pés. Um som abafado se unira aos agudos incessantes.

No quarto da garota, encontrou a cama desfeita.

Seus ouvidos perceberam que os sons metálicos vinham do quarto do casal, mais à frente no corredor. A porta semicerrada.

Empurrou a porta com a faca. Respirou fundo.

Preso pelo pescoço por uma grossa corrente de metal, o pai da família estava pendurado numa das vigas do teto alto de madeira, como um animal no matadouro. No instante em que os olhos de Laís o descobriram, as mãos dele esgotavam suas forças e se deixaram tombar rente ao corpo, balançando no ar.

O pavor que tomou conta de Laís levou um instante pra pô-la em ação: ela agarrou as pernas do homem e tentou empurrar o corpo pra cima.

A garganta sufocada ecoava uma série de espasmos hediondos – fruto talvez do ar que voltava aos seus pulmões, talvez das últimas forças esvaecendo antes da morte.

Os músculos de Laís tremiam, tentando empurrá-lo pra cima, olhando em volta à procura de algo ao seu alcance que servisse de apoio ao desconhecido.

O homem parou de engasgar, seu corpo perdeu a tensão com que ele se agarrava à carne e um filete de sangue desceu de sua boca até atingir Laís. Um cheiro de fezes insuportável se espalhou pelo quarto.

Guiada pelos nervos entorpecidos de pânico, tropeçou até o banheiro da suite, onde se lavou.

Uma janela solta batia contra o vento. Do lado de fora, o canto gutural se avolumava, desejoso. Laís espiou a mata logo à frente e avistou vários pontos de luz pulsantes perdidos por entre as árvores.

Sem olhar pro corpo sufocado pelas correntes, Laís saiu do quarto e desceu as escadas.

Chegando ao andar térreo, se abaixou, evitando se aproximar das janelas e se esgueirando na direção da cozinha. O canto soava ainda mais alto.

Subitamente, uma sombra atravessou o lado de fora. Laís rolou desajeitada pelo chão e se escondeu na escuridão.

Aterrorizada, ela viu uma figura assustadora se aproximar da janela. A cabeça e os ombros estavam inteiros cobertos por um manto escuro, sujo de terra molhada e musgo; suas mãos eram pálidas como as de um cadáver, e a esquerda servia de apoio a uma vela acessa, cujos restos de cera derretiam e se acumulavam pela palma, escorrendo pelos dedos e formando desenhos grotescos; da altura do rosto, galhos retorcidos se projetavam para além do manto, assumindo formas que pareciam se contorcer de dor.

A criatura aproximou a vela do vidro e avistou Laís. Um segundo depois, a mão cadavérica atravessou a vidraça com um soco.

Laís se levantou e correu até a cozinha. Abrindo as gavetas, encontrou uma lanterna. Apoiada a uma porta que dava pra fora, ela não ouvia nenhum ruído vindo do outro lado – o canto tinha encontrado um ápice antes de se calar numa suspensão aflita, prestes a estourar.

Precisava dar um jeito de voltar pro carro. O resto ela pensava depois.

A mão da criatura atravessou a porta e a agarrou pelos cabelos. Aos gritos, Laís derrubou a lanterna e a faca no chão. A força com que era puxada lhe arrancava o ar, apertava seu rosto contra as farpas da madeira rasgada. Num esforço desesperado, ela conseguiu se virar de costas pra porta, apoiar os pés contra a madeira e se empurrar na direção da cozinha. Os fios de cabelo soltavam um a um, abrindo uma ferida em sua nuca. Esticando os braços, conseguiu alcançar a lâmina no chão.

Se levantou e deixou o desespero brandir a faca.

Os golpes deixaram talhos profundos na pele da criatura, de onde nem uma gota sequer de sangue brotou. Depois do terceiro, quarto golpe, seu pulso fraquejou e Laís se deixou dar dois passos pra trás.

A criatura destroçou o que restava da porta e invadiu o ambiente.

A certeza de que não conseguiria escapar congelou seus músculos. Tudo que ela queria era correr.

Ainda assim, o que fez foi se abaixar e pegar a lanterna aos seus pés. Queria ao menos ver o rosto daquilo que estava prestes a matá-la.

Assim que o feixe de luz lhe atravessou, a criatura soltou um grunhido infernal de dor.

Laís tirava forças do gosto do próprio sangue em sua boca. Ela não queria acreditar que encontraria a morte daquela forma, do nada, tão longe de casa e sem nenhuma explicação.

Laís apontou a lanterna na direção do rosto do vulto, que queimava. As facadas de antes agora surtiam efeito, fazendo com que um sangue escuro, viscoso e de cheiro torpe se espalhasse pelo chão.

Venci. Ela tinha vencido. O que quer que fosse aquela coisa, aquilo. Estava viva.

Recuperando o fôlego, Laís pensou em levantar o manto pra desvelar o rosto da criatura. Decidiu, no entanto, sair da casa sem tocar em mais nada.

Do lado de fora, a noite dava sinais de normalidade: o vento se tornara menos gélido, uma cigarra cantava por perto. Estaria sonhando? O aroma pútrido que a acompanhara até ali finalmente tinha se dissipado.

Laís caminhou na direção do seu carro com a lanterna ligada. À esquerda, os pontos de luz haviam desaparecido da mata. Algo lhe dizia que o pesadelo tinha chegado ao fim. Passou por debaixo da cerca e adentrou o veículo.

Depois de uma, duas tentativas, o motor do carro pegou.

E então, um grito atravessou o ar da noite. E mais outro, como que pra confirmar o primeiro.

Uma vez mais, o frio cortou sua espinha, fez seus músculos doloridos se contorcerem ao redor dos ossos.

Eram gritos de criança.

Laís se lembrou das fotos que encontrara na casa, da filha pequena do casal.

Ela engatou a primeira marcha e apoiou o pé no acelerador. Mas desligou o carro.

Laís sabia de onde os gritos tinham vindo.

Decidida, fechou o punho ao redor do cabo da faca, acendeu a lanterna e saiu do carro.

Fez o caminho de volta, até a beira da mata.

Não devia ter dito aquilo pra Marlene. O que ela mais queria era vê-la de novo, beijá-la e saber que tudo está bem. De alguma forma, tudo vai ficar bem.

Não era a primeira vez que mentia pra si mesma.

Invadiu a mata.

– † –

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