Essa semana o mundo dos quadrinhos foi pego de surpresa pelo anúncio do desligamento de Shelly Bond do selo Vertido, da DC Comics. Shelly, que era Vice presidente e Editora Executiva do selo, tinha um longo histórico  de trabalho dentro da casa e é muito respeitada por seu trabalho pelo mundo dos quadrinhos de maneira geral. De acordo com a DC, a demissão de Shelly tem a ver com a reestruturação dentro da empresa que eliminou o cargo antes ocupado por Shelly.

A comunidade de quadrinhos americana não recebeu bem a notícia, já que a demissão pode indicar uma descaracterização ainda maior do selo que já foi o ponto alto da DC. Logo após a demissão da criadora do selo Vertigo Karen Berger, Constantine, personagem que por muitos anos foi a base do selo direcionado à um público mais maduro, foi usado como peça central no evento Novos 52. Enquanto algumas pessoas viram isso como algo positivo, os fãs mais fervorosos da Vertido sentiram-se traídos.

O quadrinista Ryan Kelly comentou:

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Não estou feliz. Nem um pouco. Alguém sabe o porque.

Fatores sobre a indústria dos quadrinhos que me deixavam triste , só me deixam com raiva agora. Eu vou direto para a raiva.

Fatores sobre a indústria dos quadrinhos que me deixavam triste , só me deixam com raiva agora. Eu vou direto para a raiva.

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Shelly me ligou hoje. Porque? Porque ela é a melhor. O que eu digo sobre a melhor editora que eu já tive? Ela é a melhor.

Mas em meio à discussão sobre a saída de Shelly Bond, uma das poucas mulheres à ocupar lugares de destaque dentro das maiores empresas de quadrinhos norte-americanas, veio a tona uma discussão que há tempos habita o universo editorial da DC e que é abafada pelo mesmo. Enquanto a DC se reestrutura e demite uma mulher como Shelly, a mesma reestruturação parece manter novamente um nome, em especial, que tem histórico de assédio e abuso.

Jennifer de Guzman, do Comics Aliance. 

Enquanto isso, se você tem múltiplas reclamações de assédio sexual contra você na DC e é um homem, sem problemas!

Enquanto isso, se você tem múltiplas reclamações de assédio sexual contra você na DC e é um homem, sem problemas!

A primeira vez que li sobre essa história foi ano passado, num post no tumblr da roteirista de quadrinhos Alex de Campi. Alex, que escreveu dentro outros títulos uma história em duas partes da Mulher Maravilha, relatou que diversas fontes haviam lhe dito que a razão para o escritório do Superman, dentro da DC, ter apenas homens trabalhando era porque um dos Editores Sêniors tem um histórico de assédio.

Alex escreveu:

“A revista principal da Mulher-Maravilha é parte do escritório de Superman. Aparentemente esse escritório não emprega nenhuma mulher, e os nomes nos diversos títulos de Superman e Mulher-Maravilha parecem confirmar isso. A razão, pelo que me disseram diversas pessoas que trabalham ou trabalharam na DC, é que um dos Editores Sêniors do escritório é um assediador com múltiplos incidentes reportados ao RH. Eu não digo “supostamente” nesse caso porque pelo menos um incidente (agarrar os seios de uma mulher) aconteceu em público durante um encontro de trabalho com múltiplas testemunhas presentes. (…) Eu não sei dizer se a regra nenhuma-garota-no-superman é uma preferência do assediador, ou se é o RH cruzando os dedos e pedindo à Jesus que eles não recebam um processo tão grande que poderia ser visto do espaço.”

De acordo com Alex, esse Editor Sênior sobreviveu à mudança da DC pra a Califórnia e, ao que tudo indica, sobreviveu novamente à reestruturação que demitiu Shelly Bond. Quando a DC soltou o release contando sobre a demissão de Shelly, alguns jornalistas e quadrinistas foram ao twitter comentar o ocorrido e o nome do editor foi revelado pelo jornalista Nick Hanover.

Eddie Berganza continua sobrevivendo às reestruturações da DC (exceto reestruturação que o mantém dentro de uma quarentena apenas masculina)

Eddie Berganza continua sobrevivendo às reestruturações da DC (exceto reestruturação que o mantém dentro de uma quarentena apenas masculina)

Eu vejo muitas pessoas falando sobre o assediador serial da DC e eu acho que, coletivamente, a gente precisa começar a falar Eddie Berganza. Se o suficiente de nós que sabemos desse segredo em aberto falar em público que Eddie Berganza é um assediador seria, vai ser mais difícil silenciar. Não é nem algo que a equipe da DC mantém muito silêncio. Editores lá dentro vão lhe dizer abertamente sobre Eddie Berganza quando perguntados.

Eu vejo muitas pessoas falando sobre o assediador serial da DC e eu acho que, coletivamente, a gente precisa começar a falar Eddie Berganza. Se o suficiente de nós que sabemos desse segredo em aberto falar em público que Eddie Berganza é um assediador seria, vai ser mais difícil silenciar. Não é nem algo que a equipe da DC mantém muito silêncio. Editores lá dentro vão lhe dizer abertamente sobre Eddie Berganza quando perguntados.

Eddie Berganza, que hoje é editor sênior dos títulos do Superman, foi destituído do cargo de Diretor Executivo alguns anos atrás mas foi mantido dentro da DC, em um cargo de menor alcance. Na época o Bleeding Cool news reportou que talvez esse rebaixamento poderia estar ligado à um caso de assédio em público que teria ocorrido durante a convenção WonderCon, ainda em 2012. Eles inclusive mandaram uma indireta. Oito meses depois, o mesmo site anunciou que Berganza estaria assumindo o posto de editor sênior de Superman. Ou seja, o rebaixamento aconteceu apenas para deixar a poeira baixar.

Fazendo volume às acusações públicas contra Eddie Berganza, a editora de quadrinhos indicada ao Eisner, Janelle Asselin, fez umas séries de twittes.

É tarde e não me importo, então sim, o fato da DC conseguir razões para demitir Shelly Bond e razões para manter Berganza empregado é lixo.

É tarde e não me importo, então sim, o fato da DC conseguir razões para demitir Shelly Bond e razões para manter Berganza empregado é lixo.

Eu fui uma das muitas que reportaram Eddie Barganza em 2011. Eu saí da DC porque eles o promoveram mesmo assim.

Eu fui uma das muitas que reportaram Eddie Barganza em 2011. Eu saí da DC porque eles o promoveram mesmo assim.

Eu tenho amigas com stress pós-traumático por causa de Berganza e pessoas como ele. Mas sim, vamos demitir as Shellys do mundo.

Eu tenho amigas com stress pós-traumático por causa de Berganza e pessoas como ele. Mas sim, vamos demitir as Shellys do mundo.

Mas além da DC demitir Shelly, eles afastaram tantas mulheres que teriam ficado se Eddie não estivesse al. Então. Eles fizeram a própria cama.

Mas além da DC demitir Shelly, eles afastaram tantas mulheres que teriam ficado se Eddie não estivesse al. Então. Eles fizeram a própria cama.

Adendo: Se outras pessoas tivessem falando sobre isso, eu teria reportado à muito tempo. Suas vitimas querem paz, não uma caça às bruxas.

Adendo: Se outras pessoas tivessem falando sobre isso, eu teria reportado há muito tempo. Suas vitimas querem paz, não uma caça às bruxas.

Além de ser extremamente frustrante ver esse tipo de comportamento vindo de uma editora tão grande quanto a DC, é interessante ver como grandes sites e nomes dos quadrinhos parecem se calar frente às acusações. Em seu post, Alex de Campi diz que aparentemente Berganza consegue se manter na DC através de chantagens, o que só deixa toda essa história ainda mais deprimente.

É importante lembrar que as mulheres que, de acordo com Janelle, não querem vir à frente e falar sobre o assunto estão absolutamente dentro do direito delas. Lidar com assédio sexual já é difícil o suficiente, ainda mais quando se está tentando abrir espaço para o seu trabalho e um dos gate keepers é um assediador intocável. aSsim como em qualquer empresa, e assim como dentro da nossa sociedade, a voz da mulher ainda é questionada em cada passo dentro do mundo dos quadrinhos. Não são poucos os casos de editores, autores e desenhistas acusados de assédio tanto por fãs quanto por colegas de trabalho, mas é incrível como poucos deles parecem de fato sofrer alguma consequência.

Enquanto mulheres precisam lidar com stress pós-traumático, e enquanto a editora fecha as portas para mulheres em um escritório que poderia ganhar muito com a participação feminina, um homem conhecido não por seu trabalho mas por seu histórico de assédio continua a ocupar um espaço importante dentro do mundo dos quadrinhos. Aos meus olhos, enquanto a DC continuar empregando Eddie Berganza, o contador “A DC fez algo estúpido hoje?” pode permanecer no zero indefinidamente.

via The Outhouser

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