Homem-Aranha: De Volta ao Lar chamou muita atenção quando anunciaram o elenco secundário do filme – nenhum dos amigos ao redor de Peter são brancos, e entre seus professores apenas um deles é um homem branco. E essa diversidade também se refletiu nas personagens femininas – mas nem tudo são flores quando vamos discutir a representação feminina no filme. 

Primeiro é preciso dizer o quão incrível é ver esse elenco tão diverso e apresentado de maneira natural – não tem nada de estranho em uma escola do Queens com a maioria dos alunos não-brancos. O filme tem alguns detalhes escondidos na representação desses personagens que são pequenas pérolas: Principal Morita (o diretor da escola de Peter) é interpretado pelo ator Keneth Choi, que interpretou Jim Morita, companheiro de guerra de Steve Rogers em Capitão América: Primeiro Vingador e em Agents of Shield. A foto de Jim está no escritório do Diretor. A presença da foto, além de fazer uma ligação entre os filmes, levanta também a questão de que a identidade norte-americana (que é muito baseada no militarismo) não é limitada à pessoas brancas – um tópico muito relevante nos EUA dentro do contexto atual. 

Mas voltando às personagens femininas, o filme nos apresenta três figuras principais: Tia May, Liz e Michelle, e a única delas que de fato possui impacto no plot é a Liz. Dizer que Homem-Aranha: De Volta ao Lar não passa no Teste Bechdel não parece ser o suficiente – o filme passa há 20 quilômetros do Teste Bechdel, e ainda entra uma esquina antes. Nenhuma das personagens femininas do filme conversam entre si, ou seja, o filme falha já no segundo quesito do teste. E sim, o Bechdel não é o único parâmetro para representação feminina, mas venhamos e convenhamos que esperar que seu filme tenha personagens femininas que pelo menos conversem entre si não é esperar muito dele. 

Vamos olhar mais de perto cada uma dessas três personagens. Você foi alertada sobre spoilers – siga sobre seu próprio risco! 

Tia May 

Quando Marisa Tomei foi anunciada para o papel de Tia May vieram reclamações de todos os lados: ou ela era nova de mais, ou sexy demais. E eu entendo que a figura que a imensa maioria das pessoas tem da Tia May é a da senhorinha de cabelos brancos, mas particularmente eu achei interessante ver uma Tia May mais nova e que não estivesse presa a uma figura idealizada de maternidade. Infelizmente o filme não aproveita de maneira verdadeiramente interessante o fato de May ser uma representação mais jovem da personagem. 

Ao invés de explorar a sexualidade da personagem de maneira a dar para ela o motor de sua ação, o filme repetidamente a usa para deixar Peter desconfortável com os avanços dos homens ao seu redor. Seria interessante ter essa relação de Peter lidando com uma May que não esconde a sua sexualidade? Sim. Mas não é isso que acontece, a personagem só é objetificada por homens o tempo todo. Além disso tudo, May não possui uma participação mais ativa no plot do filme, e não lhe é dada a possibilidade de existir fora do papel de figura materna de Peter – nós não sabemos nem o que May faz para ganhar dinheiro, por exemplo. 

Liz

Liz (Laura Harrier) foi apresentada já nos trailers como o interesse romântico de Peter no filme, e esse papel se confirma sim, mas é muito interessante ver que a personagem não foi usada para cair dentro do clichê da Donzela em Perigo. Apesar de eu gostar muito dos dois primeiros filmes do Homem-Aranha, do diretor Sam Raimi, Mary Jane (Kirsten Dust) acabava sempre precisando ser resgatada no final. O mesmo acontecia com a Gwen Stacy de Emma Stone, que no último filme foi inclusive enviada para a geladeira. Liz, que é filha do vilão, poderia facilmente ter caído em qualquer um dos principais clichês de interesses românticos de super-heróis, então é muito legal ver que conseguiu-se criar uma história que não precisou vitimar uma personagem feminina dessa maneira. 

Exatamente por Liz ser filha do Abutre (Michael Keaton), a participação da personagem no filme abre portas para que num futuro, quem sabe, tanto pai e filha possam voltar aos filmes do aracnídeo. O Abutre e Peter tem um relacionamento complicado nos quadrinhos, em que o vilão sabe a identidade do aracnídeo mas ainda assim não a revela para seus comparsas criminosos. Quem sabe não vemos Liz retornar assumindo uma figura mais próxima do que o Harry Osborne possui nos quadrinhos, com ela buscando vingança no Homem-Aranha pelo aprisionamento do seu pai. Eu estaria totalmente dentro de ver a transformação de Liz em uma vilã nos próximos filmes. 

Ainda sobre Liz ser filha do Abutre, o fato dela ser uma garota negra provavelmente vai pegar uma parte mais conservadora da audiência de calças curtas com a revelação, e eu acho que os roteiristas (foram seis no total) provavelmente esperavam por isso. O interesse romântico ter algum tipo de ligação com uma figura antagonista ao herói não é exatamente novidade, mas essa pequena “virada” do filme já é o suficiente para mostrar novamente o que eu já havia falado lá em cima: o filme trata a questão da diversidade com naturalidade. Há sim momentos em que o filme faz pequenas alusões à discussões sobre racismo, por exemplo, mas o filme não bate palmas para si mesmo. Não há nada de surpreendente em um casal interracial, surpreendente é ainda se surpreenderem com isso. 

Sobre Liz ainda é interessante notar que apesar dela ser o interesse romântico de Peter, ele não chega a idealizá-la de uma maneira que a objetifica e desumaniza. Na cena da cafeteria, ele e Ned (James Batalon) inclusive se está ficando estranho o tanto que eles olham para ela, mas a verdade é que os dois comentam sobre a roupa que ela usa sem objetificá-la. Liz também é apresentada como uma garota com sonhos, responsável e inteligente – mas esses traços não existem para fazê-la caber dentro de um quadradinho, é possível ver que existe uma personalidade ali. 

Michelle

Eu amo a Michelle (Zendaya), e amo tudo que ela pode se tornar. Muito se especulou sobre qual personagem Zendaya iria interpretar, e a produção sempre fugiu da possibilidade dela ser a M.J., fugiu tanto que deram um nome completamente diferente para a personagem. A revelação de que Michelle é MJ pode soar forçada para alguns, mas eu gosto muito da maneira como a personagem foi introduzida dentro desse universo e de toda as possibilidades que uma nova versão, mais coerente e tridimensional, da personagem pode adicionar para o universo do aracnídeo. 

Eu me recusarei a comentar sobre o fato de Zendaya não ser ruiva, porque cor de cabelo não define personalidade e se os fãs mais chatos chorarem o suficiente eles irão tacar uma tinta laranja no cabelão maravilhoso da atriz. O fato de Zendaya ser negra também só deixa as sequências muito mais interessantes, além de ser uma passo importante para a representação feminina dentro do universo da Marvel, a escolha da atriz para o papel continua com o discurso de trazer diversidade de maneira natural – Michelle não cai dentro dos estereótipos normalmente atribuídos à adolescentes negras. 

A escolha de Zendaya para o papel indica que talvez o filme realmente esteja seguindo uma visão mais Ultimate do que tradicional, isso já era evidenciado pelos personagens que estão ao redor de Peter. Na versão clássica da personagem MJ é uma aspirante a modelo/atriz, algo que para o contexto no qual ela foi criada lá em seus idos anos 60, fazia muito sentido que essa fosse a grande aspiração de uma garota adolescente. Mas estamos em 2017, e há muito material do qual pode-se tirar uma personagem muito mais interessante do que as versões apresentadas até aqui. 

A Marvel sempre teve um problema em criar plots envolvendo MJ que não resultassem em ela ser colocada na posição de donzela em perigo, por mais “pra frente” que MJ fosse ela sempre foi resumida ao interesse romântico de Peter Parker, uma visão idealizada do que a garota dos sonhos de todo garoto deveria ser. Michelle de cara já joga essa expectativa pela janela, ela não se veste como nos quadrinhos, ela não tem as preocupações com estética que a versão tradicional da personagem possuía. O que Michelle possui de similar à MJ mais conhecida é a atitude, mas mesmo com pouco tempo de tela é possível ver que ela vai além do “Go get them, Tiger”. 

Peter sempre foi a figura tímida dentro do relacionamento, apesar de ser um super-herói, Peter mesmo sempre foi inseguro em relação à MJ, e essa dinâmica provavelmente vai se manter num possível relacionamento entre os dois. Apesar de ela estar interessada em Peter muito provavelmente desde o começo, MJ demonstra ser uma garota muito segura de si – algo que a original também era. Mas diferente das suas outras encarnações, o filme em momento nenhum a apresenta como alguém fútil, muito pelo contrário, ela é apresentada como uma jovem inteligente e que está em pé de igualdade com Peter – o que nós provavelmente vamos ver nos próximos dois filmes é a construção de uma amizade se tornando algo mais. 

Eu não tenho nada contra garotas que representam uma figura feminina que se aproxima do que é considerado uma feminilidade ideal, mas MJ é uma personagem que sempre acaba caindo no escopo negativo dessa equação – por incapacidade dos roteiristas mesmo. MJ nunca teve o mesmo espaço para se desenvolver e existir além de seu super-herói como, por exemplo, Lois Lane. Então talvez com uma MJ que, apesar de manter a personalidade confrontativa e segura de si, não caia dentro desses clichês nós tenhamos espaço para uma personagem realmente tridimensional e que exista além do Peter. Ia ser incrível, por exemplo, vê-la como líder da banda Mary Jane como em Spider-Gwen (e quem sabe aí venha também uma Gwen atiradora de teias). 

Conclusão 

Eu gosto muito de todas as possibilidades que Homem-Aranha: De Volta ao Lar abriu para as personagens femininas dentro desse universo, mas não consigo não ficar insatisfeita com o pouco esforço dado para a participação feminina dentro do plot do filme. Novamente nós temos um grupo de vilões em que nenhum deles é uma mulher, e novamente nós temos um filme de super-herói que falha miseravelmente no teste Bechdel – e esse é um teste muito, muito raso. A sensação que fica é que enquanto o filme abre portas muito interessantes para a representação feminina dentro do universo Marvel e Aracnídeo, ainda assim fica o gosto amargo da falta de interação entre as personagens. Mas hey, agora eu vou passar os próximos anos sonhando com Zendaya arrasando nos vocais de uma banda de rock, com Liz voltando como uma super-vilã AND, quem sabe, uma Spider-Gwen pra gente chamar de nossa. ❤️ 

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