Criar algo não é um trabalho fácil. Receber críticas em cima do trabalho sobre o qual você passou horas, dias, meses ou até mesmo anos debruçado é mais difícil ainda. Uma das primeiras lições que eu aprendi quando comecei a estudar roteiro para TV e Cinema foi: Quebre o seu ego. Para crescer e evoluir como profissional, você precisa escutar e aceitar críticas. Isso não quer dizer que você precisa aceitar absolutamente tudo que lhe disserem, apenas que nós, como criadores e artistas, precisamos estar abertos para críticas. 

Quando a crítica ao nosso trabalho vem associada à questões como estereótipos, construções de narrativas ou personagens não-brancos, femininos, LGBT+ e outras minorias, muitos criadores e artistas começam a perder a linha. Não porque eles sejam Gargaméis que fazem tudo de propósito, mas muitas vezes porque se recusam a aceitar ou se quer ouvir essas críticas, já preparando um discurso defensivo, para justificar ou se eximir de qualquer erro. 

Se você contrata um profissional para lhe dar um feedback, então ele provavelmente virá na forma de um documento apontando os erros e os acertos, ou de uma conversa durante uma reunião. Seus amigos talvez te passem os detalhes numa mesa de bar, mas nem todos os críticos ao seu trabalho vão ser tão educados, e muitos desses críticos vão vir da internet. Poucas coisas são mais temidas do que o holofote do PRECONCEITUOSO dando luz ao seu trabalho. 

Eu vou tocar tanto no tipo de crítica que o criador recebe, como na recepção dessa crítica e como reagir quando esse tipo de crítica acontece – independente de como essa crítica chegará até esse criador.

O Preconceito Intrínseco

O Preconceito Intrínseco Nós vivemos numa sociedade que, historicamente, oprimiu e excluiu pessoas não-brancas, mulheres e outras minorias. Nós não vemos tantos nomes femininos entre cientistas famosos, escritores clássicos ou líderes mundiais por consequência dessa exclusão, já que o acesso à educação e à cultura sempre foi limitado para esses grupos. Ou, quando uma pessoa desses grupos obtinha sucesso, os méritos ficavam com seus colegas homens e brancos. 

Há poucas mulheres na literatura clássica, não porque as mulheres do século XV não queriam escrever, mas porque à maioria delas não possui se quer permissão para aprender. O mesmo com mulheres no ramo da ciência, matemática e outras artes – temos também as vezes em que elas de fato conseguiam sucesso, mas os méritos ficavam apenas com seus colegas homens. Quando falamos sobre outras minorias não-brancas ou LGBT+ fica pior, já que no mundo ocidental branco eles eram tratados como menos do que humanos, ou simplesmente impedidos de existir em liberdade. 

No Brasil, a escravidão foi abolida em 1888, o voto feminino só veio em 1932. Em 1887 a primeira mulher se formou em medicina, mas apenas em 1945 nós tivemos a nossa primeira mulher negra formada em engenharia. Apesar de todos esses marcos, mesmo que tardios, não foi porque eles aconteceram que automaticamente todos passaram a viver com as mesmas oportunidades, e nem mesmo os mesmos direitos. E é nessa sociedade, que ainda exclui e carrega muitos preconceitos, que nós crescemos. 

Por mais que nossos pais se esforcem para que cresçamos com igualdade e sem preconceitos, a sociedade não se preocupa com isso. Quando você toma a decisão de cruzar a rua porque um homem negro de boné vem caminhando na sua direção, você não faz isso porque é um ser desprezível, você faz isso porque você cresceu absorvendo a informação de que homens negros são bandidos, mas isso é racismo. Quando você ri da piada em que o punchline é uma pessoa LGBT+, você não é necessariamente o Gargamel, mas isso é LGBTfobia. Ou quando seu amigo fica “imitando japonês” e começa uma sequência de “pastel de flango” – isso é xenofobia. 

Dito isso tudo: Você pode não ser a pior pessoa do mundo, mas isso não te dá passe livre para não se educar e lidar com as consequências dos erros que você cometeu, mesmo que inconscientemente. 

Preconceitos estão enraizados em todos nós. Mesmo eu, mulher, posso disseminar e endossar comportamentos machistas e misóginos. Mesmo eu, engajada do jeito que sou, posso acabar disseminando e reproduzindo discursos racistas, LGBTfóbios, xenofóbicos sem querer exatamente por não saber reconhecê-los. E é aí que eu volto para questão de quebrar o ego do criador/artista:

Nós precisamos estar abertos para críticas.

Assim como você vai receber críticas se deixar buracos na sua história, ou se errar completamente a perspectiva de um desenho, você também está propenso a receber críticas quanto a representação de minorias. Com os dois tipos de críticas, você tem oportunidades de vê-las como possibilidade de aprendizado e evolução para o seu trabalho como profissional. 

Muitos criadores tendem a jogar as críticas relativas à representação dentro do saco de “críticas negativas”, como se ele não tivesse anda a aprender, como se essas críticas não fossem construtivas. Esse tipo de comportamento acaba impedindo o artista de ir além, de superar a si mesmo e de deixar o trabalho dele melhor e mais completo. 

Novamente: Não é fácil receber críticas, mesmo àquelas que nos são apresentadas com todo o carinho do mundo, mas é parte importante da evolução de um artista. É ainda mais difícil quando essa crítica vem junto de palavras como racismo, machismo, homofobia e etc, mas é aí que fica ainda mais importante estar aberto para elas. 

Quando nos acusam de algo o nosso primeiro instinto é nos defendermos ou tentar nos justificar. Se você é alguém já engajado ou um aliado de alguma causa, então talvez o seu primeiro instinto seja apresentar as suas credências e os seus amigos – isso só fica pior. É muito difícil aceitar que nós podemos estar errados, porque a sociedade como um todo diz que você sempre está certo, porque como artista nós aprendemos que estamos certos. Quando esse erro está ligando você a um comportamento preconceituoso então, todo sistema de defesa começa a apitar descontroladamente. 

Mas, e se ao invés de nos protegermos, nós estivéssemos abertos para realmente escutar essas críticas? E se, ao invés de começar com “Mas eu não/Meu trabalho/ Não foi isso que eu quis”, nós começássemos com “Quais foram os problemas que você viu?” ou talvez até “Essa não era a minha intenção, podemos conversar mais sobre isso?”

Esse processo de parar e escutar, respirar e resistir ao impulso de se justificar logo de cara é um dos processos mais difíceis mas mais necessários quando se quer desconstruir preconceitos que a gente nem sabia que tinha. Escutar o outro, suprimir a nossa vontade de se justificar e depois pesquisar e pensar sobre o assunto. Uma técnica que funciona tanto para a crítica padrão, quanto para a crítica ligada à representação. 

O Crítico Raivoso

Muitas das críticas que você vai receber vão vir da internet. E como a gente sabe, a internet pode ser maravilhosa e terrível ao mesmo tempo. Então sim, muitas das críticas que você vai receber provavelmente não serão entregues em almofadas perfumadas, talvez nem mesmo de maneira minimamente educada – mas isso não quer dizer que você está certo. 

Ninguém gosta de receber xingamento, e no mundo ideal ninguém receberia. No mundo ideal parte das críticas ao seu trabalho não viriam em forma de acusações, ironias ou posts raivosos. No mundo ideal, no entanto, também não haveria razão para que esses críticos estivessem com raiva. É preciso ressaltar uma coisa: críticas raivosas não são a mesma coisa que agressão e assédio. “Espero que você morra” não se encaixa em críticas raivososas, e nem você nem ninguém deveria receber esse tipo de comentário. 

Nós crescemos consumindo majoritariamente uma narrativa branca e escrita por brancos. Sim, existe a Tempestade, o Blade, a Psylock (?) e mais um punhado de outros personagens não-brancos. Mas sejamos sinceros: A imensa maioria das histórias ocidentais que consumimos no cinema, na televisão, nos games, na literatura ou nos quadrinhos é de personagens brancos e majoritariamente masculina. É uma narrativa considerada padrão, na qual todo tipo de pessoa poderia se identificar – uma experiência universal. 

A experiência branca e masculina não é uma experiência universal. 

Uma vida inteira consumindo uma cultura pop em que a imensa maioria de protagonistas, arcos de personagens bem construídos, personalidades interessantes e poderosos eram masculinos. Uma vida inteira vendo personagens femininas, mesmo que protagonistas, sendo escanteadas, diminuídas, donzelas em perigo, desempoderadas, sexualizadas, violentadas e mortas. Chega um momento que cansa, e quando você vê uma obra em 2017 com esse tipo de problemas, é mais do que normal sentir raiva. 

Constantemente recebemos comentários de amigos homens dizendo que a raiva não vai ajudar a passar a mensagem. E eu tento ser o mais didática possível aqui no Collant. Mas, por mais minuciosa que eu seja, eu não posso deixar passar nem um pouco da minha frustração, porque aí eu estou sendo agressiva e automaticamente “perco a razão”.

Só que não, eu não perco. Porque os erros que foram apontados pelos comentários raivosos não deixam de existir só porque eles não foram entregues em uma almofada, ou mesmo de maneira educada. O autor pode colocar o corpo desmembrado da namorada do protagonista dentro de uma geladeira, mas eu não posso ficar com raiva. O autor pode colocar uma mulher negra e nua sendo açoitada, mas pessoas negras não podem ficar com raiva. 

Quando se cria algo é preciso estar aberto às críticas – mesmo às mais duras. E é normal errar, ninguém nasce desconstruído ou bem informado, mas é preciso aprender com os nossos erros. É preciso tentar entender de onde vem a raiva e a revolta do outro, porque há grandes chances que seja exatamente dessa raiz do problema que você vai tirar os maiores aprendizados. Escute o outro, mesmo quando ele está com raiva. Você não precisa abaixar a cabeça e aceitar todo xingamento que receber, mas você precisa saber escutar aquilo que importa, porque infelizmente muitas pessoas estão com raiva do modo como elas são representadas na grande mídia. 

Como eu disse no começo do texto, nós não vivemos numa sociedade que trata todas as pessoas igualmente. E isso se reflete na cultura pop que produzimos. Então quando uma pessoa negra vê um personagem negro sendo usado como pano de fundo para o heroísmo branco, ele sabe o que isso significa dentro da nossa sociedade. Quando uma mulher vê uma personagem feminina sendo usada para idolatrar a figura masculina, ela sabe o que isso significa na nossa sociedade. E por mais que nós, criadores e artistas, possamos não ter tido a intenção, nós podemos sim estar sustentando um sistema de comportamento negativo e abusivo.

Sua Obra Não Existe Dentro de Uma Bolha

Tudo que você cria, se der tudo certo, vai chegar até o público. Seja através de uma distribuidora, uma editora ou do seu trabalho independente. No mundo ideal o seu trabalho vai ser consumido e vai passar a fazer parte do repertório das pessoas que tiveram acesso à ele. Essas pessoas, com seus repertórios, irão integrar a sociedade que a gente vive hoje. Você não é responsável pelo que as pessoas fazem com o repertório que elas adquirem. Mas…

Você é responsável pelo que você cria. 

Como autores, nós precisamos estar conscientes daquilo que colocamos no mundo. Nenhum bom artista cria para o próprio umbigo, nós queremos que aquilo que produzimos atinja alguém, faça o público sentir alguma coisa. Mas esse desejo de alcançar as pessoas nos faz responsáveis pelo que colocamos no mundo. 

Você não é culpado por todo racismo, machismo ou qualquer tipo de preconceito que existe no mundo. Mas a sua obra pode, mesmo que sem a intenção, ajudar a sustentar um sistema que mantém minorias sociais em opressão. A sua não-intenção em nada te livra da responsabilidade que você tem com a sua obra. 

Também não estou dizendo que toda obra de cultura pop precisa ter um subtexto político – eu adoro poder só escapar por algumas horas através de um seriado ou um bom quadrinho. Porém, se a sua obra possui apenas personagens masculinos e brancos, então você está excluindo boa parte da sociedade, limitando o seu potencial criativo e fortalecendo a narrativa de que só o que é branco e masculino importa.

Ou Seja… 

Esteja aberto para críticas, mesmo aquelas que não são muito fáceis de serem escutadas. Mas antes de se defender ou se justificar, antes de se sentir injustiçado, procure escutar e entender a crítica que está sendo feita. Pode ser que o próprio crítico te explique, pode ser que não. Mas em todo caso você sempre pode pegar a informação e ir atrás de conteúdo sobre aquilo – se eduque. Ninguém é obrigado a te educar. 

Mais uma vez: não estou dizendo para aceitar toda agressão online de bom grado – ninguém deveria ser assediado online. Estou dizendo para tentar entender porque o seu trabalho está causando esse tipo de reação nas pessoas. 

Então, da próxima vez que alguém apontar racismo, machismo, Lgbt+fobia ou qualquer tipo de preconceito no seu trabalho, lembrete que as críticas podem fazer de você um artista melhor, mais completo. Lembre-se que você não está sempre certo, que não é porque alguém apontou um erro no seu trabalho que ele te vê como o diabo na terra. Mas, principalmente e acima de tudo, escute, se eduque e aprenda com o erro que você cometeu.

Até mais. 😉  

 

 

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