Essa última semana foi uma semana ruim para existir, para ter olhos, ouvidos e, principalmente, para ser mulher. A veja fez uma reportagem ridícula tentando diminuir o lindo #askhermore e deslegitimar a luta das atrizes por uma representação mais humana e por salários iguais. Antes disso Alexandre Frota foi ao programa do Rafinha Bastos e numa entrevista horrorosa, contou sobre aquela vez super hilária em que ele estuprou uma mãe de santo desacordada. Nossa, gente – tem coisa mais engraçada do que um homem contar no seu programa que estuprou alguém? Aparentemente não, já que até aplauso o apresentador incentivou.

Já tem quem diga que é “só um causo”, Rafinha disse que “é piada ensaiada com a platéia” e já foi desmentido, Alexandre Frota professou que “Ignorar é a forma mais elegante de se defender da maldade”. No mundo de Frota de de Rafinha a maldade vêm das mulhers, dos negros, dos homosexuais, dos transexuais que se ofendem com as ofensas que eles chamam de piada. Humor deveria ser inteligente, mas quando se vive dentro do próprio umbigo, almejar alcançar um patamar além é admitir que talvez você esteja errado – e nossa como é difícil para essas pessoas assumir a culpa por ser babaca.

Eu já falei antes sobre como os estereótipos negativos que a televisão cultiva podem prejudicar a sociedade e o modo como funcionamos como grupo, mas esse tipo de situação vai além de cultuviar a misoginia – nesse caso o estupro foi aplaudido, saudado, celebrado.

Me assusta que tão pouco tenha sido dito durante muito tempo na grande mídia sobre isso. Quando um site um pouco maior tocou no assunto, logo o esquerdomacho veio para cagar o rolê. Gente, vamos entender que a intenção de piada não alivia o conteúdo, que vai ter patrulha feminista sim – chega de ver misoginia ganhar passe livre por se desfarça humor e a tal “liberdade de expressão” que só defende quem é privilegiado.

Esse texto aqui de baixo é da Maria Gabriela Saldanha e resume muito bem o porque esse tipo de situação, real ou não, é hediondo.

[Divulgando o texto à parte, pois é uma denúncia grave e seria importante circular]

SOBRE O ESTUPRO CONFESSADO POR ALEXANDRE FROTA, APLAUDIDO EM REDE NACIONAL, E A MISOGINIA NO DISCURSO DE DANILO GENTILI E RAFINHA BASTOS

Dessa vez, uma caricatura patriarcal chamada Alexandre Frota quebrou o próprio recorde de misoginia. Para isso, contou com a anuência midiática de uma figura igualmente misógina: Rafinha Bastos. Para quem não se lembra, Rafinha declarou, há alguns anos, que “toda mulher que reclama que foi estuprada é feia” e que “o homem que cometeu o ato merece um abraço, em vez de cadeia”. As falas compõem trecho do stand up do apresentador, conhecido por atacar Wanessa Camargo durante a sua gravidez, afirmando que “comeria ela e o filho”, declaração essa que custou sua saida do programa CQC e uma ação judicial.

Nesta semana, em seu programa “Agora é Tarde”, anteriormente apresentado por Danilo Gentili* – também conhecido por seu festival de piadas racistas e misóginas – Rafinha recebeu um relato chocante de estupro cometido pelo então convidado, Alexandre Frota, contra uma Mãe de Santo. Descrevendo toda a situação em tom de piada, com contornos que ridicularizam a religiosidade de matriz africana e sob incentivo constante do apresentador, Frota relatou que foi aconselhado por um amigo a procurar uma Mãe de Santo ainda nos tempos de Rede Globo. Assim, ao chegar ao terreiro, ela o levou até um quarto, dizendo que ele “estava carregado”. Observando o corpo daquela mulher, durante o preparo dos trabalhos de limpeza (nessa parte, abordou uma moça da platéia para que o ajudasse a ilustrar o ocorrido), ele se aproximou da Mãe de Santo, deixando-a de quatro, ignorando suas recusas, e pressionou tanto a nuca da vítima com uma das mãos que ela desmaiou. Sim, desmaiou. Sim, tudo foi descrito com orgulho. No entanto, ele consumou o ato mesmo se dando conta de que ela estava desacordada, enquanto as demais pessoas presentes no terreiro começaram a bater na porta e perguntar se estava tudo bem. Frota, então, tentou acordá-la sem sucesso e abriu a porta, dizendo que ela simplesmente caiu no chão, simulando estranhamento. A entrevista foi ovacionada pela platéia.

Um crime hediondo foi confessado e aplaudido em rede nacional. Como isso é possível? Ora, num país onde uma mulher é estuprada a cada 12 segundos, não é difícil compreender que uma estatística alarmante como essa é produto de uma cultura que valoriza e cotidianiza a violência sexual. Cabe ressaltar que a cultura do estupro apenas culmina na prática desse crime, mas obedece antes a um longo processo de naturalização da violência contra a mulher e institucionalização do ódio de gênero. Nesse processo, o papel da mídia na afirmação da hierarquia entre gêneros é fundamental: a cada novela onde a mulher é objetificada e infantilizada, a cada comercial que reafirma os padrões de beleza, a cada programa de auditório onde o papel feminino se resume a ser assistente de palco… Todos os dias nos deparamos com muitas versões televisionadas da idéia de que a mulher é coadjuvante de sua própria existência e da dinâmica social. Se ela não dispõe de protagonismo politico, a sua fragilidade “autoriza” a violência sempre prestes a acontecer no patriarcado e essa violência, associada à objetificação crescente, atinge o seu ápice material no estupro. Apenas material, uma vez que a dimensão psicólogica e “engatilhada” do estupro ronda o feminino desde o nascimento.

Infelizmente, a maior parte do público só atenta (e quando atenta) para a gravidade do problema quando uma confissão como essa tem vez, desconsiderando episódios tidos como “mais amenos” (vide Rafinha e Gentili) que reafirmam a mentalidade machista. Além disso, a certeza da impunidade dialoga com o direito do homem sobre o corpo feminino, tratado como um bem de consumo, com a desimportância dada à cultura do assédio e com a legitimação do papel masculino dominador pela indústria pornográfica. Tal “combo” fornece as ferramentas que construirão uma aberração misógina do porte de um Alexandre Frota, o qual, por sua vez, limpará um discurso criminoso por meio do humor e servirá de referência para milhares de brasileiros alcançados pelo programa. Esses milhares podem nunca efetivar materialmente um estupro, mas comungarão do discurso do assédio, da objetificação e da desigualdade entre gêneros, que prepararão novos estupros. E assim caminharemos em círculos na estatística dos 12 segundos fatais. Trágico, ainda, é passear pelo Google procurando informações a respeito e quase não encontrar matérias versando sobre o ocorrido. A maioria dos sites destacou, em vez disso, o duelo de dança entre Rafinha e Frota no programa.

Não sabemos quem é a Mãe de Santo em questão. Não sabemos a sua idade, a sua cor, a sua classe, como ela vive, o que ocorreu após o estupro. Mas, muito mais do que “estamos”, SOMOS com ela. Poderia ser com qualquer uma de nós. Muitas vezes foi. E agora assistimos de nossas casas ao show de horrores que gargalha e se orgulha da nossa dor. Levantamos aqui uma campanha pelo amplo debate acerca do episódio, na expectativa de que o Ministério Público adote providências diante do relato, que além da violência sexual é carregado de racismo, pela forma desrespeitosa com que Frota se refere a uma fé de matriz afro. Notem que o discurso por ele empregado coloca os elementos religiosos num plano de baixa estereotipagem e excentricidade que facilitaria a ridicularização, criando um cenário onde a mulher se torna ainda mais frágil (passando de vítima a personagem cômico de uma cena apelativa), uma vez que o preconceito das pessoas diante dessa realidade religiosa relega os que nela vivem a uma condição inferior. De qualquer forma, ainda que transitando em meio a uma descrença diante das instituições, nós resistimos. Vivemos um tempo árduo, mas especial, onde o Movimento Feminista se levanta e populariza; onde mais de 60% das mulheres do país já se declaram feministas; onde dizemos umas às outras que somos cada vez mais irmãs, mães, filhas, namoradas, amigas, companheiras umas das outras. Os machistas que pensam ter passado apenas constituem um material de denúncia e análise para a consolidação da mulheres em luta. Virão como exemplo para que digamos com força, num momento como esse, que frotas, rafinhas e gentilis de toda parte não passarão.

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*Sobre Danilo Gentili, que ridicularizou Michele Maximino, maior doadora de leite materno do mundo, é importante divulgar, buscando apoio na pressão popular, que a audiência referente à ação movida contra o apresentador ocorrerá no dia 4 de março, às 13h, no Fórum de Olinda. Michele chegou a doar 417 litros de leite materno em 11 meses, batendo um recorde mundial. Com o apoio do marido, rodava semanalmente 80km para entregar o material à maternidade Jesus Nazareno, em Caruaru. Gentili chegou a chamá-la de “vaca” durante o programa, rendendo constantes situações de humilhação para Michele, chamada de “vaca do Gentili” em sua cidade, da qual teve que se mudar. Nosso total apoio também à Michele Maximino, que ela vença essa briga contra o patriarcado, em nome de todas as mulheres desse país.

Por dias em que o humor nacional aprenda a fazer o punchline em cima de quem acha que estupro é algo a ser aplaudido. E assuma a culpa quando erra a mão e faz cagada.

Por dias melhores para ser mulher, de maneira geral.

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