Talvez porque no ano passado eu não assisti nenhum painel, então experiência realmente me faltava, mas eu definitivamente não estava preparada para o que seria a minha sexta-feira na Comic-Con Experience 2015.

Eu só sabia que precisaria chegar bem cedo e não sair do auditório Cinemark se eu quisesse assistir o painel do Netflix, que seria o último do dia. David Tennant, Krysten Ritter do Seriado Jessica Jones e Jaime Claiton, Aml Ameen e Alfoso Herrera de Sense 8 pareciam ser regalos deliciosos o suficiente para os perrenhes que viriam, mas chego a conclusão final de que, ahm, talvez não.

Eu consegui entrar, e não só isso, consegui um bom lugar. Sentei ao lados de meninas que pernoitaram às portas do centro de exposições para garantir a entrada no auditório. Sei de relatos horríveis sobre quem ficou do lado de fora, em filas quilométricas, na esperança de entrar. Empurrões, gritaria, horas de espera para no final serem barrados.

A manhã começou bem, pelo menos. A primeira atração foi o bem-humorado John Rhys-Davies. É sempre prazeroso ver um ator feliz por estar entre seu público. John exalava alegria e gratidão, brincando com as perguntas feitas pelos fãs, andando entre as arquibancadas, as mãos para trás, explicando como o teatro shakesperiano o salvou de uma vida de rebeldia e deliquência. Elogiou os fãs de Senhor dos Anéis, que se dispõem a lerem livros tão grossos como os de Tolkien, declamando “who else got a silly question?” (“quem mais tem uma pergunta tola?”). Encerrou dizendo que se identificava com nosso entusiasmo ao ver celebridades. Diz ele já ter conhecido a realeza inglesa, além de diversos outros atores. Mas ele mesmo se emocionou, de forma real, quando há alguns meses conheceu a elite to time galês de Rugby de 1967, os grandes heróis de sua juventude.

Assim, John Rhys partiu, ao som de aplausos e muita satisfação. Foi nessa hora que me dei conta que precisoinvestir futuramente em uma boa câmera fotográfica. Deu pouco servia meu celular naquela distância e luz. Nem tenho fotos boas para mostrar a vocês.

Eu particularmente comecei a sentir fome, e corri para a única alternativa. Única mesmo: a lanchonete caríssima e abusiva do Cinemark. Paguei por um pacotinho de pães de queijo e chá mate gelado, muito o mais o que pagaria no salão de embarque internacional de Guarulhos. Paciência, vida que segue.

Em seguida, veio o painel da Universal Pictures, sem nada de novo, exclusivo ou especial. Chamo carinhosamente esse painel de painel do apresentador por motivos de: logo após o trailer de World of Warcraft, o apresentador discorreu sobre como ele visitou o set e as montagens estão realmente incríveis. Depois vimos algumas cenas e trailer do filme de terror A Bruxa e o apresentador riu do próprio medo ao ter assistido esse filme no festival de Sundance e como foi uma experiência especial para ele.

O painel seguinte foi com Gerard Way e Fábio Moon, para discutirem a história em quadrinhos que criaram juntos, Umbrella Academy. Vivenciei a vergonha alheia mais forte do dia, quando uma das fãs de Gerard pediu para que ele cantasse. Para quem não sabe (eu entro nesse grupo) Gerard já foi vocalista de uma banda chamada My Chemical Romance. Ele se recusou, para a surpresa de ninguém.

O painel seguinte também foi escasso de novidades. Rickey Purdin, da Marvel Comics comentou sobre o que virá ano que vem pela Marvel e tudo o que já sabíamos, tivemos que fingir que estávamos surpresos. Foi muito chato.

Em seguida, a FOX teve dois painéis. Um para suas animações e outro para os filmes que virão em 2016. O da animações foi bem mais interessante, com a presença do diretores Carlos Saldanha e Steve Martino. Pudemos ver como foi a transição da arte de Charles M. Schulz (criador de Peanuts) para a animação 3D. Steve Martino fez um excelente trabalho explicando com bom humor suas ideias e resultado final. Depois assistimos um curta que já havia sido divulgado na internet com uma aventura do esquilo Scratch no espaço. Depois foi bem mais interessante, com uma cena exclusiva do terceiro filme de Kung Fu Panda. Como verdadeira fã da série, fiquei feliz e me diverti.

No painel da FOX, demos risadas memoráveis com a criação da hashtag #vaileo, após o trailer de O regresso, com data de estreia para 21 de janeiro de 2016 no Brasil. Quem sabe dessa vez, Leonardo diCaprio ganhe o Oscar, depois de lutar com ursos e se arrastar pela neve. Quem sabe. Também tivemos momentos desconfortáveis com o trailer menos aplaudido de todos, como novo filme dos chipmunks. Desnecessariamente, porque não existe uma alma viva com acima de 12 anos que curta isso, pessoas fantasiadas de chipmunks vieram ao palco. Palmas constrangidas podiam ser ouvidas. Produção de eventos da FOX crê que o  público de uma CCXP é o mesmo do que uma creche, não tem outra explicação.

A esse ponto eu já estava dentro do auditório Cinemark havia mais de 4 horas. É impressionante como simplesmente ficar sentado pode ser tão cansativo. Para me mexer, e também porque estava com fome, paguei 17 reais em mais um chá gelado e um cachorro quente composto somente de pão e salsicha. A bebidas estavam quentes. O despreparo da única lanchonete para servir 2500 pessoas era visível.

Então, Frank Miller veio ao palco. Não vou negar que já fui muito fã de Sin City, 300 e Cavaleiro das Trevas. Apesar dos diversos problemas de Miller com suas mensagens xenofóbicas e misóginas, me diverti muito quando conheci sua obra durante minha adolescência. Fiquei satisfeita de tê-lo visto, mas achei cansativo o açúcar que os fãs, quase todos homens, jogaram nele. Frank falava como seu houvessem bolas de lã dentro de sua boca. Queria dar tapinhas nas costas do tradutor simultâneo que escrevia diretamente na tela. Por mais que ele cometesse erros, eram em sua maioria inofensivos.

Jim Lee veio logo depois. Relaxado e alegre, ele falou sobre desenhar quadrinhos, estudar arte e trabalhar para DC e Marvel. Gostei particularmente de algo que ocorreu no final de seu painel. Ele fez um desenho lindíssimo do Batman e pediu para que, sem levantar, retirássemos nossas identidades de nossas carteiras. Quem pudesse provar que era o dia de seu aniversário, ganharia o desenho. Fiquei impressionada pela genial simplicidade da ideia. Não houve sentimento geral de injustiça, ao contrário, o audiotório inteiro puxou um parabéns pra o rapaz escolhido.

Agora faltava pouco, finalmente o painel do Netflix era o próximo. Eu já estava exausta. As jovens sentadas do meu lado, que mal haviam dormido na noite anterior então, nem consigo imaginar.

Então, notícias desencontradas do lado fora, sobre Tennant estar distribuindo autográfos chegaram ao nosso auditório. Vi jovens chorando em desespero, amaldiçoando a organização da CCXP. Mais tarde, soube que Tennant havia somente distrubuído alguns autógrafos para quem estava na fila do lado de fora. Não foi exatamente um meet and greet de última hora.

Enquanto a equipe do Netflix montava o painel, a tensão era sentida no ar. Várias pessoas passaram a se sentar próximas ao palco, o que eu sabia que era uma péssima ideia, e até tentei alertar a alguns mais perto de mim. Alguns fingiam ser do grupo full-experience e se sentavam nas cadeiras reservadas. Claro que foram retirados, com a chegada de seus verdadeiros donos.

O apresentador retornou para apresentar o painel e uma única vez, concordei com a forma como ele agiu. Avisou que não poderiam haver pessoas de pé, nem pessoas sentadas no chão, próximas ao palco, senão o Netflix não permitiria a entrada dos atores. O erro dele foi não avisar de antemão que os atores escolheriam quem faria as perguntas e que não haveria fila lateral ao palco para tal, como havia sido nos outros painéis. E todos pagaram caro por esse erro.

Enquanto esperávamos, o apresentador deu aquela carteirada arrogante do “já estive no lugar de todos vocês, mas em San Diego”, afirmando saber o que é dormir na sarjeta para ver painéis, esperar horas na fila, etc.

O painel começou e vimos com exclusividade cenas dos bastidores de Jessica Jones, do especial sobre Cem Olhos, personagem da série Marco Polo, uma cena de luta entre o Demolidor e o Justiceiro para a 2a temporada da série do herói de Hell’s Kitchen, o novo trailer de O Tigre e o Dragão, ressucitado pelo Netflix. E depois, finalmente, Krysten Ritter e David Tennant vieram ao palco.

Não há palavras para a euforia do público. Tennant estava radiante, assim com Ritter. O apresentador mais uma vez, falou de si e até da namorada, que havia se tornado fã de Jessica Jones. Quando o apresentador disse a a frase “agora as perguntas”, uma multidão se levantou e correu para o palco. E com certeza foi esse acontecimento que assustou a assessoria.

O apresentador alertou que todos deveriam voltar aos seus lugares e assim aconteceu. Oapresentador explicou que Tennant e Ritter escolheriam as pessoas que fariam as perguntas e todos deveriam levantar a mão. A gritaria foi inevitável.

A segunda pessoa a perguntar foi uma jovem pedindo conselhos para seguir a carreira de atriz. Ritter foi a primeira a responder. E quando Tennant segurou seu microfone, o apresentador anunciou que o painel chegara ao fim. Ritter e Tennant ficaram genuinamente surpresos e claramente confusos. Foram retirados à pressas e novamente, muitos levantaram, tentado se aproximar de Tennant, e falharam miseravelmente. O apresentador alertou que se todos não se sentassem, o painel de Sense 8 seria cancelado. Usou palavras como “chateado” e “decepcionado”. As minhas companheiras de painel estavam arrasadas, pois eram parte do grupo que levou a bronca. Choravam e por fim, sairam do painel, sem ficar para o Sense 8. Eu estava mais supresa do que triste.

Comecei a sentir uma irritação, e palavras como “drama” e ‘exagero” vieram à minha mente. É só uma pessoa, pensei, e não vale esse sofrimento. Tennant não é Deus, afinal. Por que sofrer assim? Deixar de curtir o restante das atrações e ir sofrer em algum canto? Por um momento me pareceu um desperdício de energia, e me vi julgando-as, me achando melhores do que elas por não me deixar afetar assim por uma pessoa que nem me conhece. Logo depois, me envergonhei por pensar assim, e tentei imaginar por qual celebridade eu dormiria no chão para conhecer, por quem eu choraria ao ver saindo por um porta lateral após somente dez minutos, por quem eu pagaria um dinheiro que não tinha apenas para estar perto. Lembrei do recado dado por John Rhys naquela mesma manhã. Ele já esteve entre reis e rainhas, mas foi um time de Rugby quem fez seus joelhos tremerem. E creio que J.K Rowling faria muito mais do que meus joelhos tremerem. Se eu tivesse uma luz de esperança de ver J.K Rowling, talvez trocar um “oi” com ela, a ouvir dizer meu nome, talvez eu dormisse no chão fora de um centro de convenções também. Se um dia tiver a oportunidade, conto tudo para vocês.

Nesse poonto eu ja estava faminta novamente, mas indisposta gastar uma fortuna com algo que sei que não me alimentaria proprialmente, Preferi segurar o estômago e esperar o fim da atração.

E por fim, Jaime Claiton, Aml Ameen e Alfoso Herrera adentraram o palco. E uma sequência de acontecimentos maravilhosos ocorreu. Jaime era a mais à vontade, exalando empoderamento, autoestima e amor. Matreira, balançava as pernas, sorria e jogava os cabelos loiros para trás. Falou com orgulho sobre ser trans, interpretar Nomi, uma personagem trans, que é escrita por uma mulher trans, a irmã Waichosky. Ela mesma fez menção às cenas de sexo e orgia do seriado, e ria com vontade. Para ser sincera, a alegria dela me emocionou. Quase chorei ao vê-la tão feliz. Aml também era só sorrisos, e ao final do painel até puxou “One Love” de Bob Marley, que cantamos com entusiasmo. Alfonso era o mais quieto, mas acho que foi por talvez uma leve timidez.

O painel finalmente chegou ao fim. Desnecessariamente, assistimos o trailer da 1a temporada de Sense 8 e estávamos liberados.

Ao sair, conversei com algumas pessoas sobre o que ocorrera do lado de fora, enquanto eu estive imersa por 10 horas em um auditório lotado. Filas infinitas de pessoas que jamais tiveramam a chance de entrar. Informações desencontradas. Brigas nas filas e euforia. Mas alguém trouxe o que era óbvio, apesar de eu não ter me atentado. Não precisa ser assim. Só porque a anarquia reina nos eventos de San Diego e NY, com também filas quilométricas para as atrações, pessoas presas aos panéis que não interessam tanto para ver algo que somente ocorrerá no fim do dia, fias que nunca se moverão e diversos fãs sem poder aproveitar o restante da convenção para garantir uma cadeira em um painel.

Parece haver uma cultura de bullying. Só porque em San Diego a competição e a lei do mais forte impera, não precisa ser assim aqui. A CCXP pode tratar mais humanamente quem dela participa (e a sustenta, detalhe importante). Não é impossível criar uma equipe de logística que torne a seleção para painéis, distribuição de lugares, e definitivamente algo que evite que jovens coloquem sua saúde e integridade física em risco para vivenciar algo especial. Os parques da Disney possuem sistemas eficientes de passes e distribuição de visitantes. Não é tão difícil de repetir aqui.

Não acho que o estresse, a confinação a fome e o cansaço (e não me esforcei nem a metade que outras pessoas) valeu o painel. Não desejo repetir a experiência se o sistema não mudar , porque sei que todos ali merecem um tratamento melhor. Evolua CCXP. Ultrapasse San Diego e NY. Acredito na sua capacidade.

*Adendo: houve sim, uma distribuição de autógrafos por Tennant, assinando posters para as 120 pessoas que haviam participado do jogo de controle da mente, no estande no Netflix.

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