Muitas vezes, quando nós começamos essa jornada de escrever e criar nosso próprio conteúdo, acabamos procurando apenas referências internacionais. Óbvio que todo tipo de referência pode ser importante, não há nenhum problema se o seu gosto por histórias nasceu por consumir conteúdos de fora (inclusive é comum), mas às vezes esquecemos de olhar para os autores nacionais.
Jarid Arraes é escritora, cordelista e autora dos livros As Lendas de Dandara e Heroínas Negras Brasileiras. Ela criou o Clube da Escrita Para Mulheres e tem mais de 60 títulos publicados em Literatura de Cordel.
Seu trabalho conquistou inúmeras pessoas e é importante para a literatura nacional. Em seu primeiro livro, resgatou a história de Dandara dos Palmares, misturando fatos históricos com lendas e fantasia. Em seu livro mais recente, ela fala sobre mulheres negras que marcaram a história brasileira, figuras que muitas vezes são esquecidas, mas de muita importância e que precisam ser lembradas. Alguns de seus cordéis infantis são A Menina que Não Queria Ser Princesa e A Bailarina Gorda.
Nós entrevistamos Jarid Arraes, que falou um pouco sobre sua carreira e o seu processo criativo.

Collant: Você tem mais de 60 títulos publicados em Literatura de Cordel. Como que você começou a escrever e da onde veio o seu interesse por esse tipo de literatura?

Jarid Arraes: Comecei a escrever cordel com o a intenção de preservar essa tradição literária e provocar outros públicos para que o cordel entrasse em seus interesses literários. Meu avô e meu pai são cordelistas, cresci lendo cordel e admirando muito toda a técnica, a melodia, então me pareceu muito importante dar continuidade ao cordel na minha família. Quando comecei a escrever, de cara já quis publicar cordéis com temáticas diferentes do mais tradicional, que é tão cheio de machismo, de racismo e outras formas de discriminação. Então meus cordéis são repletos de personagens diversos, de histórias que nos ajudam a pensar sobre questões sociais. Acho que essa é uma forma interessante de juntar a tradição com o novo.

C: Quais referências você diria que mais influenciaram o seu trabalho como escritora?

JA: Eu cresci lendo muita poesia. Até hoje leio muitos, muitos livros de poesia. Então acho que esses poetas que li quando adolescente, como Drummond, Gullar, Leminski, Manuel Bandeira, Neruda, Sylvia Plath, Anne Sexton, etc., são muito marcantes na minha escrita, mesmo quando não estou escrevendo poesia. Outro lado muito importante é que sou muito nerd, sempre gostei de fantasia, especialmente. E por influência da Aline Valek – escritora e ilustradora que é minha amiga e já trabalhou comigo no  meu primeiro livro – eu também descobri a ficção científica muito mais a fundo e de forma muito mais plural. De modo geral, acho que minhas influências partem daquilo que eu curto ler, assistir e escutar. Séries, livros de autores africanos, livros escritos por mulheres, poesia independente, cultural pop e, claro, minhas raízes no Cariri. Acho que junto tudo isso e trago tudo como uma receita.

C: Dandara dos Palmares foi uma figura importante no período colonial do Brasil. Você escreveu As Lendas de Dandara, que conta vários momentos da vida dela. Como é escrever sobre alguém tão importante como Dandara?

JA: Acho que Dandara tem uma aura lendária e mítica que é muito estimulante e inspiradora. Principalmente porque nos falta referências de heroínas negras, sobretudo com um diálogo tão próximo de nós. Então é impactante conhecer a história de uma mulher que liderou guerras contra a escravidão e deixou um legado heróico para a nossa História, mesmo com todas as tentativas de anulação e esquecimento.

Quando eu decidi contar a história de Dandara e preencher as lacunas com uma pegada fantástica, pensei no que eu gostaria de ter lido quando estava descobrindo a literatura e a fantasia como gênero literário. É aquela coisa do “escreva o que você gostaria de ler”. Não existe nada daquele jeito? Então crie. Foi isso que eu fiz. Nesse processo, curei muitas coisas em mim que estavam machucadas pelo racismo, pela ausência de referências de mulheres negras em quem eu pudesse me inspirar. E o fato de tanto adultos quanto crianças se envolverem tanto com As Lendas de Dandara nos mostra que esse processo de cura e descoberta tem se repetido com todas essas pessoas também. É muito lindo.

C: Recentemente, você lançou Heroínas Negras Brasileiras. Como foi o processo de seleção para escolher sobre quais mulheres você escreveria no seu livro?

JA: Eu já tinha publicado 20 cordéis com biografias de mulheres negras que marcaram nossa História. Como os cordéis eram um sucesso enorme, estava na hora de transformá-los em livro, até para oferecer um material físico mais resistente e também pensar num projeto gráfico bonito, ilustrado e bem especial.

Quando falei com a editora sobre a escolha das heroínas, que seriam 15, demos prioridade a diversidade de mulheres negras para que ficasse evidente o quanto o heroísmo das mulheres negras está presente em todos os períodos da nossa história. São heroínas negras de estados diferentes, épocas diferentes, que lutaram em várias frentes distintas. Escritoras, jornalistas, guerreiras, líderes quilombolas… Isso torna o livro mais rico, abre as portas para que todo mundo encontre um ponto de identificação e inspiração.

C: Ao contrário de As Lendas de Dandara, Heroínas Negras Brasileiras foca em várias personagens diferentes. Como foi o processo criativo para escrever esses cordéis? Foi muito diferente dos seus outros trabalhos?

JA: O maior desafio de escrever cordéis biográficos é encaixar fatos reais – como datas, nomes de lugares – na poesia. Porque o cordel exige uma técnica muito precisa com a métrica, as rimas e o ritmo da leitura. Foi um processo que me fez crescer como poeta e cordelista. Agora, quando ensino outras pessoas a escreverem cordel, sei transmitir com muito mais sucesso as dicas que facilitam a escrita, porque eu tive que ralar bastante, hahaha.

Mas é curioso que eu tenha mais dificuldade com a prosa do que com a poesia. Claro que isso deve ao fato de que minha formação literária é toda marcada pela poesia, pelo cordel, então é lógico que eu tenha mais facilidade com esse estilo.

Outra característica interessante é o quanto você precisa aprofundar as personagens. Na prosa, você tem muito mais tempo e espaço pra mostrar as diversas faces de uma personagem. Já o cordel tem outra pegada, você conta a história de um jeito diferente. No fim das contas, os dois me estimulam demais.

C: Um cordel é muito menor do que um romance, mas pode contar uma história tão grande quanto. Qual é a diferença entre escrever os cordéis e um romance? Qual deles acaba sendo um desafio maior pra você, como escritora?

JA: O desafio maior é o romance, com certeza. Até porque eu escrevo muito cordel e muita poesia, então é como se eu já estivesse habituada, meio que no automático, para contar as coisas de uma determinada forma. Aí a prosa vem e bagunça isso tudo.

No momento estou escrevendo alguns contos e é muito perceptível o quanto preciso prestar atenção nos vícios que tenho e são causados pela prática do cordel e da poesia. Ao mesmo tempo, estou sempre conversando com outras amigas escritoras e elas dizem que sentem muito mais dificuldade com a poesia e o cordel do que com a prosa. No fim das contas, sempre digo, sem sombra de dúvidas, que é questão de familiaridade e prática.

Para quem deseja escrever cordel, a dica é praticar bastante a métrica, até mais do que as rimas. Porque a rima você pode fazer com verbos, com terminações mais simples, mas a métrica exige uma espécie de “feeling” que é prática pura. Intimidade.

Também vale ter em mente que o cordel pede mais objetividade, na minha perspectiva. Ele tem uma identidade muito própria, é preciso desenvolver esse relacionamento com o cordel.

C: Para terminar, você poderia indicar um livro que tenha te inspirado de alguma maneira para as nossas leitoras?

JA: Um livro muito inspirador para mim é o Beijos no Chão, da Dani Costa Russo. É um romance que tem vários saltos na narrativa, que muda o tempo e que muda a forma de contar a história. Tem poesia, tem prosa. Acho ainda mais incrível por ser uma publicação independente, um romance de estréia. Tem uma coisa que é meio fantasia também. Acho que une muitas características inspiradoras e atemporais. E de quebra, você ainda apoia o trabalho de uma escritora independente! No site da Dani dá pra comprar facinho www.danicosta.com.br
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