O processo de criar um filme é muito similar ao de criar uma HQ. Quando você está escrevendo um roteiro, quando você está pensando em enquadramentos, trabalhando luz, cor e mesmo trilha sonora, tudo que você coloca na tela (ou na página) serve um propósito: contar a história, do seu ponto de vista. Você quer que a sua visão sobre aquele tema/personagem chega aos espectadores/leitores. Tudo que está em quadro importa, e o modo como você mostra isso importa mais ainda.

Personagens femininas são hiper-sexualizadas, é um fato. Seja os uniformes minúsculos, as poses ginecológicas, a anatomia que de tão deformada chega ao ridículo, já vimos de tudo um pouco. Existem, no entanto, maneiras diferentes de isso acontecer, principalmente quando o produto que está fazendo essa sexualização é o cinema ou a televisão. Vou falar sobre dois casos bem diferentes, a Arlequina dos trailers de Esquadrão Suicida, e a Mulher-Maravilha de Batman vs Superman: A Origem da Justiça.

Quando falei sobre as mulheres em BvS, disse que me surpreendi positivamente pois a Mulher-Maravilha não estava sendo sexualizada pela câmera. É verdade que até o mais machista dos nerds sabe que seria um tiro no pé fazer um “ass-shot” da personagem ou deslizar a câmera sobre o seu corpo. Continuo achando que a MM não foi sexualizada pela câmera, mas isso não quer dizer que ela não foi sexualizada.

(Não vou usar gifs da cena da MM porque, além do filme não ter chegado legalmente na internet, eles estariam em péssima qualidade.)

A sexualização da personagem acontece, e eu sei que estou pisando em ovos aqui, com a escolha do uniforme dela. É uma ode ao uniforme mais conhecido da MM, e inclusive acho que esteticamente ele é muito bonito, porém, nada disso diminui o fato de que ele é uma escolha estúpida para uma amazona em pleno 2016. Apesar de se inspirar nas roupas usadas por gregos para a batalha lá em muitos anos A.C., Diana parece ser versada na arte da computação, mas por alguma razão estranha continua optando por um mix de biquini, saia e tomara que caia para a batalha.

Advinha quem está com o corpo mais exposto? Sim! A Mulher! o/ Ironia: Mode On.

Advinha quem está com o corpo mais exposto? Sim! A mulher! o/
Ironia: Mode On.

Mas se a câmera não desliza pelo seu corpo, qual é o problema? Em determinado momento da luta contra Doomsday Diana está com o laço amarrado em volta do monstro. A posição da personagem faz muito sentido, ela apoia as pernas, que estão abertas, numa pedra usando o seu peso para apertar com ainda mais força o laço. Como o uniforme da personagem cobre pouco mais que o extremamente necessário, ao colocar a personagem nessa posição, nos deparamos com mais uma daquelas posições ginecológicas típicas dos quadrinhos. Isso não seria um problema, por exemplo, se ela estivesse usando calças. Uma idéia louca, eu sei.

A questão aqui é: a câmera não sexualiza a personagem, mas seu uniforme sim. Porque mesmo se decidirmos ignorar o quão não prático ele é para batalha, ainda temos cenas com enquadramentos que acabam a sexualizando mesmo que não tenha sido a intenção do diretor. Batman e Superman tem o corpo completamente coberto. O Batman só está com a boca de fora! Mas Diana não, ela está de tomara que caia e micro-saia. Não é uma questão de puritanismo, é uma questão de praticidade e de ver as coisas como elas são: a Mulher-Maravilha só está de saia porque é uma personagem feminina. E porque ela é uma personagem feminina, mesmo quando ela está em batalha, contra um monstro alienígena, ela precisa estar agradável aos olhos masculinos. E não, os músculos do Batman não são a mesma coisa.

Continuando na DC, ontem saiu mais um teaser-trailer de Esquadrão Suicida. Já no último trailer tivemos um ótimo exemplo de como a intenção da câmera e do diretor são capazes de sexualizar uma personagem. Arlequina quebra uma vitrine e rouba uma bolsa. Essa cena podia ter sido filmada de um milhão de maneiras diferentes, mas escolheram colocar a bunda da personagem em destaque. Não é preciso muito para saber que os nerds machistinhas, incapazes de conter a sua punhetice pubesceste, encheram a internet de gifs e memes misóginos.

Yep.

Yep.

Evidentemente.

Evidentemente.

Eis que chega esse novo trailer e nos deparamos com mais um exemplo de como a intenção do diretor de sexualizar uma personagem chega a ser tão evidente que beira o ridículo. Não basta que todas as personagens femininas do filme, com exceção de Amanda Waller, estejam com uniformes que, em diferentes proporções, as sexualizem, o trailer traz a tão tradicional e tão babaca cena em que a câmera corre o corpo da Arlequina.

Fica aqui o meu desprezo por quem fez o gif. E colocou uma marca d'água. ¬¬ 

Fica aqui o meu desprezo por quem fez o gif. E colocou uma marca d’água. ¬¬

No caso de Arlequina não é uma questão de “mas a personagem tem esse traço de personalidade”, porque além de personagem nenhuma escolher a própria roupa, o movimento da câmera também não foi escolhido por ela, mas sim pelo diretor do filme. E ao escolher correr a câmera pelo corpo semi-nu de sua personagem, o diretor assinou o atestado de punhetice, comprometendo assim qualquer tentativa de fazer da personagem um símbolo de libertação feminina.

Ao dizer que existe esse comprometimento eu não estou dizendo que mulheres não possam se identificar e se empoderar com a personagem, é obvio que elas podem. Eu amo a Mulher-Maravilha e o que ela representa, mas isso não quer dizer que não vejo os problemas na sua construção e caracterização. Acredito inclusive que há algo de muito forte em subverter uma personagem sexualizada e tomá-la para si como representação. Mas continua evidente que a intenção do diretor não vai muito além do que diminuir uma personagem que tem tantas nuances que poderiam ser trabalhadas ao fan-service masculino.

Ou seja, Sexualização de personagens femininas acontecem em diferentes níveis e de diferentes maneiras. É um processo que vem desde a escolha do uniforme/figurino dela e vai até o modo como você posiciona a câmera e faz a montagem do filme. Suicide Squad ainda não estreou e ainda vamos ver se vai fazer jus ao hype todo ao redor dele, mas estou mais decepcionada com a maneira como, em pleno 2016, o cinema decide representar uma personagem com tanto potencial quanto a Arlequina.

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