Oi? Isso é realmente a thing?

Então… David Benioff e D.B. Weiss, os Produtores Executivos de Game Of Thrones, aqueles caras que ainda não conseguiram entender o problema com o modo como eles usam estupro em GoT, já sabem qual vai ser o próximo projeto deles depois que derem adeus à série de fantasia medieval. Se eu ainda mantivesse as colunas “Burn it with fire/It’s a Trap“, essa notícia definitivamente estaria numa delas.

De acordo com o release sobre a série:

Confederate conta a história dos eventos que levam à Terceira Guerra Civil Americana. A série acontece num universo alternativo, onde os estados do sul ganharam a primeira Guerra Civil, dando início à uma nação onde a escravidão continua legal e evoluiu para uma instituição moderna. A história vai seguir um grande grupo de personagens dos dois lados da zona desmilitarizada Mason-Dixon – lutadores pela liberdade, caçadores de escravos, políticos, abolicionistas, jornalistas e executivos de um conglomerado dono de escravos e as famílias de quem eles escravizam.

Em uma declaração, eles falaram sobre a série:

Nós temos discutido Confederate há anos, originalmente era o conceito para um longa. Mas nossas  experiências com Thrones nos convenceu de que ninguém provém um canvas tão grande e melhor para contar uma história do que a HBO. Não vão haver dragões nem White Walkers na série, mas nós estamos criando um mundo, e nós não poderíamos imaginar melhores parceiros para construir esse universo do que  Nichelle e Malcom, que nos impressionaram há muito tempo com sua sagacidade, imaginação e suas habilidades de jogar Scrabble.

Nichelle e Malcom são os outros nomes que vão entrar como Executive Producers em Confederate. Nichelle D. Tramble foi produtora e roteirista de The Good Wife e roteirista de Justified, e Malcom Spellman é o produtor e roteirista de Empire. Por mais que seja positiva a postura de trazer produtores executivos negros numa série que vai retratar escravidão, eu ainda não consigo achar que vai ficar tudo bem.

Tem algumas coisas que podem dar muito errado.

Não está fácil para ninguém, para nenhum país, mas se analisarmos o panorama político-social nos EUA, as coisas não estão legais por lá. Com Trump no poder houve uma escalada da xenofobia, dos crimes de ódios, o problema com o assassinato de pessoas negras por policiais que obviamente vem de muito antes das últimas eleições. Com o racismo sistêmico que os EUA apresenta hoje, uma série em que a escravidão foi legalizada me faz arrepiar. Ainda mais quando ela é comandada pelos dois caras de GoT. As chances dessa série virar um hino para grupos racistas dos EUA é gigante.

Eu não estou apagando a presença dos dois produtores negros, mas eu tive que pesquisar o nome dos dois para ver uma foto, enquanto o rosto que ilustra todas as matérias são de Benioff e Weiss. Não é muito difícil adivinhar do lado de quem o poder vai pender dentro da produção, por mais que The Good Wife e Empire sejam séries ótimas e importantes, GoT é um fenômeno mundial. Ainda mais quando a gente tem uma televisão que, por mais progressista que queira ser, não se importa com uma série de 7 temporadas e elenco majoritariamente branco – sim, John Boyega tem razão.

Então sei lá, eu não consigo ficar animada com a possibilidade.

Um amigo levantou a questão de que a série poderia ser um tipo de Man In High Castle, do Phillip K Dick. Aqui nós temos uma questão que não é polarizada – ninguém é a favor do nazismo, esse é um mal que é tão sedimentado que se alguém fala que é nazista até pessoas racistas viram o rosto. Mas a Guerra Civil americana ainda divide a população americana, muitos estados do sul ainda usam a bandeira dos confederados – ela fica hasteada lá. Entende? As pessoas gritam que são racistas, sem medo. Ninguém sai gritando “Eu sou nazista. Hitler estava certo” pelas ruas, a não ser que seja clinicamente louco. E as pessoas que são nazistas tentam se desligar do nome. Tem grupos de americanos que encenam a guerra civil todos os anos. É um rolê infelizmente cultura pra eles, e é uma questão muito pesada que continua oprimindo grupos minoritários não-brancos, em especial os negros.

**Uma amiga atentou que nem todos os grupos nazistas tentam se dissociar do nome, e infelizmente isso é verdade.**

Eu aposto que a gente vai ter escravos brancos nessa série, porque qual a melhor maneira de mostrar que não é racista? É colocar escravos brancos. Essa inversão de fatores não garante uma discussão abrangente, muito pelo contrário, ela só acaba diminuindo o peso do que foi a escravidão para a população negra – e o que ela continua causando até hoje. Porque sim, a escravidão foi abolida, mas ela continua dando frutos até hoje porque não criaram-se políticas sociais para inserir a população negra de maneira efetiva dentro da sociedade. Até menos de 70 anos atrás, pessoas negras tinham até bebedouros diferentes porque não podiam beber da mesma água que pessoas brancas.

Assistam a 13ª Emenda, da Ava Duvarney no Netflix, vejam não só a herança que a escravidão deixou nos EUA, mas o que o impacto de um filme de 1915 pode causar na sociedade. O Nascimento de Uma Nação fez um estrago gigante no modo como as pessoas negras eram vistas pela sociedade americana – Nada do que a cultura produz existe dentro de uma bolha.

A Ku Kux Klan ainda existe nos EUA, eles ainda saem passeando, se achando incríveis pelas ruas. As pessoas não tem medo de dizer que apoiam a KKK, porque dizem que é uma opinião política, e a liberdade de expressão é garantida pela constituição política americana. Vocês estão conseguindo captar o tamanho do problema?

Isso tudo e eu nem falei o quanto eu já me contorço pensando nos plots de estupro + escravidão que essa série pode trazer. Porque veja só, esses produtores acreditam que personagens mulheres só sabem sofrer se for através da violência sexual. Eu vejo a “fidelidade histórica” sendo usada para justificar plots inteiros onde mulheres escravas são estupradas. Nada disso é uma boa ideia.

Eu não estou dizendo “não façam essa série”, eu estou dizendo que é uma péssima ideia essa série estar nas mãos de Benioff e Weiss. Como sempre que esse tipo de notícia aparece, eu espero de verdade que todos esses meus medos se provem desnecessários. Eu espero, de coração que, já que a série será lançada, que ela traga de verdade uma discussão interessante, um retrato do que os EUA são hoje em relação à esse mundo ficcional.  Infelizmente, as presenças de Tramble e Spellman não conseguem me fazer relaxar, porque depois de sete temporadas de Game of Thrones, qualquer esperança foi embora.

**Este texto foi alterado às 17:54 de 20/07 para incluir informações adicionais.

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