[Todos os spoilers da segunda temporada!!]

Quando a segunda temporada de Stranger Things estreou eu estava receosa não só em assistir, mas também com o que eu ia achar da série. Essa sensação vem do fato de eu ter sido uma das poucas pessoas que eu conheço que não morreu de amores pela primeira temporada. Para mim, a série apresentava diversos buracos de roteiro, faltava substância para tanta referência, reforçava padrões de gênero negativos. Tudo isso podia ser resumido em um único problema: saudosismo demais prejudicou personagens e estrutura da história.

Infelizmente, e apesar de melhorar em alguns poucos pontos, a segunda temporada de Stranger Things sofre dos mesmos problemas da primeira, mas sem tantos elementos “cool” para disfarçar o estrago. Para simplificar as minhas críticas à série, eu resolvi pontuar 5 dos principais problemas e, honestamente, as duas únicas coisas positivas que eu vi na série. Vou começar pelos negativos para pelo menos terminar este texto numa nota positiva.

PONTOS NEGATIVOS

1) Falta substância, falta backstory – falta lore.

O combo Cidade Pequena + Laboratório Militar Secreto + Grande Mistério é uma construção clássica da ficção científica e está muito presente entre diversos filmes da década de 80/90. O imaginário americano sempre gostou de uma teoria da conspiração, seja sobre o assassinado de JFK, seja sobre o pouso do OVNI em Roswell. Tudo isso é ótimo e pode render histórias fantásticas, mas para isso acontecer é preciso construir o mistério – só o combo não se sustenta sozinho.

Uma das coisas mais importantes ao criar uma trama de mistério é não trair o espectador, ou seja, o público e os personagens podem não saber qual é o mistério – mas o criador da história precisa. Se o universo é construído em cima de alicerces fracos (referências, saudosismo e elementos superficialmente “cool”/legais), e se não se entrega qualquer tipo de informação sobre a história por trás do mistério, então o espectador provavelmente vai se sentir traído. Esse é um problema que eu observo em Stranger Things desde a primeira temporada, mas que lá ficou melhor disfarçado por causa do hype e das muitas referências facilmente reconhecíveis.

Do meu ponto de vista, existem dois tipos de possibilidades para a série e seu grande mistério: algo como Fringe (2008), em que a ciência é parte importante para o entendimento do mistério e do universo paralelo, ou como Arquivo X, onde o mistério se estende por longas (e nem sempre tão boas) temporadas, mas sempre entrega elementos substanciais para que o espectador não se sinta traído. Essa sensação vem do fato dos criadores da história saberem ao menos minimamente qual é o grande mistério por trás da sua trama e irem entregando periodicamente pequenas pistas. Um exemplo negativo, e do qual Stranger Things parece estar bem longe, é LOST, quando o excesso de informação sem resultado real acaba fazendo o espectador se sentir traído – os showrunners iam jogando mistérios sem saber qual seria a resolução final deles, e algumas vezes sem nunca realmente fechá-los.

Mesmo sem ser LOST, Stranger Things parece perdido num vazio de substância, tentando buscar significado em referências. A gente não sabe o que é o mostro gigante, mas sabemos que é algo como Cthulhu porque Dustin nos mostra em um livro. Toda a “ciência” por trás do laboratório secreto se resume a uma mesa de botões com luzes piscantes e lança-chamas. Além disso a série cria regras do universo apenas para quebrá-las no próximo episódio. Um exemplo disso é D’Art, o demogorgon-pet do Dustin: numa cena aprendemos que ele não aguenta a luz direta, na outra ele está caminhando em plena luz do sol apenas para, mais tarde, outra pessoa nos dizer que os demogorgons só saem durante a noite. Falta consistência, e falta consistência porque falta conteúdo.

A série deixa muitas perguntas em aberto e, por entregar tão pouco e de maneira tão vazia, deixa a sensação de que nem mesmo os showrunners sabem o que realmente é esse outro lado. Eu sei que muitas perguntas devem ser interpretadas através de metáforas e simbologia, mas quando não há conteúdo o suficiente, o que fica no lugar é um vazio de significado.

2) O laboratório secreto que não sabe o que a palavra SECRETO significa.

Tem câmera de segurança, mas não faz uma revista na bolsa da Nancy.

Este é um problema que é consequência do primeiro tópico. Se não há conteúdo o suficiente para preencher o universo, ficamos com uma casca, um esqueleto vazio de significado e sentido.

Na primeira temporada, o laboratório secreto já se mostrou muito pouco eficiente: Joyce e Hopper entraram escondidos nele com a mesma facilidade com que eu passo pelo portão do meu prédio. Não apareceu um guardinha para perguntar o que eles faziam ali e as câmeras de segurança só os encontraram quando era relevante para a trama. Na segunda temporada, lembrando da falha de segurança que eles tiveram no ano anterior, espera-se que o pessoal do laboratório tenha melhorado nessa coisa de ser um “laboratório secreto”. Mas não.

Nancy, uma garota de 16 anos, consegue se infiltrar lá dentro com um plano simples e relativamente esperto: ela usa um telefone grampeado para marcar um encontro com uma pessoa importante, para quem ela quer revelar informações confidenciais. Já dentro do laboratório, Nancy grava toda a confissão de culpa do responsável pelo local com seu gravador de voz GIGANTE. Não é um daqueles pequenininhos que cabe no bolso, não é um celular porque são os anos 80, é um gravador do tamanho de walkman.

Eu sei que é a década de 80, e que os sistemas de segurança não eram tão avançados como os de hoje em dia, mas uma simples revista nos pertences da adolescente que eles levaram presa porque queria revelar informações sigilosas e extremamente prejudiciais já teria resolvido o problema. A série martela no medo do governo e da população norte-americana dos russos descobrirem segredos de estado, inclusive falando isso para Nancy, mas não se preocupa em olhar dentro da mochila dessa garota tão esperta. Ninguém leu um livro da Nancy Drew quando criança?

Se tem uma coisa que eu tenho certeza é que a equipe deste laboratório está em último lugar no ranking de excelência dentro da agência secreta da qual fazem parte. Eles nunca serão a filial do mês.

3) Padrões e Representação Feminina.

Não tem nada mais empoderador do que maquiagem escura e a palavra “bitchin”.

Na primeira temporada Nancy parecia caminhar para um lugar reservado à Buffy Summers: uma garota “normal” que é forçada a um lugar de ação pelas circunstâncias sobrenaturais a sua volta. Ela perdeu a amiga, ela se sente culpada e vai passar por cima de todos que estão no seu caminho para reencontrar Barbs – mesmo que uma dessas pessoas seja o seu boy magia. Ao final da temporada Nancy termina em casa, com o boy que não é tão magia assim, namorando no sofá. Não é que eu queria que ela terminasse com Jonathan creepy-com-uma-câmara, é que eu esperava mais para ela. Veio a segunda temporada e, novamente, o que poderia ser um arco muito legal sobre uma garota procurando justiça para a amiga se tornou pano de fundo para um romance. Sai Steve, entra Justin. Ao final da temporada, quando Nancy decide deixar Mike para trás para ficar ao lado de Jonathan, os criadores jogaram o drama pessoal de Nancy (não estar presente para possivelmente ajudar a amiga) pela janela. Tendo passado por tudo que ela passou, faria muito mais sentido se ela tivesse ficado ao lado do irmão, ganhando a chance de se auto-redimir. Mas não, porque o que toda garota quer é um boy. Ou pelo menos é isso que a série diz.

Nancy tem Jonathan. Eleven/Jane tem Mike. Joyce tem Bob (e Hopper). Max tem Lucas. Faz sentido que Joyce, vivendo o que ela acredita ser um momento de calmaria na família, tenha encontrado amor. E é ótimo que ela tenha feito isso com um cara realmente legal como Bob. Mas ele não passa de um instrumento de roteiro para que nós tenhamos em Joyce, novamente, o modelo de mulher que pode tudo. Ela não só precisa salvar o filho do controle mental da criatura gigante, ela quer se vingar pelo homem que perdeu. Mas está tudo bem, porque ela tem Hopper ao seu lado. E eu quero acreditar que o relacionamento dos dois nunca vai passar de uma amizade verdadeira, mas a série me faz cada vez mais acreditar que eles estão caminhando os personagens para um romance.

Max é a personagem feminina mais legal dessa nova temporada. Ela anda de skate, joga videogame, não admite ser tratada com desprezo e sabe mostrar interesse por quem trata ela legal: Lucas. Esse relacionamento é, provavelmente, o relacionamento melhor construído da série inteira. E isso provavelmente acontece porque há verdade nas emoções infantis/jovens dos dois personagens. Infelizmente, esse romance também ficou marcado com o triste episódio em que a atriz foi obrigada a fazer uma cena de beijo que não estava acordada antes. E fizeram isso exatamente porque ela ficou desconfortável com a ideia da cena. Mais uma vez homens poderosos tomando decisões para coagir mulheres, só que desta vez coagir uma criança.

Max e Eleven/Jane são um dos pontos mais decepcionantes da série, porque ela parte do princípio de que duas mulheres sempre vão disputar de alguma maneira o espaço dentro de um grupo de homens. Eleven tem automaticamente uma rivalidade contra Max por vê-la conversando com Mike, uma rivalidade que é representada através de violência. Ao conhecer Eleven, Max tenta ser amigável, mas é recebida com rancor. Eu consigo entender que Eleven vinha se sentido excluída do grupo, e que o sentimento de ter sido substituída faria sentido, mas esse rancor é direcionado apenas à Max, a única outra menina do grupo. É só bastante frustrante ver, novamente, um dos tantos estereótipos negativos (e muito oitentista) sobre relacionamentos femininos.

Eleven/Jane sempre foi um ponto forte de discórdia entre eu e o resto da internet. Por mais legal que ela seja na primeira temporada, ao meu ver, ela não passa de uma personagem feminina forte: muito cool, pouca substância. E não é porque ela não tem elementos que podiam ser bem trabalhados, mas porque a série opta por mantê-la dentro do padrão “ela é nossa amiga e ela é louca”.

Na segunda temporada, nós vemos uma tentativa de desenvolver a personagem, com um episódio inteiro dedicado a desvendar o passado de Eleven/Jane. Infelizmente, é um episódio que, apesar de ter Cali e abrir um mundo de possibilidades para as duas irmãs, peca ao criar uma estrutura fraca e ao novamente subjugar Eleven/Jane aos padrões de feminilidade. Mais uma vez a personagem passa por um extreme makeover, só que desta vez ao invés da visão tradicional de menininha (peruca loira e o vestido rosa) entra o visual dark/punk, com gel no cabelo, maquiagem preta nos olhos e atitude “bitchy”.

A adultização da atriz Millie Bobbie Brown vem sendo tema de discussão nas últimas semanas, mas é importante notar que isso também acontece na série. Não só pela escolha do novo “look” da personagem, mas também ao modo como as emoções dela e de Mike são representadas. Isso, no entanto, já cabe dentro do nosso próximo tópico.

4) Crianças que não agem como crianças.

Mike, Eleven/Jane, Dustin, Lucas e Max estão naquele momento entre a infância e a adolescência, um lugar confuso e cheio de sentimentos e emoções que são muito particulares a este período. A primeira temporada da série tentou mostrar que eles, como um grupo, são capazes de funcionar melhor do que os adultos – e até certo ponto isso aconteceu principalmente por eles serem crianças e acreditarem no impossível (porquê eu acho que não funcionou até o final é assunto para outro texto). Na segunda temporada, no entanto, já está estabelecido para os adultos que o outro lado existe, é perigoso e pode matar. Seria de se esperar que os adultos em Stranger Things estivessem mais conscientes dos perigos e mais propensos a manter as crianças afastadas deles. Ledo engano.

A série, e os personagens adultos, parecem esquecer que as crianças são crianças e que os adolescentes são adolescentes. Joyce nem pestaneja ao levar os dois para tentar salvar Hopper das raízes/veias. Joyce e Hopper em momento nenhum pensam em desviar a rota um pouquinho e deixar Mike na casa dos pais deles antes de irem para o laboratório com Will. Não que os pais de Mike e Nancy se importem, já que é piada interna da série eles não saberem onde os filhos estão (o que, pensando na mãe dos dois na primeira temporada, não faz o menor sentido). Ninguém tenta manter as crianças realmente seguras e afastadas do perigo, pelo contrário, elas pegam na mão delas e correm em direção a ele. Eu sei que eles são, no fim, da onde sai grande parte do pseudo conhecimento do outro lado, mas a real é que eles são crianças. Dadas as circunstâncias era de se esperar que alguém se lembraria disso.

Mas a própria narrativa da série não se lembra, porque constrói em Mike e Eleven/Jane um relacionamento que possui sentimentos adultos, não infantis. Não vou mentir, já na primeira temporada eu achei o romance dos dois forçados. Eu sei que o primeiro amor pode ser algo forte, sei toda a carga dramática que existe depois do final da primeira temporada, mas nada no relacionamento desses dois pré-adolescentes diz “pré-adolescentes”. E por mais que eles tenham passado por um momento de crescimento rápido dadas às circunstâncias, ainda assim o arco dos dois, e também os personagens separados, acabam soando como adultos. Que tipo de garoto de 13 anos diz “Eu não quero te perder de novo?” para a namoradinha? Não é uma questão só de palavras, é uma questão de como esse relacionamento foi construído. E eu sei que Eleven/Jane passou por tudo que passou, mas faria mais sentido ver no relacionamento dos dois um comportamento ainda assim mais leve, mesmo que frente as adversidades que enfrentam.

Essa adultização não vem só dos adultos verem os dois como outros adultos, ou das roupas da Eleven/Jane, mas do modo como os sentimentos deles são apresentados na tela. Sim, Eleven é infantil ao ter ciúmes de Max, mas os dois conversam como um casal de adultos. Se colocarmos a relação de Mike e Eleven ao lado da relação de Lucas e Max, a diferença fica ainda mais gritante. Além disso, quando Eleven chora pela mãe, novamente me chamou atenção o modo como a garota chora – do mesmo modo que você esperaria uma mulher adulta chorar. Parece que ao tentar criar dois protagonistas consistentes, a equipe criativa da série esqueceu-se que esses são os protagonistas infantis, que por mais adversidades que eles tenham enfrentados, eles ainda têm apenas 12-13 anos.

5) Os adultos que a série não sabe que são creepies.

Completamente normal e engraçadinho esse creepy.

Logo no primeiro episódio me chamou atenção o modo como Hopper entra em casa, tira o cinto e o coloca sobre a mesa. Sabendo que há uma garota de 13 anos dentro daquela casa, eu não consegui não olhar aquilo com um olhar desconfiado. Eu sei que a série quer me dizer que Hopper está em casa, mesmo que aquela não seja a casa que nós vimos na primeira temporada. E eu sei que Hopper é um dos heróis da série, então ele não vai fazer nada de mal à Eleven/Jane, mas é uma questão de imagem e de simbolismo.

Hopper está tentando ser uma figura paterna para Eleven, um trabalho que não é fácil mesmo quando sua filha não tem superpoderes e não passou os primeiros dez anos de sua vida presa dentro de um laboratório. É de se esperar que seja um processo de adaptação difícil, principalmente se você acredita que a segurança dela está diretamente ligada ao confinamento dela. Mas, quando a série coloca Hopper e Eleven em conflito, ele assume um comportamento agressivo e violento, chegando a esmurrar a porta do quarto da menina. É de se esperar que Eleven se exalte e use seus poderes, porque ela se sente presa e com o comportamento de Hopper provavelmente se sente acuada e com medo. Toda a imagem que essa cena apresenta é de um homem sendo violento e abusivo com Eleven, um paralelo exato (e que a própria Eleven faz mais tarde, mas que a série não discute com profundidade) com o Papa. E por mais que a série esteja tentando me dizer que é apenas um homem tentando ser pai e uma garota tentando ser filha, que é uma briga normal, que é parte importante para que os dois encontrem o meio do caminho ideal para o relacionamento deles, o que a cena me mostra é um adulto gritando e esmurrando a porta de uma garota de 13 anos. Contar uma história não é apenas sobre o que você quer dizer, mas é sobre como você diz.

O outro homem adulto da série que ultrapassa todas as linhas de “creep alert” é Murray Batman, o “detetive” para quem Nancy e Jonathan entregam a gravação. A primeira imagem dele já é a descrição perfeita de um homem creepy: roupão aberto, óculos escuros que mora num buraco com uma alcova secreta. Não contente com tudo isso, ele ainda oferece vodca para menores de idade. Só isso já seria o suficiente para assustar qualquer um, mas, além disso, ele decide ter uma conversa extremamente desconfortável, invasiva e bizarra sobre a vida amorosa e sexual de Nancy e Jonathan – tanto antes, como depois deles passarem a noite juntos. A série sabe que este é um comportamento estranho e inapropriado para um homem adulto em relação a dois adolescentes? Eu acho que não, até porque todo este cenário é construído para tirar risadas, mesmo que nervosas, do espectador. Para terminar, ele ainda presenteia o casal com uma garrafa de vodca. Ah, os anos 80, essa década maravilhosa. (Altas doses de ironia)

Mas nem só de homens com comportamentos perturbadores vive a série, falemos de Karen Wheeler, mãe de Mike e Nancy. Não basta ter sua personagem reduzida consideravelmente ao papel de mãe relapsa que bebe vinho na banheira, o único momento de personagem que ela possui nos nove episódios é ao responder positivamente aos avanços românticos de um menor de idade. Não interessa o quão cretino Billy seja, ele ainda é um adolescente menor de idade. Ele pode ter uma visão perturbada do mundo onde ficar com uma mulher adulta seria maravilhoso, mas Karen não podia responder daquela maneira. Ela já é retratada como uma mulher que recebe pouca ou nenhuma atenção do marido, como uma mãe desinteressada padrão, aí quando vemos ela com sua sexualidade ativa, está direcionada a um menor de idade. Esse tipo de história sustenta o mito de que o garoto amadurece sexualmente mais rápido do que a garota, já que ele está apto a te rum relacionamento sexual com uma mulher adulta. Isso não só sexualiza um adolescente através de um olhar adulto, mas também ignora toda a carga emocional e a relação de poder dentro de um relacionamento entre um adulto e um adolescente, independente dessa relação ser entre um homem e uma garota, ou entre uma mulher e um garoto. Novamente, a série não parece querer discutir isso, já que a cena também é criada para tirar risos do espectador e, mais uma vez, Stranger Things cai no erro por causa do saudosismo, já que até há alguns anos atrás esse tipo de relação era vista como normal.

PONTOS POSITIVOS

1) Steve e as crianças.

Farrah Fawcett.

Steve Harrington, um dos personagens que eu mais detestei da primeira temporada, chegou na segunda para me surpreender. Ele não só é um dos poucos (senão o único) personagem com um arco de desenvolvimento claro e bem estruturado, como também se tornou parte central de um dos elementos mais importantes da trama: as crianças.

Steve começa a temporada tentando fugir de tudo que aconteceu na primeira temporada, ele não quer apenas tentar esquecer o que aconteceu com Barbs – ele quer esquecer tudo e viver uma vida normal. Mas, assim como deveria ser, Steve mora em Hawkins e logo que a história começa a se desenvolver, ele se vê ajudando Dustin, protegendo as outras crianças e tendo que lidar não com um demogorgon como na primeira temporada, mas com múltiplos (quando você ignora seus problemas, eles tendem a acumular). É um arco tão redondinho e tão bem construído que quase não parece acontecer em Stranger Things. Me perdoem, eu estou um pouco amargurada com a série.

Não é que tudo é mil maravilhas com Steve, não. Ele perdeu o seu lugar como “garoto legal” no colégio e, apesar de não parecer preocupado com isso, ainda carrega em si muito da masculinidade tóxica da primeira temporada (deixa a namorada bêbada na festa para outro cara levar para casa, fica colocando na cabeça de Dustin conceitos bizarros sobre o que as garotas querem, etc.). Mas é através do laço que forma com Dustin que ele vai aos poucos se redimindo e se tornando um personagem muito melhor do que na primeira temporada.

Ao tentar ajudar Dustin e ao se tornar responsável pela segurança do grupo de crianças, Steve se torna a única pessoa na série que vê as crianças como o que elas são: crianças. E o relacionamento entre eles funciona tão bem exatamente porque Steve caminha entre ser condescendente (como todo adolescente é quando fala com crianças), protetor e, ao mesmo tempo, tratá-los como iguais. Mas não é uma equidade que faz com que eles também sejam adultos – algo que nem Steve é – mas que faz os laços de amizade e respeito diminuírem o gap geracional que existe entre eles.

2) Max e Lucas.

Se eu tenho todos os problemas do mundo com Mike e Eleven/Jane, eu não poderia estar mais feliz com Max. Além dos atores serem incríveis, o elo que vai se formando entre os dois personagens, um elo de amizade e romance, é compatível com dois pré-adolescentes. Eles falam sobre morte e sobre o perigo da maneira que crianças falariam, eles se aproximam de maneira natural e encontram um no outro um lugar de tranquilidade – sem o peso descomunal de um diálogo adulto.

Lucas quer muito que Max faça parte do grupo, porque ele quer alguém com quem se conectar de verdade e porque ele obviamente desenvolveu um crush pela menina quando a viu andando de skate e jogando videogame. Por mais que isso seja também um estereótipo, eles são crianças, essa visão idealizada faz sentido para ele e logo em seguida é quebrada porque Lucas percebe que Max é mais do que “a garota legal”. A cena em que a família de Lucas está sentada na mesa e ele pergunta ao pai o que fazer é importantíssima, porque a mensagem que fica é que honestidade é sempre o melhor caminho num relacionamento.

Max vem de uma família no mínimo problemática, as únicas referências masculinas que ela tem presentes no seu dia-a-dia são violentas. Em Lucas ela encontra não só um amigo que conversa com ela em pé de igualdade, mas alguém que assim que a encontra, quer lhe acolher. Claro que ela vai ver nele uma figura positiva – porque ele é.

O relacionamento dos dois é natural e soa verossímil porque, apesar de lidar com todos esses temas pesados, (a morte eminente, a família violenta, o possível racismo do meio-irmão de Max, o monstro de outra dimensão querendo destruir tudo) faz isso através da ótica de duas crianças. Diferente de Eleven/Jane e Mike, o relacionamento de Max e Lucas não soa como a história contada do ponto de vista de um adulto, soa como duas crianças se conhecendo, encontrando a amizade e aprendendo sobre amor. E não tem nada mais oitentista do que isso.

Considerações Finais

Eu espero, do fundo do meu coração, que para a terceira temporada, os produtores da série tenham conteúdo o suficiente para apresentar um universo mais coeso e com mais substância. Stranger Things é uma série que me frustra exatamente por ter tanto potencial, mas entregar muito pouco. O pequeno comentário sobre as críticas que a primeira temporada sofreu, feito através de Max ao comentar a história que Lucas lhe conta, mostra que talvez os criadores ainda não estejam preparados para encarar críticas como algo construtivo. Mas fica a esperança.

Para a terceira temporada seria incrível ver mais sobre o outro lado, sobre o monstro gigante e sobre os personagens – que ao meu ver ficaram com o desenvolvimento meio sucateado nesta temporada. Também seria incrível ver a Eleven/Jane romper as amarras de feminilidade nas quais insistem em prendê-la. Ia ser formidável ter um laboratório militar secreto que realmente fosse ameaçador e com sistemas de segurança contundentes. Mas, acima de tudo, seria maravilhoso ver a equipe criativa da série entender que é possível fazer uma homenagem à década de 80 sem cair nos mesmos padrões e estereótipos negativos que foram tão difundidos naquela época.

Até mais! 😉

%d blogueiros gostam disto: