Você deve ter ouvido falar da série “Anne With an E”, disponível na Netflix. A produção, que é de uma emissora canadense, estreou meio tímida, ganhou algumas repercussões, mas voltou ao silêncio. Aí fica aquela pergunta: vale apena assistir?

A série (com seus pequenos defeitos) é uma surpresa agradável para aqueles que gostam de produções com personagens femininas como protagonistas e ainda mais para aqueles que não conhecem a história de Anne Shirley, a adolescente que dá nome à série.

“Anne With an E”, mesmo que de forma tímida, consegue despertar a discussão de temas importantes sobre o que é ser mulher. Desde a criação de meninas para estudar ou cuidarem do lar, à “vergonha” da menstruação, por exemplo.

Antes de me debruçar sobre a série preciso deixar uma coisa clara: eu comecei a assistir “Anne With an E” sem saber que ela era baseada na história de Anne de Green Gables, livro de 1908 de Lucy Maud Montgomery. Talvez por isso o enredo tenha me chamado tanto a atenção e aqui é preciso fazer uma pontuação importante.

Há duas opiniões extremamente demarcadas sobre “Anne With na E”: para aqueles que conhecem a história da personagem Anne Shirley, a adaptação deixou a desejar tanto na construção da personagem principal como na forma de demonstrar o feminismo “intrínseco” dela; por outro lado, aqueles que não conheciam aprovaram os questionamentos e discussões abordadas na série.

Aqui, como não conhecia muito bem a história de Anne, primeiro vou expor minhas opiniões sobre a adaptação – mas no fim de tudo pontuo as críticas negativas.

 

“Anne With na E” – 🙂 

A minha surpresa (positiva) começou logo nos primeiros episódios, mas foi no 3º que eu percebi a intencionalidade da série de mostrar pinceladas de um feminismo. Nele, um grupo de mães se reúne para discutir a educação das filhas. O motivo? Elas acreditam que suas meninas merecem os mesmos direitos que os meninos. Em uma das cenas, inclusive, uma das mães faz menção ao “feminismo”, um termo que começava a ser descoberto.

A criação de meninas volta a ser discutida, e dessa vez com mais profundidade, quando Anne se recusa a ir para a escola e o padre local diz que não há problema, já que as meninas deveriam aprender a cuidar do lar para seus maridos no futuro.

Ele diz: “ela deve ficar em casa e aprender a cuidar do lar até que se case. E então o grande Deus disse: ‘não é bom para o homem ficar sozinho, eu devo fazer uma ajudante para ele’. Não há porque ela se preocupar com educação. Toda jovem deve aprender a ser uma boa esposa”.

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Ou seja: ambas as cenas mostram a presença absoluta do patriarcalismo. Na cena com o padre, vemos a realidade da época, que apesar de ser anos atrás, é perceptível ainda hoje na sociedade. Na cena com as mães, percebemos um relance de resistência e, por causa dela, conseguimos contrapor as duas realidades para criarmos, fora das telas, um momento de discussão.

A frase do padre desperta em Marilla, que é a “mãe adotiva” de Anne, um sentimento de impotência. Ela entende, pela primeira vez, que foi criada sem opção. A vida inteira ela cuidou da casa e do irmão e achou que não tinha como mudar isso. Agora, além de ver que há, ela sente uma ponta de revolta por ser apenas a “ajudante” e receber somente esse reconhecimento: auxiliar do irmão que trabalha e leva todos os méritos.

Outro comportamento de 2 personagens também deixa claro o feminismo natural da série. Anne diz que, apesar de querer ser noiva, não quer ser uma esposa (no sentido de cuidar apenas da casa e do marido). Além disso, ela diz que só se casará caso haja atração por intelectual. Josephine, tia da melhor amiga de Anne, é um dos melhores exemplos femininos para a protagonista, que não só apoia essa decisão como a incentiva.

“Vou te dar dois conselhos. Primeiro: você poderá se casar em qualquer momento da sua vida, se assim desejar. Segundo: tendo uma carreira, você pode comprar um vestido branco, fazer do seu gosto e usar quando bem entender. Sou a favor de trilharmos nosso caminho no mundo”.

Tia Josephine (que nunca se casou e viveu a vida toda ao lado de sua “companheira”) se torna uma mentora de Anne e mostra para ela que é possível escolher a profissão que quiser sem abdicar da possibilidade de se casar, caso queira, e sem se tornar uma esposa “do lar”.

Outro momento da série que provoca um certo incômodo é quando Anne tem sua primeira menstruação. Na escola, suas amigas dizem que ela deve esconder isso, afinal: “o ciclo menstrual é algo vergonhoso”.

De fato, a menstruação é considerada um tabu até hoje. Mas a forma como as meninas explicam para Anne desperta aquela sensação de “isso não deveria ser assim”.

Aqui vale um parênteses: a atriz que vive Anne, Amybeth McNulty, consegue segurar mais do que bem a série mesmo nos momentos cansativos. A intensidade que ela dá a personagem faz com que até os momentos mais tensos ou maçantes de tornem interessantes e cômicos.

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“Anne With na E” – 🙁      

O que mais incomoda na série é a forma como ela trata de assuntos densos, mas os aborda com a devida profundidade. Fica, no fundo, uma sensação de que a série é um tanto fraca nesse sentido.

Além disso, “Anne With an E” tem um lado excessivamente romantizado, o que também pode ser ruim. Tá certo que Anne Shirley é uma personagem extremamente sonhadora, mas o romance e o romantismo ao tratar de certos assuntos é invocado de forma errada.

Outro ponto negativo que não vou me alongar é a forma como “Anne With an E” “se esqueceu” de personagens femininas extremamente importantes para a formação de Anne, uma delas a sua professora, um exemplo de alguém que havia seguido os estudos. Na série, Anne tem um professor.

Aqui vou citar abertamente as críticas gringas que li. Todas, ao comparar a série com a história original, foram unânimes em criticar a forma com que o feminismo que é natural de Anne foi forçado a aparecer na tela.

Explico: é como se um comportamento empoderado e feminista só fosse possível em um ambiente extremamente patriarcal. Dessa forma, vários personagens masculinos da série foram construídos como sendo a “encarnação” desse sistema para que Anne pudesse ser durona e mostrar a forma de se bater de frente e passar por cima de qualquer padrão.

A parte ruim em relação a esse ponto é a crença de que só conseguimos visualizar modelos fortes e independentes de mulheres se elas são confrontadas. Elas não podem ter essa natureza sem que haja algo contra elas. É como se algo negativo fosse necessário para fazer despertar esse feminismo.

 

Mas afinal, vale a pena assistir “Anne With na E”?

Sim! A série cumpre um papel de fazer com que os espectadores se questionem sobre todos esses pontos (e muitos outros) que levantei e até abrir discussões ainda maiores.

Além disso, ela é um prato cheio para os sonhadores que adoram frases melodramáticas e nunca se cansam de deixar a imaginação voar.

Anne, claro, é um bom exemplo para as meninas com as suas frases: “meninas podem fazer tudo o que os meninos podem e ainda mais”; “eu quero ser a heroína da minha própria história”; “vou ser a minha própria esposa”.

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