Linguistas fizeram uma pesquisa sobre os papéis de gênero na franquia de princesas dos filmes da Disney. Para a surpresa de ninguém, um problema intrigante foi encontrado.

Nos primeiros filmes, Branca de Neve, Cinderella e Bela Adormecida, mulheres – as princesas e as coadjuvantes femininas – possuíam muito mais falas, ultrapassando inclusive as vozes masculinas. Isso aconteceu em parte porque os papéis dos príncipes eram bem menores. Nesse filmes também foi dado espaço para coadjuvantes mais ativas, como as fadas madrinhas de Aurora ou as irmãs de Cinderela. E apesar de Branca de Neve e sua madrastra serem as únicas personagens femininas do filme de 1933, ainda assim elas dividem 50% das falas com os sete anões, o caçador e o príncipe.

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Essas aí tem mais falas que a princesa, inclusive

Em 1989, A Pequena Sereia ressuscitou a franquia de princesas, mas tem até o menor índice de falas femininas. Isso se dá porque Ariel passa boa parte do filme muda, já que abriu mão de sua voz pra conquistar o Príncipe Erik. Mas também porque o restante dos coadjuvantes são predominantemente masculinos. O maestro da corte é um carangueijo chamado Sebastião, Linguado é o peixe melhor amigo de Ariel, além dos alívios cômicos como a gaivota chamada Sabidão. Nem a presença da vilã Ursula consegue se equiparar a quantidade de falas masculinas.

O mesmo se dá com filmes como Bela e a Fera, Mulan e Pocahontas. Mesmo tendo protagonistas femininas, a predominância é da voz masculina. Os coadjuvantes são masculinos em sua maioria, principalmente em papéis cômicos, com falas icônicas e memoráveis. Vide Lumiére e Mushu.

Até o grilo, que não fala, é indentificado como personagem masculino

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Nem Frozen, um filme sobre duas irmãs, escapou dessa estatística pertubadora. Tirando Elsa e Anna, homens dominam os diálogos, com papéis ativos, tais como o líder dos trolls, e Olaf, o boneco de neve.

Isso significa que, apesar da Disney colocar mulheres frequentemente como protagonistas, o estúdio parece ignorar que mulheres também podem ser personagens secundários, com falas engraçadas, ou mulheres inventoras, mulheres balconistas ou cantando sobre seus sonhos e bebendo nas tavernas. E apesar de haver vilãs, seus ajudantes sempre foram masculinos.

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Só homens cantam com Rapunzel

Para mim, só de nunca ter havido uma personagem feminina “ajudante”, com o mesmo status de Mushu, já diz muita coisa. É a perpetuação da mensagem que mulheres não são engraçadas por meio de sua perpiscácia. A única coadjuvante feminina que funciona como alívio cômico que consigo me recordar é Charlotte, a amiga de Tiana em Princesa e o Sapo. E nós nunca rimos com Charlotte, nós rimos de Charlotte e sua ânsia para se casar com um príncipe.

Casamento: nosso único e completo objetivo na vida

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Como sempre falamos aqui no Collant, representatividade importa. E meninas podem querer se ver não como a princesa, mas como a caçadora, a arqueira, a ladra. E a Disney é muito capaz de criar papéis femininos com esse perfil, só falta a vontade.

Conheça mais a pesquisa na matéria em inglês do Washington Post.

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