Essa semana saiu a notícia que o infame biquíni de escrava da Princesa Leia estaria sendo aposentado pela Disney – na minha opinião, já vai tarde.

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Não é de hoje que o biquíni da única personagem feminina relevante da primeira trilogia incomoda uma parte da audiência e a própria atriz (Carrie Fischer), que teve que colocar o biquíni. Mas ainda tem um pessoal que não entende porque uma decisão desse tipo é importante.

Como eu já disse antes, Leia é muito mais do que a escrava de Jabba num biquini dourado mas, mas por motivos de machismo, ela é constantemente representada dessa maneira. Tem a ver com a libido punheteira nerd, tem a ver com o fato de que muitos homens precisam ver a mulher poderosa diminuída em objeto sexual para se sentirem melhor, tem a ver com a gente ficar repetindo essa imagem ad-infinito apesar da personagem ter tantas outras representações legais.

Star Wars voltou ao spotlight de uma maneira que não aconteceu nem quando do lançamento da segunda trilogia. Sim, a gente sempre respirou Star Wars em algum nível (poucas coisas no mundo nerd são tão onipresentes quanto a galáxia distante), mas hoje esse universo tem uma gigante por trás: a Disney. Muita gente diz que isso faz parte do conservadorismo da empresa, mas o fim do biquíni dourado vai muito além de uma suposta caretice, é sobre mostrar uma representação mais positiva, mais coesa e mais interessante para as meninas que estão chegando ao universo agora. É sobre acolher mulheres que já fazem parte do fandom, é sobre passar uma mensagem mais justa de uma das personagens mais importantes do sci-fi no cinema.

Princesa Leia

Eu escutei/li todo tipo de afirmação em defesa do biquíni (como se o fim do licenciamento do biquíni para action figures e brinquedos fosse também apaga-lo do episódio VI), e estou tomando um tempo para rebater alguns desses argumentos:

“A cena é sobre empoderamento, sobre ela se livrar das amarras do patriarcado.”

Eu consigo ver que a Leia se libertar do Jabba e sufoca-lo com as correntes pode ser interpretado como uma imagem forte, mas ela não precisava ter feito isso de biquíni. Essa cena não é sobre ela se empoderando, é sobre diminuir a ÚNICA personagem feminina central do filme em um objeto, uma imagem que nerds passaram os próximos trinta anos ~admirando˜. Eu realmente acredito que uma mina que faz cosplay de Leia escrava pode resignificar a imagem e tirar empoderamento disso, mas acho que se nós olharmos na esfera maior, essa cena é muito mais negativa do que positiva. Até essa cena Leia quase não tinha (ou simplesmente não tinha) sido sexualizada dessa maneira. O biquíni não é algo empoderador, é marketing do pior tipo. Vamos virar o jogo. Digamos que fosse Han a salvar leia de um credor. NUNCA que ele estaria de cuequinha dourada e corrente amarrada no pescoço, em parte porque Harisson Ford teria confiança e espaço o suficiente para se recusar a ocupar essa posição, em parte porque ele de cueca não seria interessante para o que não seria interessante para o público da época.

“Leia se coloca em risco para salvar o seu homem e isso é positivo, humaniza a personagem.”

Quantas milhares de histórias sobre mulheres se submetendo a horrores em pró de seus homens existem? Muitas. Não era novidade, muito menos uma personagem feminina ser diminuída ao sexo para salvar um personagem feminino. É uma história que eu não consigo não sentir refletir nas tantas e tantas histórias de mulheres que se ferram para ajudar ~seus homens~. Eu sou super a favor de histórias de mulheres incríveis chutando bundas e salvando seus amados (olá inversão de clichês \o/), mas existem maneiras e maneiras de abordar isso e, de novo, eu volto a dizer que Leia não precisava ter se tornado um objeto sexual para salvar seu homem. A personagem de Anne Hathaway em Interestelar atravessa o espaço para tentar salvar seu namorado, ela fala sobre a motivação dela ser o amor e em momento nenhum ela é sexualizada. Ela podia ter feito isso usando roupa. Não existe justificativa narrativa ou de desenvolvimento de personagem que justifique a necessidade de transformar essa parte do plot em Leia como objeto sexual. Além de tudo que eu já disse, é também uma visão machista de como uma personagem feminina pode agir em pró de alguém, como se sua única moeda de luta/ barganha fosse a sua sexualidade. Leia é senadora e líder da rebelião, ela realmente não precisava se submeter a esse tipo de situação para salvar Han.

Esse “humaniza a personagem” parece ignorar tudo pelo que a Leia já passou como, por exemplo, ver o seu planeta inteiro explodir. Essa sensação de que personagens femininas fortes precisam ser humanizadas parte do princípio de que se uma personagem feminina é decidida, mandona e tem autoridade ela não é tão bem-recebida, o que pode até ser verdade, mas não deixa de mostrar o quão machista é a nossa visão. Han pode ser um babaca fanfarrão (que atirou primeiro), mas Leia não pode ser uma mulher empoderada, ela precisa ser humanizada. Porque de que outra maneira a gente pode se identificar com ela? Mulheres precisam sempre ter um lado frágil. Então mesmo a gente tendo visto Leia perder o seu planeta inteiro e se apaixonar, ainda há a necessidade de “humaniza-la”.

“É um filme para adultos, se fosse só para crianças eu entenderia”.

Taí outra mania que a gente precisa perder, essa coisa de achar que porque o filme/livro/quadrinho é para adultos tudo bem sexualizar uma personagem. Personagens femininas parece que não podem ser consideradas completas sem que alguém, em algum momento, as sexualize. Chega a ser engraçado como as pessoas vão a todo tipo de extremo só para mostrar um peitinho, um decote, uma posição indiscreta. O desenhista do quadrinho da Princesa Leia chegou a dizer que “nem desenhar a personagem em poses sexys ele pode.”

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Quase fiquei com dó, coitado. Não pode nem sexualizar a personagem, tadinho. Não pode nem desenhá-la em posições ginecológicas. É preciso que os profissionais por trás desses produtos entendam que existem outras maneiras de representar uma mulher, que ela não precisa ser sensual/sexy o tempo todo e que caso ela seja, isso não precisa envolver hipersexualização. A agente Bobby, de Agents of Shield, é MUITO SEXY e nem um pouco híper-sexualidade, eu a considero um dos melhores exemplos de como criar uma personagem sensual sem transformá-la em um objeto sexual ambulante.

Escrevi tudo isso, mas vale lembrar que nada é oficial. Então antes de tudo, acalmem-se. Porque mesmo que Leia não possa mais ser vista em biquínis dourados nos merchandisings mais novos, o que não falta é personagem feminina sexualizada no universo nerd. Particularmente eu acho que a Disney vem constantemente fazendo um trabalho muito bom no quesito representatividade, e no modo como ela vem lidando com a resposta que recebe de seus fãs. Caso isso venha a se concretizar, vai ser mais um passo no caminho correto.

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