[Altos Spoilers]

Eu sei que eu não sou o público alvo de Deadpool, eu sabia disso desde antes de entrar no filme, e eu não tinha expectativas quanto à qualidade do filme, à atuação de Ryan Reynolds ou qualquer outro elemento da adaptação – mas também não esperava tão pouco.

Durante os créditos engraçadinhos do filme os roteiristas são creditados como “os verdadeiros heróis”. Hum, olha. Depende. Se eles tiveram que cortar muitas coisas essenciais para que o filme não parecesse a bagunça que ele é, sim. É realmente de cortar o coração quando o roteiro é despedaçado porque o orçamento não permite ou porque o estúdio resolveu meter o bedelho (olá, Quarteto Fantástico). Se não for esse o caso os roteiristas estão bem longe de serem heróis de qualquer coisa.

Com uma história para lá de clichê “homem precisa salvar ex-namorada e exercer vingança contra o vilão que o fez mal”, o sopro de inovação que aparece vem apenas do fato do herói ser, na verdade, um mercenário e não o seu tradicional bom mocinho estilo Capitão América. Mesmo isso me faz questionar se é inovação mesmo, porque já tivemos 3 filmes da franquia Os Mercenários, teve Velozes e Furiosos, teve Domino, O Profissional… Hollywood adora transformar mercenários em heróis. Sim, esse é o primeiro filme de quadrinho em que o mercenário é o herói da história mas infelizmente só isso não é o suficiente.

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Com personagens que não passam de estereótipos mal construídos, Deadpool parece ignorar a própria premissa de ser “diferente” dos outros filmes. Colossus, que existem para servir como uma possível consciência para Wade desprezar, é apenas um CGI mal feito do Colossus dos quadrinhos, ele serve apenas para mostrar que escrever um personagem que é essencialmente bom pode ser bem feito, como o Finn de Star Wars, ou mal feito e reduzido à um bonachão abobalhado. Sobre Negasonic Teenage Warhead não tem o que dizer. O próprio Deadpool a define no filme como uma adolescente apática que não se importa com nada, e a trama não faz questão de ir além disso em momento nenhum. A verdade é que o roteiro despeja ela e Colossus na história e do mesmo jeito que eles são jogados, eles são retirados. Se eles nunca tivessem sido introduzidos o roteiro do filme ganharia alguma coerência. O mesmo acontece com a personagem da lutadora Gina Carrano, Angel, que existe apenas para que Wade possa alcançar o fósforo que ela por razão que não importa para o filme, fica mastigando na primeira metade da história (o fósforo desaparece depois de perder a utilidade). Qualquer um dos três personagens são absolutamente inúteis para a trama, para o desenvolvimento (?) do personagem central, para a narrativa.

O filme possui ainda dois personagens menores Dopinder, o motorista indiano (óbvio) do Taxi, e Blind Al, a idosa negra boca-suja com quem Wade divide a casa depois que se torna Deadpool. Blind Al é apenas uma figura engraçada na forma de uma idosa durona que sente saudade de cocaína, ela é também a única personagem negra do filme e há de se problematizar uma representação assim. Os dois personagens que incluem um pouco de ~diversidade~ no filme são tão profundos quanto qualquer outro, mas a mensagem de Dopinder é a pior de todas: se a mulher por quem você é apaixonado não é apaixonada por você, sequestre e mate o homem por quem ela é apaixonada e depois a sequestre até que ela goste de você. É muito difícil defender Deadpool.

Mas a pior de todas as personagens com certeza é Vanessa. Eu adoro a Morena Baccarin, acompanho a carreira dela desde Firefly, e ela consegue deixar uma personagem com nenhum tipo de consistência interessante. Vanessa é tão a “cool girl” que dá pra fazer um checklist:

  • Brincalhona Boca Suja (A pior cena de romance já escrita inclui piadas com pedofilia e abuso infantil)
  • Puta (Ela é prostituta e o filme faz questão de frisar o quão “louca” ela é na cama”)
  • Santa (Namorada ideal que cuida de seu homem mesmo ele doente terminal, e o perdoa apesar dele ter sido responsável direto por sua quase morte por asfixia)
  • Virou Nerd pelo seu homem (A piada com Star Wars é a cereja que faltava no bolo da Cool Girl)
  • Donzela em Perigo (Sim, num filme tão cheio de clichês ela ser usada como donzela em perigo nem é tão surpreendente assim.)
Olha, gente. Ela fez suco verde pra ele <3

Olha, gente. Ela fez suco verde pra ele <3

Vanessa, que nos quadrinhos é uma mutante capaz de mudar de aparência (inclusive já tendo se passado por Deadpool), no filme virou a namorada “cool” do personagem. Além de ser, de certa maneira, uma bela mandada para a geladeira na personagem (ela tendo sido diminuída para não tirar espaço do protagonista) o filme não para por aí nos estereótipos e a COLOCA NUM TUBO. Se você não sabe, ficção científica e mulheres em tubos IS A THING. Vanessa não é só a donzela em perigo, ela é a donzela em perigo dentro de um tubo de vidro. Com uma atriz tão interessante como Morena Baccarin no papel, é deprimente que uma personagem com potencial tenha sido reduzida à uma cool girl sem qualquer desenvolvimento

Não é que o filme seja horroroso, eu ri e em momentos me diverti no cinema. Algumas piadas são inteligentes, com auto-referências tanto ao personagem quanto ao universo Marvel da Fox. Essas são, pra mim, as melhores piadas e o ponto forte do filme. Talvez a minha decepção, se é que eu esperava alguma coisa, venha do potencial que não é aproveitado. À cada trinta segundos sai uma piada homofóbica, transfóbica ou machista e mesmo quando eles estão tentando não ser, a piada não consegue ir além, e por mais que você me diga “mas o personagem é isso mesmo”, continua sendo insuficiente. Um filme que pretende ser transgressor fica nas piadas que seus parentes fazem durante a ceia de Natal e te deixam desconfortável. Quais são as piadas que a sociedade acha aceitável? As que caem em cima de minorias e é exatamente isso que Deadpool faz.

Na sequência de sexo do filme, quando eles chegam no “Dia internacional da Mulher”, o filme deixa bem evidente que Vanessa faz sexo anal EM Wade. Isso poderia ser uma maneira de quebrar o espectador preconceituoso, que está rindo de todas as piadas homofóbicas do filme até alí, mostrando Wade tendo prazer, mas não é o acontece. Wade não gosta. OU SEJA, o único momento cômico que poderia cair em cima do espectador “padrão” de Deadpool não funciona e, na minha opinião, rejeita inclusive a questão do personagem ser bissexual/pansexual. Ao que tudo indica a sexualidade do personagem será melhor explorada no próximo filme, espero de verdade que seja feita de uma maneira positiva.

Dentre todas as piadas em Deadpool a que mais me deixou desconfortável, para dizer o mínimo, foi a sequência que deveria ser o momento em que Wade e Vanessa se conhecem e se conectam. Eles entram numa disputa para saber qual dos dois tinha a pior história de vida. Infelizmente a cena que poderia ser divertida descarrilha para piadas sem fim com pedofilia e abuso sexual infantil. É pra lá de desconfortante, e extremamente desnecessária. Nada para mim justifica fazer piada com abuso sexual infantil, principalmente num filme tão cheio de piadas ofensivas, e usá-las no momento em que o casal central do filme se conhece pode parecer uma maneira de mostrar que esses dois personagens não são seus heróis padrão, mas não. Só faz deles dois imbecis mesmo.

IF

O filme possui apenas duas cenas de ação, talvez uma indicação do baixo orçamento da produção, e a primeira delas além de ser uma refilmagem aprimorada do teste de cena vazado anos atrás, é entrecortada de forma estranha com flashbacks que contam como Wade se transformou em DeadPool, se alongando por quase metade do tempo do filme. A cena é divertida, Wade conta as balas que gasta e tudo mais, mas esse picadinho de informação, que aproveita e também joga a mansão Xavier no meio, cansa. Talvez uma edição mais linear, mantendo obviamente a quebra da quarta parede, tivesse ajudado a narrativa do filme, já que o tempo dele, quantos anos se passam ou não entre um evento e outro, tivesse ficado mais evidentes. Wade é submetido à fábrica de construção de mutantes e torturado, mas a edição não nos diz se por uma semana, alguns meses ou dois anos. A única dica disso que temos é já nos minutos finais do filme, quando Wade diz que “foram uns anos difíceis” ao se explicar para Vanessa. A fábrica de mutantes, aliás, teria sido uma maneira muito mais orgânica de introduzir os X-Men na história porque bom, eles são mutantes, faz sentido que eles estivessem investigando esse tipo de operação. Uma observação que me fizeram sobre as cenas de ação de Deadpool e que faz muito sentido é que tudo que Deadpool faz e parece inovador, Kick-Ass fez melhor em 2010.

Eu não vou dizer que Deadpool não é um filme engraçado, como eu mesma disse lá em cima, algumas piadas são boas e o clima geral do filme é de comédia. Mas também não consigo não sentir que o filme, e o próprio personagem, tinham potencial para ir além das piadinhas pubescestes e homofóbicas de jantar de família. Acho que para um filme e um personagem que se dispõe à ser mais, a escolha do elemento transgressor foi, pra mim, bastante tradicional. Deadpool pode não ser Capitão América, mas também não é tão inovador como se anuncia.

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