Quando foi anunciado que o Hikaru Sulu da nova franquia de Star Trek é gay a internet foi a loucura. Muitos adoraram a notícia, outros foram homofóbicos (mesmo você que acha que é só uma questão de opinião). As expectativas sobre o filme eram altas e, infelizmente, muita gente saiu um pouco decepcionada do cinema. Sulu tem uma família, mas nós não vemos nem sequer um beijo entre o casal, mesmo depois de um reencontro que o filme indica ser há muito tempo aguardado.

Apesar de eu também ter ficado decepcionada com a falta de coragem de mostrar esse momento de ternura que é tão comumente empregado com casais heterossexuais, o filme utilizou a família de Sulu de uma maneira que eu não me lembro de ter visto outro blockbuster fazer. A família é o nosso ponto de referência emocional para a grande tragédia eminente.

Atenção para Spoilers do filme!

Yorktown é o posto mais avançado da Federação e é, basicamente, um planeta artificial. Uma estrutura metálica pedindo para ser cortada ao meio, como diria McCoy. É lá que a Enterprise faz a sua parada no terceiro dos cinco anos de sua aventura pelo espaço. O Capitão Kirk de

Star Trek: Sem Fronteiras está mais velho e sentindo o peso de passar tanto tempo vagando sem rumo certo pelo espaço. Depois de uma conversa com McCoy sobre como ele está mais velho do que o seu pai, e como ele se sente estagnado, Kirk está praticamente decido a abandonar seu posto de capitão.

Ao chegar em Yorktown Kirk assiste enquanto Sulu é carinhosamente recebido pela sua família. Algumas pessoas acharam que essa cena, em que Kirk olha para Sulu, seu marido e sua filha, seria o modo do filme dizer “tudo bem ele ser gay”. Mas, analisando a construção do Kirk até aqui, o que o filme faz é colocar nessa cena algo do qual Kirk está sentindo falta: uma família, amor e estabilidade. Colocar uma família homoafetiva como o referencial de ideal é, muito provavelmente, algo inédito nos blockbusters americanos. Essas famílias são normalmente ou alívio cômico ou apenas alguém que fica alí no fundo, os pais de algum amigo, se é que estão presentes. Mas para Kirk eles são a representação de tudo que seu pai abriu mão, e de tudo que talvez ele próprio esteja abrindo mão. Não é sobre eles serem um casal gay, é sobre eles serem uma família.

A Enterprise segue viagem para tentar ajudar uma tripulação desaparecida, que acaba se mostrando uma mentira para que Krall, o líder de um grupo local, possa colocar as mãos num artefato que vai ligar uma máquina que pode destruir Yorktown inteira – inclusive os seus habitantes.

E sabe quem a gente conhece que está em Yorktown? A família de Sulu.

sulufamily

A família de Sulu procura proteção quando Yorktown é atacada. (A imagem é do comercial Coreano do filme, por isso a baixa qualidade.)

A mecânica da narrativa aqui é: você estabelece que há pessoas importantes num lugar, quando esse lugar corre risco de ser destruído, é com essas pessoas que o público vai se identificar. É por eles que o público vai querer que os heróis salvem o dia. E essas pessoas são a família do Sulu. Ou seja, apesar de eu querer que a relação amorosa deles ficasse mais próxima da que a série já mostrou até agora com casais heterossexuais (Uhura e Spock), é a família homoafetiva que funciona como a base do coração do filme.

Nós seguimos as aventuras de todos os personagens, mas ao ficarmos sabendo que Yorktown está em perigo, é a presença da família de Sulu que ajuda a nos passar o tamanho do perigo. São eles que ajudam a humanizar aquela estrutura metálica no meio do espaço. E isso é muito, muito legal. Um recurso narrativo tão amplamente utilizado (a família do policial Nova em Guardiões da Galáxia, a família sendo ameaçada por Zod no final de Homem de Aço, Rachel e o garotinho em Batman Begins, etc) mas que consegue tornar o clichê algo maior e passar uma mensagem tão importante.

Star Trek: Sem Fronteiras é de muitas maneiras um filme superior à Além da Escuridão, mas o modo como eles trabalharam narrativamente a família de Hikaru Sulu foi, para mim, uma das grandes sacadas do filme. Ainda há um longo caminho até os blockbusters utilizarem personagens LGBTs da mesma maneira com que utilizam personagens heterossexuais, mas reformular esses clichês narrativos é um caminho que apesar de parecer pequeno, é importante.

Nosso review deve sair até o final da semana, mas você já pode assistir essa belezinha nos cinemas. 😉

  • Disclaimer 1: Eu optei por deixar evidente no título que a família de Sulu é homoafetiva porque isso faz parte do porque é tão legal o modo como ela foi utilizada narrativamente. Mas fica aquele lembrete: família é família. <3
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