Hoje é dia internacional da mulher, um dia que vai muito além das flores e dos chocolates, é o dia para lembrarmos porque lutamos e discutimos todos os dias pelas questões feministas. Uma das coisas que mais falamos aqui no Collant é a questão da representatividade, sempre pedimos mais espaço para mulheres, reais e ficcionais, no mundo nerd, porque sabemos como isso é importante. Todas nós aqui do Collant nos sentimos representadas por alguma personagem ficcional, então nós decidimos fazer uma lista com algumas dessas personagens maravilhosas que mudaram a forma como nós vemos a posição da mulher, o feminismo e a sociedade.

Docinho | Meninas Superpoderosas – Tempestade | X-Men – Elizabeth Bennet | Orgulho e Preconceito (Rafaela Lopes)

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Docinho: marcou minha infância por ser a primeira personagem com a qual me identifiquei em relação à personalidade.
Tempestade: se eu me via na Docinho por causa da personalidade, na Tempestade eu me via na cor. Além de ser uma das personagens mais badass dos HQ’s
Elizabeth Bennet: Orgulho e Preconceito foi meu livro favorito durante toda a adolescência, Elizabeth é rebelde pra uma mulher da sua época. Sem falar que há muita influência da construção das personagens escritas depois dela.

Mulher-Gato | Batman (Maria Celina Gil)

Entendam, Celina é um nome incomum. E quando você é criança, os comentários costumam ser “eu tenho uma tia chamada Celina” ou “nossa, mas é o nome da minha avó”. Não é muito legal. Daí eu descobri Selina Kyle (na época, eu mal sabia escrever e o nome se pronuncia igual). Sério, tem alguma coisa mais legal no mundo do que ter um herói com seu nome? Tem: TER UMA VILÃ COM SEU NOME. A primeira versão da Mulher-Gato que eu tomei contato foi a do Batman Animated (1992). Além de maravilhosa (porque, sim, eu achava e ainda acho a Mulher-Gato uma das personagens mais lindas de todas) ela era divertida e independente – alguém manda nessa mulher? Ela dava altas voltas no Batman quando estava de Mulher-Gato e dava vários xingos em empresários imbecis quando estava de Selina. Eu amava o quanto ela era irônica com todo mundo (antes de eu saber que aquilo chamava ironia) e o quanto ela sempre conseguia fazer tudo dar certo pra ela.  Mas o que eu mais adorava nela é que ao mesmo tempo em que ela era uma ladra de joias, ela também comprava brigas pra salvar animais em extinção. E eu sempre achei incrível que ela fosse meio vilã, meio mocinha. É até hoje uma das minhas personagens favoritas.

Isabela | Dragon Age 2 (Clarice França)

Aposto que ninguém está surpreso por eu ter pego uma personagem de um dos meus jogos favoritos, mas não é só por amar Dragon Age não, é porque a Isabela é muito importante pra mim. Ela é uma mulher negra e bissexual, uma pirata muito conhecida e que conseguiu escapar de um relacionamento abusivo com um homem que foi forçada a se casar. Apesar de parecer seguir a filosofia do “cada um por si”, ela se colocou em perigo para salvar um grupo de escravos e no jogo aparece em vários momentos ajudando seus amigos e pessoas que precisam.

O que mais me atrai na personagem é o quão confiante ela é e a sua autoestima. Eu sou uma pessoa que passei anos me colocando pra baixo e só recentemente comecei a conhecer o tal do amor próprio, mas sempre que eu ficava mal comigo mesma o pensamento “O que Isabela faria?” passou pela minha cabeça. Ela não tem medo de falar sobre sua sexualidade e muitas vezes é julgada por inúmeros personagens, mas quando perguntam se ela não se incomoda com os comentários, ela responde: “Eles não me conhecem, eu me conheço”. A amizade dela com a Merrill, outra personagem do jogo, pra mim sempre mostrou muito a questão da sororidade.

E se você ainda não acha que ela é uma personagem maravilhosa, em certo momento do jogo ela fala sobre como era ser a capitã de um navio cheio de piratas homens e como é difícil conseguir respeito deles sendo mulher, daí ela solta uma frase que vira e mexe eu uso “Você precisa trabalhar o dobro pra ganhar metade do respeito”. Dragon Age tem inúmeras mulheres incríveis, mas quando penso em uma que seja um modelo pra mim, eu penso na Isabela.

Barbara Gordon | Batgirl (Brendda Lima)

Não lembro exatamente se comecei a gostar da Batgirl pela série animada do Batman ou pelo Filme Batman e Robin, mas foi pra descobrir mais sobre ela que eu comecei a ler os quadrinhos do Batman. Algum tempo depois tive um choque quando li a piada mortal e vi que nem mesmo as super heroinas estão livres de serem abusadas por homens. Sinto um aperto no peito toda vez que lembro das cenas.

Mas a Barbara foi mais forte. Mesmo em cadeira de rodas provou que podia continuar lutando contra o crime, como Oráculo. Se recuperou, reassumiu o posto de Batgirl, e protagoniza um dos quadrinhos que mais coloca questões de gênero na narrativa dos Super Herois.  

Lilja | Para Sempre Lilja (Carolina Ferreira)

Quando eu tinha 19 anos, um amigo meu me aconselhou a assistir a um filme chamado Para Sempre Lilja, que, segundo ele, era “muito muito pesado, mas muito bom”. Acabei pegando o filme emprestado com ele e assisti em casa. De fato — era pesado demais. Desculpa dar spoilers, mesmo que o filme já seja um pouco velho, mas em resumo é uma história tristíssima de uma garota russa, abandonada pela mãe aos 16 anos, e que acaba sendo sequestrada e transformada em escrava sexual.  O filme não me marcou pela personagem de Lilja em si, mas por mostrar de forma tão crua a realidade de tantas meninas e mulheres que passam pela mesma situação, praticamente sem nenhuma chance de sair, de levar uma vida normal.

Nessa época, eu já tinha tido alguns momentos de “hmmm, calma, tem alguma coisa errada” em relação à posição da mulher na sociedade, mas tudo de forma muito vaga — minha ideia era simplesmente evitar as coisas que me pareciam injustas, tipo: trabalhar para nunca ser dependente de um marido ou namorado, tomar muito cuidado andando sozinha na rua, correr o mais longe possível de qualquer estereótipo, enfim, essas coisas. Porque as agressões, as injustiças sociais, os estereótipos, e tudo aquilo que faz com que a mulher tenha uma posição secundária e oprimida na sociedade me parecia evitável individualmente. Eu não tinha a mínima ideia da opressão sistêmica; não tinha a mínima ideia de que sim — você pode tentar evitar a opressão individualmente, você pode tentar “não ser como aquelas meninas que…”, mas não vai adiantar nada.

Assistir Para Sempre Lilja foi um primeiro passo para destruir todas essas pré-noções, porque o que acontece com a Lilja é injustificável, horrível, e absurdamente comum. Saí do filme com um sentimento péssimo de impotência por não poder fazer nada por garotas como a Lilja, e com a certeza de que sim, havia algo muito errado na forma em que a sociedade via e tratava mulheres — como se a vida, a saúde e o bem-estar delas fosse menos importante do que o desejo masculino. Acho que foi um momento decisivo para me tornar feminista, alguns anos mais tarde.

Ayla | Os Filhos da Terra (Renata Alvetti)

Aos 16 anos, conheci Ayla, uma menininha cro-magnon de 5 anos vivendo em vales do leste europeu 9.000 anos atrás. Nas primeiras páginas de uma saga de 6 livros, Ayla perde os pais em um terremoto e é encontrada por um grupo de Neanderthais. Ela é mais inteligente, ágil e evoluída que eles. Ela não compreende os papéis sociais extremamente limitantes para mulheres dessa comunidade e sofre muito para se encaixar.

Os livros foram escritos pela socióloga Jean M. Auel e foram essenciais para meu desenvolvimento como mulher. Talvez juntamente com Morgana de Brumas de Avalon, Ayla me ensinou sobre ser uma mulher que deseja e ama sexo, e como isso é natural em todas nós, e como jamais deveria ser condenável. Na saga “Os Filhos da Terra”, eu pude aprender como foi uma sociedade sem a noção de pecado e culpa cristã, e como mais livres era as mulheres por conta disso. Até hoje, tenho uma certa vontade de viver naquela época (ignorando o fato de todos viverem em cavernas, temendo o inverno e sem tomar banho por semanas a fio).

Ayla por si só, é uma mulher fascinante, humana, com falhas, mas extremamente talentosa. Se você conhecer os livros, entenderá quando eu digo: “essa mulher mudou a pré-história”. E mudou minha vida também. Obrigada Ayla.

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