Uns dois anos atrás escrevi sobre o meu episódio favorito de Doctor Who, uma série que tem um espaço/tempo especial no meu coração. Ontem escutei Neil Gaiman falar sobre a série numa podcast e pensei em escrever sobre a série, mas a verdade é que muita da minha empolgação com ela foi embora quando Steven Moffat assumiu. Eu adoro o Matt e gosto muito do Capald – mas meus Doctors são o 10 e o 9. Nessa ordem. Como nunca consegui achar o tempo, e bem honestamente o interesse grande o suficiente, para voltar os 50 anos e assistir tudo numa sentada só, meu episódio favorito fica dentro dos últimos dez anos.

Já que o “novo” Who faz dez anos este ano resolvi recapitular os posts que escrevi comemorando os 50 anos de Doctor Who. Então… Este é o meu episódio favorito de Doctor Who:

Logo de cara eu consigo pensar em alguns como The End of the World, Parting of the Ways, The Girl in the Fireplace, Doomsday, Human Nature e Family of Blood, Planet of the Odds, Turn Left, Waters of Mars, The End of Time, The beast below, The Lodger, The Doctor’s Wife, God Complex, Closing Time, Azylum of The Daleks, The Snowman e Hide. Ufa! Uma listinha talvez um pouco controversa.

Mas vamos lá. O que eu mais gosto nos episódios de Doctor Who? O que me faz sentar e assistir um atrás do outro?

Gosto quando em The Girl in the Fireplace o episódio inteiro é um resumo do que é ser o Doctor e o que é ser uma companion. Na minha opinião é um dos melhores trabalhos de Steven Moffat como escritor de Doctor Who. Você sente não só a dor de Reinette por precisar esperar pelo Doctor e nunca mais encontrá-lo, mas a dor do Doctor ao se dar conta de que ele é sim apenas aquela pequena parte na vida de alguém, que apesar de queimar no centro do universo, ele nunca vai poder ter uma companion para todas as suas regenerações. É também um episódio importante para Rose, não por conta do ciúmes, mas por ser também um reflexo do que o seu futuro será. Isso também é bastante evidente em School Reunion, em que Rose conhece Sarah Jane e cobra do Doctor ele nunca ter falado sobre ela. O medo de Rose está personificado na figura da ex-companion que uma vez foi tão importante, mas que terminou esperando pelo Doctor por quase 30 anos.

Sete anos de azar? Não se o David Tennant sair de dentro do espelho.

Gosto quando a “humanidade” do Doctor é posta à prova. Em Human Nature e principalmente em Family of Blood vemos um dos melhores mini-arcos do Doctor, na minha opinião. Ele se torna humano para fugir do inimigo, e acaba tornando-se ele mesmo o inimigo. John Smith, a versão humana do Doctor, vive uma vida normal, é professor e se apaixona. Martha não consegue impedir o impulso mais humano e talvez mais reprimido pelo Doctor: amar. Quando no segundo episódio John Smith precisa dar lugar ao Doctor, sabendo que ele nunca mais vai voltar, que o que o espera é deixar de existir – me corta o coração. O choro desesperado, a tentativa de achar outras soluções, o pavor. Isso tudo é muito mais humano do que o Doctor um dia vai conseguir ser, e é triste e profundo e um reflexo tão grande do que é ser humano. Nós somos constantemente apresentados à companheiros humanos que são corajosos e destemidos, que colocam a própria vida na berlinda para salvar ao universo e ao Doctor. Mas John Smith é humano, e ele tem medo. É Joan quem diz que ele precisa ir, que John Smith precisa fazer a coisa certa. Quando o Doctor aparece novamente e convida a enfermeira para viajar com ele a minha reação foi um misto de esperança e repulsa. O Doctor não é John Smith, e Joan nunca iria se apaixonar pelo Time Lord, algo que ela deixa evidente ao dizer John Smith foi melhor do que o Doctor. Ver a fúria do Time Lord ser causada pela perda da sua humanidade é devastador e incrivelmente tocante.

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Gosto quando o escritor aumenta o leque de possibilidades com elementos que estão bem à nossa frente: The Doctor’s Wife. Há de nascer o dia em que eu não vou gostar de algo que Neil Gaiman escreva. Ele é meu escritor favorito e por isso eu estava extremamente entusiasmada por The Doctor’s Wife. E ele não me decepcionou. Primeiro foi o pedido de socorro de um talvez Time Lord perdido. Toda a animação e a preocupação em como contar para ele que bom, não existem outros Time Lords. Depois dar à Tardis, a companheira mais fiel do Doctor, um corpo humano e fazê-la falar. Chamá-la de Sexy e permitir que os dois conversem e interajam fisicamente é uma das maiores sacadas dessas novas temporadas. Gaiman também equilibra com delicadeza o elemento mágico de suas narrativas à ficção científica de Doctor Who. Tudo nesse episódio grita Neil Gaiman, dos personagens à direção de arte. O maior acerto, ao meu ver, foi dar uma personalidade tridimensional para Tardis. Quando ela ainda está aprendendo à ser humana ela é divertida e quase infantil, um tom bastante similar ao Eleven. Quando chegamos ao cemitério de T.A.R.D.I.S., Sexy fica mais pesarosa. Acho que para muitos de nós a Tardis nunca foi algo vivo, pelo menos não no nível em que ela é agora, então ver suas irmãs e irmãos destroçados no chão ganha uma gravidade ainda maior. Ver o corpo de Sexy morrer e ela voltar à ser parte da nave me fez explodir em lágrimas. O Doctor e sua Tardis. Meio-amargo, bittersweet, como todo grande episódio de Doctor Who é (deveria ser).  

I stole you.

Agora, direto ao ponto.

O meu episódio favorito de Doctor Who é: The End of The World – Episódio 2 da primeira temporada..

Eu não tinha me dado conta disso até pouco tempo atrás. Mas o que eu gosto tanto em The End of The World?

Quando eu estava na quinta-série, durante uma aula de Ciências, eu descobri que um dia, muitos anos no futuro, a Terra ia deixar de existir. Ela ia ser consumida pelo Sol e explodiria. Naquela época a minha própria morte era um conceito pra lá de impossível de imaginar, quem dirá pensar que um dia a Terra inteira irá morrer. Nada mais de países, continentes, nada mais de humanos e animais e oceanos. Essa descoberta é uma das lembranças que mais me marcou quando criança (seguida pela existência do Ornitorrinco. Esse dia foi louco). Um dia o mundo inteiro vai deixar de existir. E muito tempo depois disso, o Universo inteiro. Eu não dormi naquela noite.

Quando assisti ao segundo episódio da primeira temporada, me lembrei automaticamente da sensação que tive naquela aula de Ciências. Enquanto o Doctor tentava impressionar a sua nova companheira, ele falhava em se dar conta de como tudo aquilo iria afetá-la. Rose estava 5 bilhões de anos no futuro, rodeada por alienígenas e assistindo a morte de seu planeta. A cena em que Lady Cassandra aparece é hilária, mas também é profundamente dolorida. Pela interpretação precisa de Billie Piper, vemos Rose se sentir sufocada pelo excesso de informações e novidades em sua vida. Mesmo atordoada, Rose ainda sim é educada com uma encanadora alienígena e, enquanto conversam Rose se dá conta de que não conhece o Doctor, e que talvez isso tudo seja demais para ela. Aqui é revelada uma característica de personalidade muito importante de Rose, ela é gentil. Principalmente com o Nono Doctor, Rose está constantemente puxando dele um lado mais humano, conseguindo sentir compaixão até mesmo por Cassandra, quando ela está ressecando e prestes a morrer, no final do episódio.

Doctor zuão.

Em determinado momento Rose confronta o Doctor sobre quem ele é, mas o Doctor diz que o importante é quem ele é naquele momento, não de onde veio – ela não vai saber onde o planeta fica, de qualquer maneira. Diante do comportamento agressivo e arrogante do Doctor, Rose se revolta e os dois acabam brigando. O Doctor parece não conseguir perceber os questionamentos e aflições que rodeiam a mente de Rose (como o fato de que 5 bilhões de anos no futuro sua mãe já estará morta). Para um Time Lord talvez essas preocupações sejam um tanto pequenas frente à imensidão do tempo e do Universo. Enquanto o Doctor flerta e procura a sala de máquinas com a árvore Jabe, Rose têm uma conversinha com o último ser humano, Lady Cassandra. Ela se considera a última humana pura, fato que Rose contesta por causa de suas mudanças físicas. Mais um questionamento é levantado no episódio: O que é ser humano? Que tipo de direito alguém tem de considerar puro? E por que diabos alguém ia querer se considerar puro? O Doctor diz à Rose que os humanos se espalharam pelo universo inteiro, e Cassandra os chamam de mestiços. Rose renega Cassandra.

O episódio brinca também com o choque inicial de Rose para mostrar que apesar de raças diferentes, todos os aliens também são considerados pessoas pelo Doctor e, no final, por Rose também. Ser azul, ser só uma cabeça ou ser uma árvore não tira dos personagens nenhum tipo de atributo que possa considerá-los pessoas. Eles pensam e tomam decisões, logo são pessoas providas de vida, direitos e dignas de compaixão. Compaixão essa que o Doctor renega à Cassandra, mesmo depois de Rose apelar para que ele a ajude. Tudo tem um fim, e tudo morre.

Quando o Doctor leva uma confusa Rose de volta à 2005 e eles observam as pessoas irem e virem sem nenhum tipo de preocupação com 5 bilhões de anos no futuro, o Doctor divide com Rose sua origem. Ele conta que seu planeta também explodiu, só pedras e poeira. Ele é último dos Time Lords. Rose diz que ele não está sozinho. Apesar de Gallifrey ter deixado de existir muito antes do seu tempo, o Doctor e Rose formam um elo pelo sentimento que eles dividem – terem visto toda a vida de seu planeta explodir.

Gosto tanto desse episódio por que ele lida com medos meus que me parecem tão primários. É uma relação estranha e muito similar à que tive com o final da terceira temporada. Em Utopia, quando o universo está se apagando e os últimos humanos estão procurando por um lugar de segurança, uma esperança. Nesse episódio surge novamente a pergunta sobre o que é ser humano, em que ponto perdemos nossa humanidade, em que momento a nossa sobrevivência atinge o nível do canibalismo – matar o outro para que possamos sobreviver. Depois, em Last of the Time Lords, quando nos damos conta de que os Teclofanes são, na realidade, os humanos que nunca encontraram Utopia senti como se uma facada atingisse meu baço. A última esperança dos humanos era falsa, era vazia e isso fez com que eles enlouqueçam. Esse arco de três episódios só não é o meu favorito por que The End of The World foi o episódio que realmente me fez querer ver Doctor, por que foi ele que me apresentou para o ritmo temático da série e por que foi a primeira vez que um episódio de televisão me fez tocar em um medo tão profundo e primário.

Existem episódios em que a história, do ponto de vista narrativo, funciona muito melhor. Como os que falei antes Girl in The Fireplace, Human Nature e The Doctor’s Wife. Mas é The End of The World que mexeu comigo, talvez por ter sido o episódio que realmente me fez querer continuar a assistir à série, talvez por ter exatamente aquilo que gosto tanto no programa: um assunto gigante tratado com delicadeza e sensibilidade. A maior vitória da série, na minha opinião, é conseguir discutir esse tipo de questão humana sem ficar piegas e chato, é transformar a discussão sobre o que é ser humano, igualdade racial e a morte em entretenimento de qualidade, de uma maneira divertida e tocante. É sci-fi na sua melhor forma.

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