Quando a nova franquia do Homem-Aranha foi anunciada eu fui uma das primeiras a torcer o nariz: o tão aguardado primeiro filme de super-heroína da Marvel, Capitã Marvel, estava sendo adiado para dar espaço para a TERCEIRA franquia do Homem Aranha em menos de 17 anos. Eu adoro o personagem, mas num mundo dominado por protagonistas masculinos, eu estava mais do que tranquila em não ver a cara do aracnídeo nos próximos anos. Apesar de eu manter a minha indignação pelo adiamento de Capitã Marvel, Homem-Aranha: De Volta ao Lar é um filme que consegue acertar em muitos detalhes – inclusive nos maiores erros do Universo Marvel.

A escalação de Tom Holland como Peter Parker foi talvez um dos grandes acertos do filme, o jovem ator não tem só uma atuação convincente, mas a sua postura corporal também ajuda a vender que aquele moleque pode sim ser um super-herói. Seja o Peter de roupa civil, seja o Peter de Homem-Aranha, Holland consegue entregar com desenvoltura não só as acrobacias mas as nuances dos dramas internos do personagem. O elenco todo, aliás, está cheio de grandes atores e comediantes, mesmo em papéis menores. Donald Glover faz uma participação pequena, mas que promete render bastante no futuro e no desenvolvimento do legado do lançador de teias. 

Muitas pessoas estavam preocupadas com o quão importante o Homem de Ferro seria para a formação de Peter como um super-herói. Por mais que o filme não discuta abertamente o que aconteceu com Tio Ben, eu realmente não acho que dá para dizer que Stark é a razão pela qual Peter se tornou um super-herói. Ele é sim influente na vida do adolescente, e isso além de fazer sentido para o personagem (um garoto fica “amigo” de um dos maiores super-heróis do mundo, óbvio que é “big deal”), também faz sentido para o Universo Cinematográfico da Marvel. Nesse universo os Vingadores já aparecem pela televisão há, pelo menos, sete anos. Seria incoerente fazer um personagem novo que não é influenciado pelos heróis, isso deixaria o filme com o ar de “faz mas não faz parte” que as séries do Netflix e ABC possuem. 

É difícil ver um elenco, mesmo que de coadjuvantes, que tenha tanta diversidade de etnias. Essa adaptação dos personagens para um elenco mais inclusivo permite ao filme entregar papéis que normalmente ficam concentrados em atores e atrizes brancos para atores não-brancos, e pode parecer bobeira para algumas pessoas, mas quantas vezes você viu uma garota negra como interesse romântico do garoto protagonista do filme adolescente? Quantas vezes atores de origem latina puderam assumir um personagem riquinho e convencido em um filme adolescente? Ah, sim. Tony Revolori é latino, não de ascendência Indiana como muitos acham por causa do seu papel em O Grande Hotel Budapeste. Obviamente nada disso é o suficiente pra gente bater palmas e falar “TA RESOLVIDO”, mas é encorajador ver que existiu de fato um empenho da produção em trazer para a tela uma visão de colegial que reflita melhor o que realmente seria uma escola secundária no Queens, em Nova Iorque. 

O filme bebe bastante dos clássicos dos anos 80, mas parece ter se esquecido de atualizar alguns dos principais erros desses clássicos. Infelizmente, apesar de eu adorar Michelle e todas as possibilidades que o filme abriu para ela e para Liz, Homem-Aranha: De Volta ao Lar não passa nem no teste Bechdel. Nenhuma das personagens conversa entre si durante o filme, ou seja, ele falha já no segundo quesito do teste. Tia May, uma personagem que podia trazer tantos elementos interessantes para uma franquia renovada e mais atual, acaba relegada ao papel de “mãe sexy”, e não no sentido mais positivo do termo. Se você já assistiu ao filme, pode ver o meu outro texto, com spoilers, sobre as personagens femininas do filme. 

Um do pontos fortes do filme é exatamente no arco de Peter. Aqui, Peter está constantemente desafiando o conceito de que ele é só um garoto – ele é mais, ele é o Homem-Aranha, ele é um Vingador. O tipo de ilusão de maturidade que todo adolescente tem, mas que é levado às últimas consequências quando esse adolescente tem o poder de parar um ônibus com as mãos. O conflito interno de Peter não é sobre a dor de ter perdido Tio Ben ou sobre a responsabilidade que ele sente por isso, é sobre ser ou não um adolescente, quando ele mesmo acredita que ele precisa e é mais, mesmo com o mundo dizendo que ele pode ser “só” um adolescente. 

Talvez o maior acerto do filme, em comparação com os outros filmes da Marvel, foi a construção do seu vilão. Abutre (interpretado por Michael Keaton, aka Batman, aka Birdman e a Insustentável leveza de dormir no cinema) passa por um processo de desenvolvimento que pouco se vê hoje em dia nos filmes da Marvel – talvez seja possível compará-lo com Ego, em Guardiões da Galáxia 2. O modo como a história de Peter se descobrindo como herói e como adolescente se cruza com a megalomania de Abutre é interessante, e lança um paralelo entre até onde você pode ir sob o pretexto de responsabilidade, e quando você deve aceitar que as coisas as vezes só são como são. 

Homem-Aranha: De Volta ao Lar é um filme feito para um público jovem, um público que talvez se sentisse alienado com a quantidade de super-heróis que ocupam as telonas hoje em dia. Então sim, talvez você ache que o filme é um pouco infantil, mas isso em nada tira o mérito dele, muito pelo contrário. Em uma era de super-heróis que sofrem e que não tem esperança na humanidade, ver um filme tão redondinho como este chegar aos cinemas e, principalmente, alcançar uma geração que vai crescendo dentro de uma onda de conservadorismo, é esperançoso. Isso tudo não quer dizer que nós, que já não nos encaixamos tanto no padrão “jovem”, não vamos nos divertir. Homem-Aranha: De Volta ao Lar tem espaço para todos os públicos, inclusive para os aficcionados por referências que vão encontrar várias espalhadas pelo filme. 

Review de Representação Feminina
É muito legal ver mulheres não-brancas como personagens importantes dentro de um filme de super-herói.
Eu fui bastante aberta ao consider Tia May e Michelle como personagens importantes. Fiz isso por causa do impacto que elas possuem ou virão a possuir tanto na franquia, quanto na história do personagem de maneira geral.
44%Pontuação geral
Há pelo menos duas personagens femininas?100%
Elas conversam entre si sobre algo que não um homem?0%
Ela(s) é(são) importante(s) para a trama central?33%
Ela(s) é(são) desnecessariamente hiper-sexualizada(s)?33%
Ela(s) é(são) está(ão) presa(s) aos tropos/clichês de personagens femininas?33%
Número de personagens femininas em relação ao número de personagens masculinos.33%
Há diversidade entre as personagens femininas?100%
Participação feminina na equipe criativa central do filme.16%
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