Quantas histórias de origem de super-heróis você conhece que começam com o sacrifício das duas mães? A história de America Chavez, aka Ms America, tem esse início em um universo alternativo dentro do multiverso da Marvel. America é também uma peça importante na nova cara dos quadrinhos que a Marvel apresenta para o público, que chega ao lado de outras 22 publicações protagonizadas por personagens femininas. <3

Com passagem por diversos times de heróis, inclusive Young Avengers, onde conquistou os corações do público, America finalmente ganhou uma revista para chamar de sua: America #1 chega às bancas em 2017. Anunciada durante a New York Comic Con, a revista está sendo escrita pela autora de YA Gabby Rivera, que ficou conhecida com Juliet Takes a Break, livro sobre uma garota lésbica porto-riquenha.

Em entrevista ao Refinery29, Gabby falou sobre o que deixou os fãs animados em America.

Uma coisa é a identidade: lésbica (queer no original) e latina. Ela também é uma presença positiva e tem jargões como “chico” e tem sentimentos por Kate [Bishop, aka Hawkeye]. Mas existem muitas perguntas sobre quais são os seus poderes, quem ela é e no que ela está interessada.

Capa alternativa para America #1 desenhada por Marguerite Saveaux

Capa alternativa para America #1 desenhada por Marguerite Saveaux

Gabby sabe que a Marvel foi atrás do seu talento por causa dos detalhes, e seguindo o conselho de uma amiga, ela não vai tentar escrever dentro do padrão do que se acredita ser uma revista de super-heróis – vai tentar trazer o “esquisito” de Juliet Takes a Break, para America.

(…) Que música ela escuta quando acorda de manhã? Ela escova os dentes usando roupa íntima? Que tipo de garota ela é? As perguntas fundamentais que você tem sobre alguém com quem você quer ser amigo.”

Particularmente, eu adoro que a autora vá trabalhar fora do padrão de história de super-heróis, já que uma revista solo é a oportunidade perfeita para desenvolver ainda mais uma personagem.

O que eu notei enquanto lia Young Avengers foi que America estava sendo puxada por diferentes personagens – Loki queria que ela fizesse isso ou aquilo, mas a luta não era dela. Ela era tratada como parte do time, mas sempre me perguntei o que ela ganhava com aquilo? Então, o meu pensamento para esse novo quadrinho foi que ela finalmente vai perguntar a si mesma essas perguntas: O que eu tenho para ganhar? Porque eu estou lutando com essas pessoas? O que eu quero é ir para a faculdade e eu quero começar de novo, e eu quero aprender sobre mim mesma e fazer isso por mim mesma. Então, essa era a grande coisa sobre a qual eu estava pensando. O que é mais Americana do que tentar ir para a faculdade e descobrir por si mesma?

Perguntada sobre onde o seu “elemento de super-herói” iria bater, Gabby respondeu:

America não sabe o quão poderosa ela é, mas ela vai descobrir. E os poderes que ela de fato tem vão ser expandidos, ela vai aprender como desenvolvê-los e como controlá-los – na mesma maneira com que filmes de super-heróis tem aquelas cenas em que eles estão treinando. Eu acho que alguns dos momentos Marvel mais divertidos vão ser quando trouxermos personagens importantes como Capitão América e a Tempestade. Eles vão pode ajudar America na sua jornada, ensinar sobre os seus poderes ou acompanhá-la pelo caminho. Seus ancestrais vão ajudá-la a desenvolver os seus poderes também.

America é da dimensão Utopian e suas mães se sacrificaram para proteger tanto a sua dimensão quanto o multiverso. Os fragmentos delas estão espalhados por todo o multiverso, o que pode impulsionar America a uma viagem descobrimento.

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Gabby Rivera, roteirista de America.

Sobre como a sua revista vai ser recebida pelos fãs de HQs:

Eu estou um pouco aterrorizada e intimidade por ser uma mulher queer* entrando no universo da Marvel. Por dentro, eu estou me perguntando se as pessoas vão ler a revista e querer me destruir por causa das minhas identidades? Por eu ser uma mulher? Você lê online que o pessoal não é muito legal, ou que existe assédio. Ou só o “você não pertence aqui porque você não conhece a história de cada uma das coisas.”

Se Gabby está preocupada com os trolls?

Não. Eu estou preocupada em não contar a história. Eu estou preocupada com as crianças que não receberiam essa história porque nós estamos com medos de trolls. (…) Eu fui uma troll de internet quando eu tinha 15 anos e estava com medo de sair do armário. Então quando eu vejo internet trolls tem uma parte de mim que se pergunta “o que está te machucando? O que você precisa? Podemos conversar? Onde dói?” É mais ou menos assim que eu vejo.

(…) Eu ia em chats de lésbicas no AOL e postava “O senhor odeia você”. Até que essa lésbica de um chat room me escreveu de volta “Vamos conversar, você está bem? Do que você precisa? Eu quero entender você.” E foi a primeira pessoa que fez esse tipo de conexão comigo, e mudou toda a minha vida. Me colocou no caminho de descobrir quem eu sou e porque eu estava despejando as minhas frustrações daquela maneira.”

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Capa alternativa de America #1, desenhada por Jamie McKelvie

Sobre mulheres de todas as formas e tamanhos sendo representadas na revista:

Esse é o plano. Eu amo mulheres. Eu me amo. Eu sinto que as vezes eu não sou considerada uma mulher. As pessoas assumem que eu sou uma pessoa masculina porque eu uso botas e chapéus. E pra mim feminilidade é tão flexível e tão sempre em expansão, e quão bonito é mostrar todas as maneiras nas quais ela se manifesta? E especialmente quando se fala de mulheres latinas e mulheres negras. A forma e o tamanho dos nossos corpos variam, e são igualmente presentes na comunidade e igualmente amados. Então, sim. Sim para essa questão.

É muito simbólico que, no ano em que Trump vai assumir a presidência dos Estados Unidos, uma revista intitulada America chegue às bancas protagonizada por uma mulher latina. Junto com os tantos outros títulos que a Marvel já tem e anunciou, America vai com certeza ajudar a manter a discussão sobre representação, justiça social e igualdade em pauta dentro do meio cultural norte-americano. Vai ajudar a superar a onda de ódio e medo que o resultado da eleição já instaurou no país.

Por aqui, a gente fica de olho pra quando a Panini vai trazer a revista. Você também pode assiná-la através da Comixology e receber as edições ao mesmo tempo em que ela é lançada lá fora. Existe ainda a Marvel Now, uma assinatura mensal em que você tem acesso ao acervo Marvel seis meses depois do lançamento.

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* o termo queer foi mantido quando a autora fala de si mesmo como maneira de respeitar a sua identificação.

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