Se o assédio e as ameaças já são tão ruins quando a única conexão que temos com os outros jogadores é o controle, o que vai acontecer quando estivermos imersos na realidade virtual e pudermos tocar os corpos virtuais um dos outros? Parece coisa de Blade Runner ou VR Troopers, mas essas perguntas estão sendo levantadas agora, com a chegada dos óculos de realidade virtual. E isso importa muito porque, como infelizmente é de se esperar, serão as mulheres os principais alvos desses assédios e ameaças.

Durante a sua apresentação no Game Developers Conference 2016, Patrick Harris, da Minority Media (Pop and Yo) levantou um assunto que nos é, infelizmente, muito comum e como ele poderia afetar e acontecer dentro da experiência dos espaços VR (de realidade virtual): o assédio.

Harris é o principal game designer no seu estúdio e eles estão desenvolvendo jogos online multiplayer para VR. Assim como acontece nos jogos online multiplayer tradicionais, o assédio é algo que vai acontecer. Por pior que seja falar isso sobre algo que ainda nem foi lançado, é uma realidade que vai se concretizar e o que precisamos é aprender a lidar e tentar combater esse tipo de assédio. Em uma experiência que propõe a imersão total do jogador é de se esperar que os casos de assédio sejam ainda piores do que os já horríveis casos que temos hoje.

Num ambiente de realidade virtual as ameaças deixam de ser ameaças para se tornarem mais reais e palpáveis, não são só mensagens.

Eles podem se aproximar e tocar o seu peito e a sua virilha. Isso é muito assustador.

Como parte do experimento para entender como o assédio funcionaria dentro do ambiente do VR Harris jogou o protótipo de MMO com uma mulher que não sabia do experimento. O gameplay desse jogo foi mostrado para a audiência da conferência, deixando todos desconfortáveis.

De acordo com Allegra Frank, da Polygon, Harris empurrou a possibilidade de imersão ao seu limite, fazendo gestos obscenos com objetos fálicos, invadindo o espaço pessoal da jogadora, sempre tentando fazê-la se sentir o mais desconfortável possível. Ele conseguiu, o vídeo ficava no jogo e na jogadora. Harris pediu desculpas assim que o jogo acabou, mas a mulher que participou da experiência e foi assediada durante o jogo reportou ter sido uma experiência traumatizante.

Eu fiquei profundamente incomodada com a decisão de colocar uma mulher desavisada num jogo para que ela fosse assediada “em prol da ciência”, por assim dizer. O experimento com certeza vai trazer bons frutos para a tentativa de desenvolver sistemas de proteção para que o ambiente de VR seja o mais seguro e saudável possível, mas também não consigo não imaginar que tudo que se foi alcançado com essa experiência podia ter sido alcançado sem a necessidade de vitimizar alguém.

Ainda de acordo com Allegra, Harris procurou fazer mais do que colocar medo na audiência e, apesar dele admitir que provavelmente não existe uma maneira efetiva de proteger jogadores de todas as maneiras que o assédio no VR podem acontecer, ele sugeriu diversas mecânicas de gameplays para criar medidas preventivas e punitivas para comportamentos predatórios do VR. Uma delas é a criação de linhas de espaço pessoal opcionais, que tornariam oponentes invisíveis assim que fossem cruzadas, melhoria dos meios de reportar o assédio e salvar replay dos incidentes.

“Nós somos as pessoas com o poder para mudar isso. Se nós não mudarmos, quem mudará?”

É importante e interessante que os criadores da tecnologia que vai transformar o modo como MMO’s são jogados estejam preocupados com isso. O assédio dentro desses jogos já são muito grandes, e mesmo que VR ainda seja algo que será limitado à quem tiver acesso aos caros óculos que vão permitir a acessibilidade à tecnologia, ao que tudo indica os jogos estão seguindo num caminho de cada vez mais imersão e acessibilidade. Começar uma discussão sobre assédio e limites antes mesmo da tecnologia chegar ao grande público é uma ótima maneira de transformar um ambiente potencialmente predatório em algo positivo antes que o estrago maior seja feito.

via Polygon

%d blogueiros gostam disto: